CRIS FAGA
"Nada aconteceu, além de eu descobrir que uma máscara, aliás, duas, a minha e a dele, não atrapalham o surgimento da faísca" CRIS FAGA

As máscaras

"Fiquei esperando arrefecer; não tenho mais vinte anos, não acredito mais nessas bobagens que a ficção nos dita como objetivo de vida"

Natalia Timerman *, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

Se eu disser que aqui na minha frente, nesta sala de espera, neste consultório de número 1006, um dos tantos conjuntos comerciais deste prédio, deste bairro, desta cidade, se eu disser que aqui está este homem, ninguém acredita.

Eu o reconheci imediatamente, mesmo sendo só a segunda vez. A primeira foi daquele jeito: você se vê diante de alguém e algo pulsa, algo acontece entre os dois olhares, algo que a presença instaura e faz mudar o próprio olhar, cada um deles, cada um dos polos do que se pode poucas vezes chamar de encontro. Mas nada aconteceu; nada aconteceu, além de eu descobrir que uma máscara, aliás, duas, a minha e a dele, não atrapalham o surgimento da faísca. Porque só vi seus olhos, sua sobrancelha, sua testa, o cabelo, e o conjunto, a postura, o discreto mudar de tônus que alguém de fora provavelmente não perceberia, mas eu sim, eu percebi. Ele também, eu sei. Porque ficamos nos olhando, nos buscando, indo um atrás do outro, sem dizer palavra, sem gesto que nos denunciasse, ou que sequer confirmasse interesses, sem nada que, suponho, alguém pudesse destacar do comportamento comum de pessoas que estão visitando uma exposição. Sem nada que pudesse sobressair da reação de qualquer pessoa diante de uma obra de arte, nem mesmo quando estivemos, ele e eu, diante da mesma foto, diante daquela pessoa interrompida em seu passo de dança, feita então escultura diante da janela, da cidade, um pé em ponta, a ponta dos dedos da mão oposta tocando o chão, a pessoa transformada em objeto e então o objeto, a planta ali do lado, tornada pessoa, tudo isso diante da janela, diante de nós, um ao lado do outro diante da fotografia, nossos gestos como que interrompidos cada um pela presença flagrante do outro, ainda que só nós dois, tenho certeza, só nós dois soubéssemos disso pois ninguém mais poderia notar a temperatura aumentar a partir da gente. 

Passei os próximos dias com algo reverberando de sua presença. Imaginei-o fotógrafo, imaginei seu divórcio, imaginei seu tempo. Imaginei que dançasse bem, que trepasse bem, que fosse alguém atento aos instantes. Imaginei que tenha seguido todos os protocolos de isolamento, mas isso talvez fosse mais dedução, pois ele usava uma NPPF 2. Cheguei a imaginar seu cheiro, como poderia encontrá-lo, voltar à exposição? Procurar no livro de assinaturas, assinatura por assinatura, adivinhar qual seria sua letra, seu nome, passar o resto da vida com ele? Fiquei esperando arrefecer, afinal de contas, não tenho mais vinte anos, não acredito mais nessas bobagens que a ficção nos dita como objetivo de vida, viver grandes histórias, rechear nossa parca vida de dramas que nos fariam escapar da insignificância.

E então, isso agora. Qual a chance? Qual a chance de ele ser consultado na mesma tarde que eu, no mesmo consultório, talvez pelo mesmo médico? 

Mal consigo olhá-lo, e no entanto meu não-olhar o devora, é um vácuo que o suga, que o traz para dentro da minha vida. Minhas mãos suam, não sei o que fazer com as pernas, se as cruzo, não sei como conter meus pés que batem constantemente no chão, meus pés que quase dançam, enquanto eu quase sufoco dentro da máscara, tentando respirar devagar o ar quente, o ar tantas vezes respirado, o ar angustiado que sai e entra em mim.

O nome dele então é Fábio. 

Ele olha para mim ao se levantar, ele me olha por cima da máscara, continua me olhando ao seguir o gesto da moça que o conduz para lá da porta, me olha com suas costas, me olha até quando deixa de estar.

