Zé de Paiva
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Artista interdisciplinar Grada Kilomba vem à Flip propor seu método

Autora portuguesa vem ao Brasil lançar simultaneamente uma edição do seu livro ‘Memórias da Plantação’ e abrir uma exposição na Pinacoteca

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2019 | 03h00

A escritora e artista visual portuguesa Grada Kilomba é a nova atração confirmada da 17.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ela vem ao Brasil lançar o livro Memórias da Plantação (Editora Cobogó), resultado de seu doutorado em Filosofia na Freie Universität de Berlim, no qual conta histórias de mulheres negras na capital alemã para discutir a atemporalidade do racismo cotidiano. Partindo do trabalho de intelectuais como Audre Lorde, Maya Angelou, Angela Davis e May Ayim, a autora pretende lutar contra o “déficit teórico” sobre o racismo.

A Flip ocorre de 10 a 14 de julho em Paraty, no litoral fluminense. Antes disso, no dia 6 de julho, a artista abre na Pinacoteca, em São Paulo, a exposição Desobediências Poéticas, um conjunto de instalações que dialoga com o livro. 

A publicação foi lançada originalmente em inglês em 2008, e agora pela primeira vez ganha tradução para o português pelas mãos de Jessica Oliveira de Jesus, em conjunto com a autora – a transposição exige novas reflexões sobre termos que no inglês não têm gênero definido, o chamado “gênero complexo” derivado do latim, como “subject” e “object”. Na tradução, a autora optou por utilizar sujeito e objeto, em itálico. 

“É importante compreender o que significa uma identidade não existir na sua própria língua escrita ou falada ou ser identificada como um erro”, escreve a autora na introdução do livro, feita especialmente para a edição em português (lançada agora, pela primeira vez e simultaneamente, no Brasil e em Portugal). “Isso revela a problemática das relações de poder e violência na língua portuguesa; e a urgência de se encontrar novas terminologias.”

A autora começou seus estudos em Lisboa, onde conta que era a única aluna negra do departamento de psicologia clínica e psicanálise de sua universidade. “Nos hospitais onde trabalhei, durante e após os meus estudos, era comum ser confundida com a senhora da limpeza, e por vezes, os pacientes recusavam-se a ser vistos por mim ou a entrar na mesma sala e ficar a sós comigo”, relata.

Ela então se muda para Berlim, onde constata que a herança colonial e o regime imperial fascista do século 20 também tinham deixado marcas na sociedade, mas nota uma diferença. “Enquanto eu vinha de um lugar de negação ou até mesmo de glorificação da história colonial; estava agora num outro lugar, onde a história provocava culpa, ou até mesmo vergonha.” Esse novo percurso pedia uma responsabilidade de criar novas configurações de poder e de conhecimento. Foi o que ela propôs com o doutorado – e o livro também tem um elemento de autoconhecimento reconhecido pela autora.

“O que me interessava era explorar o trauma, a violência de como o racismo se torna uma normalidade que não é normal. Como ele consegue reencenar, fazer um mise-en-scène que coloca pessoas de volta ao passado”, explica, por telefone, de Berlim. “O passado volta a coincidir com o presente e parece que não há tempo, e esse é um dos elementos do trauma, assim como o choque (de receber essa violência diariamente).”

O livro então propõe um diálogo entre essas mulheres e mostra como os episódios racistas do dia a dia colocam “o sujeito negro numa posição marginalizada, nesse lugar de ‘Outro’, de inferioridade”.

A autora explica a natureza híbrida do seu trabalho: partindo da psicanálise e do contato com sobreviventes de guerras, passando à escrita e ao ensino, e depois se preocupando com a visualidade das narrativas, e portanto ao trabalho relacionado a artes plásticas, a intenção é justamente embaralhar classificações prévias.

“Isso é importante para descolonizar o conhecimento. Gosto de confundir as plataformas, instituições, museus, festivais de literatura. O elemento de não saber como classificar um trabalho é muito relevante para as novas gerações de artistas, que criam novas linguagens, mais híbridas”, afirma.

A exposição na Pinacoteca terá tudo a ver com isso. Uma das performances/instalações, Illusions 1, foi comissionada e exibida na 32.ª Bienal de São Paulo, em 2016. Trata-se de um aparato de um banco e microfones, com vídeos e sons que recontam o mito de Narciso e Eco para questionar os padrões de pensamento sobre a colonização. As outras obras são Illusions 2, de 2018 e Table of Goods, de 2017. O quarto trabalho, inédito, foi realizada a pedido da Pinacoteca.

Foi justamente em 2016 o primeiro contato mais próximo de Grada com o Brasil, com sua participação na Bienal de São Paulo. Para ela, não acontece por acaso a demora de seus trabalhos serem aceitos e difundidos tanto por aqui como em Portugal, onde nasceu. “Embora tenhamos história em comum, e a população esteja pronta para receber essas obras, demorou muito tempo. Ambos os países ainda têm um discurso muito ancorado no colonialismo e que baseia toda sua narrativa na romantização do passado, portanto não permitindo que as plataformas se abram para artistas e escritoras que demonstram exatamente esse aspecto. Não é por acaso que demora tanto para chegar.”

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