'As casas de Machado não tinham jardim'

Para apreender o que se passa com Machado, consideremos dois outros escritores, José de Alencar e Guimarães Rosa

Walnice Nogueira Galvão, ESPECIAL PARA O ESTADO,

26 de setembro de 2008 | 23h59

A pecha lançada a Machado de Assis, de que menosprezaria a cornucópia da natureza do País, vem de longe e se manifesta desde seu tempo. Origina-se, evidentemente, na plataforma de nosso Romantismo. Foram bandeiras dessa escola a busca da brasilidade e o afã de construção de uma literatura autônoma, que nos representasse, sendo independente da portuguesa, apesar de utilizar a mesma língua. E encontraria na exaltação do meio ambiente um de seus carros-chefe - a natureza de exuberância tropical, inteiramente outra e até antagônica à européia, já domada por milênios de trato.  E no início, o teatro Um romance pelo avesso Corpo de pedra sem nenhum rosto Concisão com HQ e cordel Diário da loucura Os críticos versus o enigma O pai da prosa brasileira Um escritor saudosista Entretanto, é preciso uma visão bastante míope para chancelar tal pecha. Nela se expressa o anseio de contemplar em quadros separados, ou cromos, vinhetas de fausto descritivo que se intercalem no enredo. E é bom não esquecer que tal desejo se baseia na identificação entre brasileiro e exótico, para contrapor-se ao europeu e civilizado: critério ingênuo, para não dizer primário. Para apreender o que se passa com Machado, consideremos dois outros escritores que se situam em seus antípodas, já que são exímios paisagistas e se ocuparam da hinterlândia: um anterior, José de Alencar, e outro posterior, Guimarães Rosa. Em ambos, de modo bem mais estimulante que o mero delineamento do pano de fundo que todavia praticam, a silhueta do relevo, a fauna e a flora também aparecem entretecidos à trama e urdidura do texto. Em Alencar é palpável, até como ideário e com todas as letras, o propósito de exibir o País na opulência de suas variantes, fossem faces, costumes ou hábitats. Com ambição tendencialmente balzaquiana, vai-se dedicar a criar ficção típica do País, de Norte a Sul. Tanto escreve sobre o sertanejo quanto sobre o gaúcho, tanto narrativas históricas quanto da contemporaneidade, entre as quais modelares romances urbanos. Então, medo das paisagens é que não tem, e elas são vigorosas e variegadas em sua obra, como cabe ao projeto que pretende cobrir o perímetro nacional do Oiapoque ao Chuí. No entanto, o que sobressai em Iracema, ponto alto do indianismo, é menos o debuxar do meio ambiente do que a maneira de inseri-lo no coração do enredo. É assim que essa pequena jóia literária se constrói inteiramente como um encadeamento de "metáforas naturais", de tal modo que nem percebemos não se tratar de flagrantes dos lugares: a ostentação da exterioridade é transfigurada nas personagens, serve para moldá-las e esculpi-las. O melhor exemplo é a própria Iracema, com seus lábios de mel, cabelos mais negros que a asa da graúna e talhe de palmeira. Em Guimarães Rosa vamos encontrar outros desdobramentos. Também ele é um dedicado paisagista, que se rejubila em alongar-se amorosamente na recriação de seus campos gerais. Para retratar Diadorim, vai-se deter especialmente na cor de seus olhos, verdes como o mar (que, aliás, nunca aparece em Grande Sertão: Veredas) ou como as palmas do buriti. Afora os olhos, a palmeira vai fornecer termos de comparação, em inúmeras ocorrências que se disseminam por todo o livro, numa gama de associações. Nesta quadrinha, ambos, planta e oceano, compartilham os mesmos versos: "Buriti, minha palmeira,lá na vereda de lá:casinha da banda esquerda,olhos de onda do mar..." E quando Diadorim morre, registram-se duas alusões apenas. Uma se refere ao oceano: "...morreu o mar, que foi." Sequer entrevisto a partir do sertão, esse mar simboliza o inalcançável, o que está além do horizonte, miragem que jamais se concretiza. Outra envolve as palmeiras: "Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verdes..." Aqui tampouco se trata tão-somente de pitoresco, mas de mobilização dos elementos do espaço circundante para delinear personagens. Guimarães Rosa com freqüência faz bom uso das locações, pondo-as a serviço de peripécias do entrecho. No mesmo romance, vale-se extensamente do sertão como perímetro em que predomina a pecuária para dar um tratamento especial aos bois, comparando-os às pessoas. Assim, pode equiparar o bando de jagunços a uma boiada, os personagens individuais a bois, e só os chefes a touros. De modo similar, o gado permeia a poesia, dando mote a muitos versos, como estes: "Em tempo de vaquejadatodo gado é barbatão:deu doideira na boiadasoltaram o Rei do Sertão..." Tudo isso confere uma ressonância que ricocheteia novamente do interior das personagens para fora, delimitando um universo que bovinos e palmeiras balizam. No caso de Machado, não é preciso ir além daquilo que é, mais do que uma metáfora, o epíteto formular, quase homérico, e uma de suas mais reputadas criações: os olhos de ressaca de Capitu. Dando corpo a uma narrativa situada em cidade litorânea, a paisagem está dentro da personagem. A ressaca, como se sabe, designa o repuxo das ondas quando recuam, no moto-perpétuo do vaivém, tudo arrastando para o sorvedouro das profundezas: o paralelismo instaura-se entre a voragem oceânica e a voragem do olhar. Além da extrema originalidade, amarra-se ao enredo, preparando os efeitos que pressagiam ao bom nadador Escobar o aniquilamento nas águas. Aqui, Capitu aproxima-se das mais relevantes divindades femininas homéricas, com seu epíteto formular reiterativo enfatizando o olhar. Hera, a esposa de Zeus, tem olhos de touro nas traduções mais pedestres, mas Odorico Mendes para ela cunhou o neologismo "olhitáurea". Mais conhecida, e de virtualidades mais criativas, é a glaukopis Palas Atena, a grande padroeira e criadora da polis, que na pena do mesmo tradutor será "olhicerúlea". Em outras versões, apresenta olhos glaucos ou olhos de coruja (sua ave totêmica); ou ainda um olhar resplandecente, que um mortal não pode fitar, sob pena de tombar fulminado. Que Capitu não se perca por má companhia. De qualquer modo, a partir dessas digressões, podemos relegar os cuidados com paisagem a escritores menores.  Walnice Nogueira Galvão é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, autora, entre outros, de As Musas Sob Assédio

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