Em seguida, escuto meu nome, não, eu não posso não estar quando ele sair, mas chegou minha vez, não é o mesmo médico então, Fábio, o nome dele, que ficou ecoando na minha cabeça na voz da secretária durante toda a minha consulta, já não sinto falta de ar, não essa, não a deixada pela covid, está tudo maravilhosamente bem, eu só preciso sair desta sala o quanto antes, antes que o Fábio saia, doutor, só preciso encontrá-lo, falar com ele, dizer venha para minha casa, só preciso ir.

Mas o doutor ausculta minha óbvia taquicardia e não adianta eu explicar, pego o pedido do Holter de cima da mesa e saio para o vazio da sala de espera. Penso em perguntar algo sobre o paciente que entrou antes de mim, mas não tenho coragem. Ainda tenho esperança de encontrá-lo esperando o elevador.

Desço só.

Desço em direção à minha vida, à minha vidinha, espero a porta do elevador se abrir desembocando na minha agenda de fim de ano, vou em direção aos reencontros, enfim, aos planos que voltarei a colocar na minha to do list para o ano que vem, agora que a pandemia quase passou. 

Mas Fábio está ali. Os braços cruzados, diante do prédio, diante de mim, me esperando. Uma vida inteira nova, uma esquina para que eu enfim dobre depois dos quarenta, uma história para contar, deixar escrita. 

Ele tira a máscara.

Fábio. 

Fábio tem um nariz estranho, uma boca que não fica bem naquele rosto, um sorriso que não é aquele que o meu Fábio tinha, peças que não se encaixam, como um quebra-cabeça montado com as peças erradas, um erro dentro do qual caem os olhos, o corpo, ele inteiro, talvez ele fosse até bonito, talvez, até, se eu o tivesse conhecido sem máscara, talvez todas as suas partes fizessem sentido em suas posições, mas agora, assim, de repente, o nariz, a boca, os dentes, e eu finjo que não o vejo e aceno para o táxi com o sinal luminoso que passa.

* NATALIA TIMERMAN É MÉDICA PSIQUIATRA. TAMBÉM AUTORA DA COLETÂNEA DE CONTOS ‘RACHADURAS’, FINALISTA DO PRÊMIO JABUTI, E DO ROMANCE ‘COPO VAZIO’.

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Busca por novos desafios inspira os escritores

A convite do ‘Estadão’, cinco autores escrevem sobre o futuro das relações no pós-pandemia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

O ponto de partida era um tema aberto: como ficarão as relações (sociais, amorosas, profissionais) depois da experiência da pandemia. A resposta veio nos contos que você encontrará nas próximas cinco páginas, escritos especialmente para o Estadão pelos autores Felipe Franco Munhoz, Joca Reiners Terron, Natalia Borges Polesso, Natalia Timerman e Tobias Carvalho.

O desafio mostrou que, sob o olhar atento desses artistas, a relação entre as pessoas continuará ainda mais difusa. “Uns se foram, outros muitos ficaram e agora também procuram palavras que deem sentido ao mundo, um rumo”, escreve Natalia Polesso, em Agora?, um belo resumo das incertezas que marcam a maioria dos personagens.

Distanciamento, uso de máscaras, as recomendações sanitárias surgem também como novas implicações a influenciar os caminhos amorosos, mas, em meio às incertezas despertadas pela pandemia na maioria das pessoas, há quem consiga assumir o rumo de sua vida, mesmo diante das tentações despertadas por paixões passadas ou futuras – é o que mostram Natalia Timerman e Tobias Carvalho em seus contos com final redentor.

Por outro lado, Joca Reiners Terron prefere uma ode à solidariedade a apresentar um show de esperança, enquanto Felipe Franco Munhoz enfrentou o desafio de escrever uma espécie de continuação (livre, contemporânea e pós-pandêmica) do conto Os Mortos, de James Joyce. Bem-sucedido, como os demais.

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Agora?

"O futuro era um passo, um sorvete derretido, e o mais valioso dos entendimentos era de fato um presente"

Natalia Borges Polesso *, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

Na linha em que o mundo se divide entre o sonho e a matéria, ela fixa os olhos, procurando uma palavra. Diz: horizonte. Mas não é bem isso, pensa. Faz as pazes com o cansaço. Sente a tensão dos ombros se desfazer. Ouve a espuma do mar se desfazer em pés alheios. Desfaz a memória do caminho. Caminhou tanto nos últimos meses. Não foram andanças vagas, tinha muito a fazer. Cuidou de quem necessitava cuidado. Uns se foram, outros muitos ficaram e agora também procuram palavras que deem sentido ao mundo, um rumo. Pensa a esmo o que vem depois disso tudo? As palavras agarram-se ao vento e batem nos ouvidos de um ambulante que está ali naquela praia.

– Tu diz lá longe, no final da água. Quer dizer, no final do que se vê da água?

– Também.

– Vem mais água, depois terra, e gente e segue mundo.

– E segue mundo?

– Aham. E tenho a impressão de que nos olham de volta – seca o suor.

– Eu imagino bem isso. Que alguém me olha de volta com a mesma pergunta, como se fôssemos a mesma pessoa.

– Tu diz simbolicamente?

– Não, digo exatamente.

– Como um duplo.

– Isso. Um espelho.

– Que estranho e maravilhoso seria, não?

– É.

Demora-se um tanto na contemplação.

– E o que essa outra pessoa esteve fazendo?

Encara o vazio. Não há mais ninguém por ali, apenas ela, conversando com o eco dissonante do futuro: o que vem depois. Senta-se aliviada por saber que a vida segue, que o depois é uma possibilidade de futuro, uma qualidade do sonho e da matéria e mora naquela linha para onde se olha. Lá existe algo. O futuro só existe para quem tem gana, ímpeto, movida – ouve o vento sussurrar – o futuro – ele ri com desdém – pergunte a uma criança sobre o futuro. Não sobre o que ela será ou sobre elaborações tecnológicas, pergunte o que vem depois.

Agora há uma criança ao seu lado.

– Amor, o que vem depois?

– Depois?

– É, o que vem depois?

– Depois de agora?

– Isso.

– Sorvete, eu acho.

– Sorvete? – ela sorriu.

– É.

– De que sabor?

A criança sorri de volta anunciando seu desejo.

– De morango? Não! Chocolate! Não, não, coco. Não, espera. Tem de morango e chocolate com coco, será? 

– Vamos perguntar. 

Pega a criança pela mão. Andam contentes até a barraquinha. É um buffet.

– Olha, tem muitos sabores.

– Oba!

Se serve dos três sabores que tinha mencionado. Ela faz igual.

– Tu também queria bem esses?

– É, eu acho que sim. Não sabia bem dizer o que queria até tu dizer.

– Então o que vem depois é igual pra mim e pra ti.

A mulher se cala admirada com a sabedoria da criança e busca com a colher se servir dos três sabores juntos. O gosto é bom. É simples. Quase previsível não fosse o coco. Sente uma alegria gelada descer pela goela, sente que a criança tem toda razão. Olha as outras pessoas ali sentadas, considera suas vidas, considera a vida dela própria e vê que, apesar de todas as dificuldades, teve e tem escolhas. Por um momento se surpreende ao ver os rostos das pessoas descobertos. Todos desmascarados e aquilo agora tinha outro sentido. Lembra-se das rotinas hospitalares, os cuidados, tudo que agora estava distante. Agora não está no hospital. O sentimento se dissipa. Volta ao presente.

– O que tu quer ser quando crescer? – a criança pergunta a ela.

– Quando eu crescer?

– É – e lambe uma grande quantidade de sorvete que derretia pela mão.

Ela respira fundo e tenta confirmar que é mesmo uma pessoa adulta com uma vida já feita e com o caminho do querer ser algo há tempos definido.

– Eu sou enfermeira – pensa um tanto – mas queria ser estilista.

– Estilista? O que é isso? É quem faz listas? Quem vai no supermercado? Não! Quem trabalha empilhando coisas no supermercado!

Ela ri sem muitos pudores. A criança fecha a cara.

– Desculpe. Eu não estava rindo de ti – passa a mão nos cabelos desgrenhados da criança. – Quer dizer, estava rindo, porque tu disse uma coisa muito boa. Foi inteligente e engraçado.

Satisfeita empurra o pote, o sorvete quase no fim, restava uma calda mista de uma cor esquisita.

– Ficou ruim agora, sorvete é bom gelado, senão vira outra coisa. Essa meleca.

– Verdade.

– Mas então tu quer ser isso aí e não enfermeira? Por quê? Enfermeiras são legais. Na época da pandemia, eu não lembro, porque eu era mais ou menos bebê, minha mãe dizia que as enfermeiras estavam na linha de frente, tu foi lá?

– Lá onde?

– Na linha de frente, ué.

– Sim, eu fui. 

– E como era?

– Triste e cansativo – ainda pensa muito naquele tempo, tem sempre que fazer um esforço para se destacar da lembrança, a memória é muscular, um cansaço. – Mas às vezes era alegre, quando as pessoas iam embora do hospital curadas.

– Eu vi no YouTube velho. E tiveram as palmas, né? Isso é bem melhor do que ser elitista!

A mulher ri de novo.

– Certamente, é bem melhor. E tu o que quer ser quando crescer?

– Eu não sei. Não pensei nisso ainda. Falta muito tempo para eu crescer. 

Ficaram em silêncio. A mulher não quis contar sobre como o tempo podia ser cruelmente veloz.

– Quer saber o que eu quero ser agora?

A mulher se vira interessada.

– Agora? O que tu quer ser agora?

– É!

A criança lhe oferece uma longa e complexa resposta, que envolve sorvetes, passeios, cães, gatos, passarinhos, grama, bolas e piscinas, computadores, aviões, escola e desejos elaboradíssimos. E depois lhe atinge em cheio:

– E o que tu quer ser agora?

A mulher a encara e pensa que enquanto existirem haverá futuro, que o futuro era um passo, um sorvete derretido, e que o mais valioso dos entendimentos era de fato um presente. Agora. E repetiu a pergunta para si, como se fosse um mantra:

– Agora. O que tu quer ser agora?

* NATALIA BORGES POLESSO É DOUTORA EM TEORIA DA LITERATURA. AUTORA DE ‘A EXTINÇÃO DAS ABELHAS’, ELA JÁ VENCEU TRÊS VEZES O PRÊMIO JABUTI

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Ex-ex-ex

Talvez eu tenha uma parcela de culpa: quando começamos a ficar, perguntei o que ele achava de relacionamentos abertos

Tobias Carvalho *, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

Estou tentando ligar pro meu ex com um celular emprestado. Eu e os meus amigos estamos podres de cansados e bêbados de Corote, no fim de um bloquinho de carnaval, e estou a um passo de fazer a única coisa que prometi não fazer logo na primeira vez em muito tempo em um evento com tanta gente: ligar pro meu ex. Seria normal que os amigos interviessem, mas hoje eles não têm coragem.

Tudo começou com a quarentena: eu e meu ex terminamos dois dias antes de tudo fechar. Além de ficar solteira, tomei a decisão confortável mas meio humilhante de voltar pra casa dos meus pais no interior. O aluguel era muito alto, não fazia sentido ficar em Porto Alegre. Até porque eu nem teria o namoro pra aproveitar.

A vida ficou mais fácil. Almoço pronto, roupa lavada, dinheiro sobrando, gente em casa. Eu botava Chitãozinho & Xororó na hora de cozinhar com a minha mãe. Por um tempo, foi OK lidar com aquele término – eu e meu ex tivemos ao todo cinco términos, mas o último, o único que partiu de mim, foi derradeiro. E imperdoável.

Eu e ele nos conhecemos um ano antes, no minimercado da esquina. A gente morava na mesma quadra. Ele dividia apartamento enquanto eu morava sozinha, e por isso passamos a nos ver mais na minha casa. Isso contou na hora de voltar a morar com os pais: eu não queria descer pra comprar cigarro e encontrar o ex, nem ficar num apê que tinha a droga do cheiro dele.

O primeiro término aconteceu porque inventei que estava gripada pra não ir no aniversário da mãe dele. O segundo foi porque eu não dividi o MD em partes iguais num festival de música eletrônica na praia. Era sempre umas besteiras. O terceiro e o quarto foram pelo mesmo motivo: ele achava “ridículo” o jeito como eu “me insinuava” pros meus amigos homens. Na verdade, ele tinha ciúme por qualquer coisa. Talvez eu tenha uma parcela de culpa: logo quando começamos a ficar, perguntei o que ele achava de relacionamentos abertos. Quase que ele desistiu de mim. Durante todo o relacionamento, o guri nunca esqueceu essa maldita pergunta.

O último término foi depois que recebi mensagens de um perfil esquisito, com poucas fotos, de um menino de cabelo encaracolado que veio dar em cima de mim. Eu nunca dava bola pra caras assim, mas achei logo de cara que podia ser meu namorado fazendo um teste de fidelidade comigo. Ele não foi brilhante na enganação. O tal garoto disse que morava “na subidona da Ramiro”. Eu podia ouvir a voz do meu namorado falando isso. Fui até o fim, e marquei um encontro com esse perfil desconhecido no mesmo horário em que eu estaria com meu namorado na casa de dois amigos meus. A gente ia ensinar eles a jogar truco. Troquei mensagens com o perfil e observei se meu namorado pegaria o celular quando chegassem as respostas. Ficou claro que era ele no meio do truco. “Nesse jogo é bom blefar bastante,” meu namorado disse. “Por isso que a amiga de vocês é tão boa.”

Devolvi as coisas dele no dia seguinte, e então veio a pandemia e não nos falamos por meses. No começo, senti só raiva, aí começaram a aparecer as lembranças boas, a gente demorando na cama no sábado de manhã e imitando sons de cachorro e pedindo tele-entrega de comida gordurosa e conversando a tarde toda. Ele me disse uma vez que a gente ia casar e não contaria pra ninguém, isso no dia do festival de música em que a gente brigou por causa de uma anfetamina. A gente se machucava com frequência, mas o carinho era intenso também. Eu encontraria outro cara com quem tivesse uma sintonia tão boa, no sexo e nos papos?

Durante a quarentena, passei pela fase da meditação, do ioga em casa, dos filmes de infância. Tive dias radiantes e outros em que eu poderia cometer um crime tipo Suzane von Richthofen contra meus pais. Depois de um ano e meio, voltei pra Porto Alegre. Aluguei um apê num bairro vizinho. Mas continuava pensando no ex. Voltaram os rolês, e eu não queria correr o risco de encontrar ele.

Baixei o Tinder e tive experiências diversas. Teve o cara de 31 anos que tinha perdido a virgindade com 30, e o guri que ia se mudar pro exterior em dois meses e só queria um lance casual. Quando eu começava a achar que ia ficar solteira pra sempre, uma amiga me levou em um ritual de ayahuasca em uma estância em Viamão, e a maior certeza que eu tive quando voltei foi de que eu não precisava de macho nenhum pra ser feliz. Isso depois de vomitar as tripas e amaldiçoar mentalmente minha amiga por ter me levado.

Pra coroar o fim da exigência das máscaras contra a covid-19, o maior bloquinho de carnaval de Porto Alegre voltou. Dancei funk com meus amigos, me entupi de cachaça barata e só voltei a mim quando vi meu ex no meio da multidão. A gente só se deu oi, e parei com os amigos no meio-fio e segurei o choro. Depois de passar de novo pela mesma multidão, apalpei os bolsos e não achei meu celular. Eu ainda pagaria as prestações do celular por mais um ano, e meu cartão de crédito estava preso na capinha.

Não segurei mais choro nenhum. As fotos que eu tinha com o ex estavam no celular. Estava tudo lá.

Depois de chorar, peço o celular emprestado pra uma amiga. Agora estou ligando pro ex. Os cinco amigos veem que vai dar merda mas deixam acontecer.

O ex atende e eu digo: “Preciso te encontrar. Podemos?”.

Ele responde: “Oi. Eu sabia que isso ia acontecer um dia. Tu só consegue ser feliz comigo e tu sabe disso? Onde tu tá?”.

Eu mando ele pro inferno e desligo. Preciso de mais um Corote. É tempo de celebrar, afinal.

* TOBIAS CARVALHO GANHOU O PRÊMIO SESC LITERATURA NA CATEGORIA CONTOS COM SEU LIVRO DE ESTREIA, ‘AS COISAS’. É AUTOR TAMBÉM DE ‘VISÃO NOTURNA’

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Na véspera de um Natal passado

"Naquela mesma esquina onde morava agora, ele reconheceu uma coisa impensável nos rostos que cruzavam a faixa de pedestres"

Joca Reiners Terron *, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

Na véspera de um Natal passado, enquanto sucumbia à febre coletiva das compras atrasadas e destinadas a não se sabe quem, especialmente em seu caso, ele ficou preso àqueles olhos. Aconteceu numa faixa de pedestres da Avenida Paulista, ao lamentar sua sorte: apesar de se ver nas ruas cercado de gente, estava completamente só. Atrapalhava-se com as sacolas, aguardando o sinal abrir, quando do nada um homem lhe estendeu a mão à espera de algo que não veio. O verde acendeu, a multidão afoita arrebentou e ele saiu levitando sobre as duas pistas quase sem esforço, espremido entre os cotovelos dos transeuntes. A mão aberta ficou para trás.

No entanto, aqueles olhos o acompanharam até o final da tarde, até abrir a porta da cozinha e depositar os pacotes sobre a mesa. Na casa, reinava o silêncio dos lugares desabitados. Sentou-se na poltrona da sala, esticou as pernas, olhando de relance os retratos emudecidos da mulher e do filho sobre o aparador, mas na tela da tevê ou entre luzinhas da árvore de Natal os olhos piscavam, piscavam. Lembrou do rosto do homem: por seu mau estado, devia viver nas ruas. Encimando a pele curtida e escura, uns olhos brilhavam, afetuosos. A postura da mão não parecia espalmada para o céu, à espera de moedas ou da chuva. Era a frontal mão estendida de um cumprimento.

Calçou os sapatos e voltou à rua. No ônibus, a primeira oração de uma reza se insinuou por sua mente, e ele a espantou como a uma mosca. O homem não se encontrava mais naquela altura da faixa de pedestres da Paulista. Inconformado, seguiu à banca de jornal da esquina e comprou cigarros: talvez o homem fumasse, e seria bom motivo para início de conversa, embora isso nunca careça de motivo. Retornou ao local, onde permaneceu algum tempo, estudando sorrisos mascarados e o que os olhos aprenderam a dizer no lugar das bocas. O homem não apareceu. De volta à casa, surpreendeu-se com o laço preto representando luto grudado na sua porta por algum vizinho. Ao girar a chave na fechadura, fechou os olhos por um minuto e desejou que a mulher e o filho tivessem sido devolvidos aos seus lugares, ela no escritório, ele na casa inteira. Abriu a porta e recebeu na cara uma lufada do ar do deserto. Na mesa da cozinha, o colorido das embalagens tinha perdido qualquer hipótese de sentido. 

Na manhã seguinte, largou os pacotes na lixeira da calçada. Alguém os encontraria a tempo de celebrar o Natal daquele ano. De novo na faixa de pedestres da noite anterior, nenhum sinal do homem, porém sua vontade não era tão indolente e frágil assim e ele deu voltas insistentes na quadra, e depois ampliou o diâmetro dessas voltas pelos quarteirões da vizinhança, orbitando ruas como um carteiro apressado após o final de uma longa greve dos Correios, e ao redor do bairro, atingindo o centro da cidade. Mas nada de achar quem buscava. Sem atentar para a ironia da escolha, decidiu dormir numa pensão na Rua do Triunfo.

Outra manhã e a rotina se renovou, nem notícia do homem ou de seus olhos, e o giro em torno de avenidas e pontilhões em ruínas se estendeu ainda mais, da Avenida do Estado e suas fábricas abandonadas aos bairros ricos de onde foi expulso por seguranças, das quebradas na periferia aos limites do perímetro urbano, até se perder em estradinhas da zona rural, chegando às margens de uma enorme represa iluminada por vaga-lumes que pareciam ter vindo da lua. Ao observar as luzes sendo acesas aos poucos nos prédios da cidade ao longe, não conseguiu mais lembrar o endereço da sua própria casa. Dessa vez adormeceu sobre o capim. O tempo passou, os dias prosseguiram, e ele retornou a cada aurora, todas as tardes e noites à mesma faixa de pedestres na Paulista sem obter sucesso, sem encontrar aqueles olhos. Até chegarem as vésperas de um novo Natal.

Naquela noite, sob as lâmpadas brilhantes da avenida, ele viu a si próprio refletido na enorme porta metálica de um banco intransponível e reconheceu aqueles olhos da véspera de um Natal passado, uns olhos imensos de solidão e afeto. De frente para a avenida, naquela mesma esquina onde morava agora enrolado nos seus trapos, ele reconheceu alguma outra coisa impensável nos rostos que atravessavam a faixa de pedestres, quem sabe a si mesmo multiplicado em todos eles, pois estendeu a mão ao primeiro homem coberto de pacotes vindo em sua direção. Mas não estendeu a mão aberta de quem pede, e sim a mão que oferece um cumprimento. 

* JOCA REINERS TERRON ESTREOU NA FICÇÃO COM ‘NÃO HÁ NADA LÁ’ (2001). É TRADUTOR E ORGANIZADOR DE COLEÇÕES. ‘O RISO DOS RATOS’ É SEU MAIS RECENTE ROMANCE

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Os Vivos

"Detrás da janela, pichada no edifício à frente, a inscrição ‘Não existe amor em SP’. É improvável que se morra por alguém na cidade?"

Felipe Franco Munhoz *, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

Há cortinas de caracteres – grandes páginas de jornal – interpondo o palco. Por frestas, divisa-se um quarto simples de hotel. Janela coberta, luzes acesas; malas; Gabriel, vestido (à exceção da ruça máscara, ao queixo), sentado na cama, atrapalha-se para folhear tanto o jornal O Estado de S. Paulo, de 26 de dezembro de 2021, quanto um exemplar antiquíssimo do jornal The Daily Express, de 7 de janeiro de 1904. Gretta, seminua (apenas o mosaico terracota e salmão da saia que usara no dia pregresso), perambula pelo cenário.

Gabriel (desconversando) – Nada.

Gretta – Que não seja – A história do meu – Meu Deus – Bebi demais. Aqui. (Indicando o centro de sua testa) Um ponto craniano de exclamação: aqui: enterrado aqui. Deve estar visível, saliente; autógena tatuagem. Você trouxe paracetamol?

Gabriel – Qual história?

Com a pergunta brusca, proferida uma oitava esganiçada acima de seu tom habitual de voz, Gabriel tentou a execução, notável fracasso, do simulacro do esquecimento; levantou-se, então, abandonando os jornais, para – do justo bolso da calça (traje, também, do dia pregresso) – puxar o receptáculo, que sempre carrega, repleto de comprimidos.

Gretta – Nada. Sei. Qual história? Sei. (Gabriel entrega o remédio) Obrigada. Eu não esperava escutar Travessia, entende? Soa quase inverossímil.

Gabriel – O despertador um eco nas aurículas – e você despejando adjetivos: taciturno, ríspido, lacônico. Isso tece a carapuça.

Gretta – Depois das cantigas, depois daquele funk, Travessia – distante e próxima, entoada em ambiente paralelo – mexeu comigo. A letra vacilante às incertezas do intérprete. Fiquei chorona.

Gretta infligira adjetivos precisos. Evidente: ainda exausto, Gabriel preferia, agora, evitar tal assunto incômodo; na madrugada anterior, sob lençóis, contra trêmulos efeitos do ar-condicionado (o quarto gélido, térmica exigência da apartada e adormecida companheira), ele sentiu desmaiar-lhe, vagarosa, a alma.

Vagarosa; enquanto ruminava indagações acerca do passado inacessível de Gretta – quais impactos, mais, ele desconhecia?, quais estrelas irrompiam, secretas, no cofre que se projetava imenso? – e, junto às indagações, formulava esplêndidos raciocínios acerca da vida e do tempo e das angústias do ser humano. A exaustão: da festa; a exaustão: de seu próprio cérebro.

Gabriel – Convenha-se: ambos acordamos mais para o agressivo do que para o agradável.

Gretta – Pós-excesso. Qual almoço familiar, de Natal, estende-se para além das três da manhã? Não poderíamos ter permanecido em nosso micronúcleo interiorano? Protegidos, nós e as crianças; porém: viemos para esta São Paulo sem amor. Desde o camarim feminino improvisado no banheiro – aglomeração com as suas tias – até a espécie de pista-discoteca, tum-tá-tá-tum-tum-tá, no meio da sala – aglomeração com as pernas e os sapatos. Para completar, ao término da sobremesa, ressoaram duas tosses. Protocolos?

Gabriel – Todos vacinados. Vários, minhas tias inclusive, já tomaram a terceira dose. Você reclama do excesso; mas comentou, debochada, que, logo, eu compraria um escafandro para você, não comentou?

Gretta (sarcástica) – Menti. Perdão. Você não comprou, suponho, porque, nesse caso, eu demoraria – o quê? – quatro ou cinco horas para me trocar. 

Gabriel – E pior: você reclama do excesso; mas rebolou, frenética, na pista-discoteca. E você sabe: eu preferiria ter caminhado no Ibirapuera. Eu, lá – e imaginando quantos graus fazia no topo do obelisco, no topo das cabeças do Empurra-empurra. 

Gretta – Eu, lá, rebolando – e analisando os homens risíveis: portadores de absorventes nas axilas, debaixo das camisas, para não imprimirem rodelas de suor. Você preferiria: futuro do pretérito, não realizado. A reunião familiar foi uma opção. 

Gabriel – Importante para as minhas tias, Gretta.

Pausa. 

Gretta – Copos foram enchidos com uísque, prescrição médica. 

Gabriel – Tratamento precoce? 

Gretta – Tenho a impressão de que: piada. 

Gabriel – Riram? Por educação? Educação? 

Gretta – Banho. (Despindo a saia) Pretendo passear, espairecer; volto às cinco para o ônibus. E você? Ibirapuera? Tomie Ohtake?, a retrospectiva de...? 

Gabriel – Tunga. Pretendo visitar algumas livrarias: a Vila, da Fradique; a Ria, da Marinho Falcão; a Mandarina, da Ferreira de Araújo. Ontem, antes da festa, em um sebo, aberto, !, da Teodoro, garimpei: jornal irlandês, arcaico. (Mostra o jornal; e mostra outro jornal) Ao chegarmos da festa, na recepção, encontrei: jornal de hoje; acabei de ler, nele, um conto sobre multidões, olhos, reflexos. (Apontando para a janela) Detrás da janela, pichada no edifício à frente, a inscrição Não existe amor em SP. É improvável que alguém morra por alguém nesta cidade? Para mim, o amor em São Paulo significa um emaranhado arquitetônico – hermético e permitindo, simultaneamente, infinitas portas – de caracteres. (Gretta suspira) Improvável, deveras; no entanto...

Gretta, impetuosa, desaparece no banheiro. Gabriel desiste da frase e mergulha nos jornais: no contemporâneo, para regressar a ler ficção; no antiquíssimo, para vislumbrar fatos (a manchete principal: iminente conflito entre Rússia e Japão) e ideias que já se tornaram, em geral, irrelevantes. Começa a tocar Milton Nascimento: ‘Travessia’; música e ruídos do chuveiro misturam-se. As cortinas de caracteres, primeiro, sem a hipótese de qualquer fresta, cerram-se na totalidade; subsequente, são – movimentos de maquinário invisível – amassadas: amassando, com elas, o palco e seus personagens.

* FELIPE FRANCO MUNHOZ É JORNALISTA E ESTREOU NA LITERATURA COM ‘MENTIRAS’. PUBLICOU TAMBÉM ‘IDENTIDADES’, E É AUTOR DA PEÇA ‘IDENTIDADES 15 MINUTOS’

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