Alexandre Nóbrega/Divulgação
Alexandre Nóbrega/Divulgação

Ariano Suassuna é homenageado com show, exposição de fotos e filmes

Projeto que já percorreu seis capitais - e contou sempre com o acompanhamento do escritor - chega a São Paulo e encerra um ciclo

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2015 | 03h00

Quando Ariano Suassuna percebeu que andava sendo fotografado pelo genro Alexandre Nóbrega, seu assessor por 14 anos, ele logo perguntou se as fotos eram para a Playboy. Ele não se achava fotogênico e dizia que não havia motivo para que Alexandre insistisse nas fotos. Era uma brincadeira e elas foram parar no livro O Decifrador. Parte dessas imagens – são milhares, diz o fotógrafo – foram expostas em Brasília, Fortaleza, no Recife, Rio, em Curitiba e Salvador como parte do projeto Ariano Suassuna – A Arte Como Missão – que chega agora a São Paulo mais triste. 

Em cada uma das cidades por onde a mostra passou, Ariano estava lá com sua força e alegria, suas histórias tocantes e engraçadas, e suas ideias. É que o projeto previu, além da exposição de fotografias que será aberta neste sábado, dia 17, na Caixa Cultural, e de um ciclo de filmes que começa no dia 30, a realização da famosa aula-espetáculo. Mas Ariano morreu em julho, aos 87 anos.

Para a edição paulista, os organizadores escalaram o pernambucano Antonio Nóbrega – profundamente influenciado pelo mestre que conheceu ainda jovem, no Recife, quando o Quinteto Armorial precisava de um violinista. “Foi mais do que um convite para ocupar o lugar de um instrumentista. Eu pude acessar um mundo cultural que me era desconhecido”, conta o artista. O encontro teve um papel fundamental na vida dele. “A partir daí, ao longo dos anos, fui me entendendo, estudando, assimilando os cantos e as danças que vieram a ser todo o alicerce do meu trabalho. Reafirmarei isso neste sábado”, completa. Ele, no entanto, não estará no Theatro Municipal a partir das 20 horas para apresentar a aula-espetáculo de Suassuna ou uma versão dela. Nóbrega prefere chamar o encontro de Recital para Ariano. Na programação, músicas relacionadas direta ou indiretamente com o universo do escritor. São poemas de Ariano musicados por Nóbrega ou textos escritos especialmente para que virassem música do discípulo. E outras criações de Nóbrega com as conversas que tiveram ao longo dos anos. 

“Musicalmente, o recital vai fazer essa paisagem. Será uma espécie de recital sentimental, porque ele me traz a lembrança desses encontros. Aqui e acolá, vou fazer algum comentário sobre aspectos da vida e da obra de Ariano, sobre o movimento armorial, o papel do sertão e características de sua obra”, adianta. 

Serão cerca de 15 canções e Nóbrega planeja declamar dois sonetos de Ariano e se aprofundar nos romances do autor, que o músico chama de “histórias narradas e cantadas em versos”. “São canções que me seduzem muito e ninguém está acostumado a escutar romance. Será uma oportunidade de conhecer ou reconhecer esse universo”, ressalta. 

E entre as histórias que pretende contar, a da relação de Ariano com o pai, morto quando ele tinha 3 anos. “Ele viveu sempre a nostalgia do pai – em sua vida e na obra”, diz.

O escritor e o músico se encontraram pela última vez em fevereiro. “Ele dizia tanto que era imorrível que a gente até acreditava, e, às vezes, me pergunto se ele morreu mesmo.” Nóbrega fala que sua presença era incandescente e que o autor deixou não apenas obras editadas e inéditas, mas também ideias a serem aprofundadas. “Não é o mundo que se extingue com Ariano, mas o mundo que a gente pode aprofundar, visitar, entender em sua amplitude e amplificá-lo, sobretudo. Eu me coloco muito nesse papel de cavucar um pouco as ideias de Ariano. O que ele queria dizer com o encontro da arte popular com a erudita? O que queria dizer com espírito mágico da literatura popular? Isso tudo é uma espécie de livro aberto sobre o qual me debruço, penso, reflito e escrevo, até.”

Mostra. Em cartaz até 22/2, a exposição terá cerca de 30 fotos tiradas por Alexandre Nóbrega durante cinco anos. Ele não é fotógrafo profissional, mas era o fotógrafo oficial do sogro. “Tentei mostrar as várias facetas de Ariano: no aeroporto, em casa, na aula-espetáculo, na intimidade. Quem não o conheceu terá uma ideia de sua personalidade”, conclui.

Na tela, o universo ficcional e a vida do escritor paraibano

De todas as adaptações de livros de Ariano Suassuna para o cinema ou para a televisão, O Auto da Compadecida é, sem dúvida, a mais conhecida. Quem ainda não viu o filme de Guel Arraes, ou quiser rever a adaptação terá a oportunidade de assisti-lo no dia 31, na Caixa Cultural, mesmo local da exposição de fotos. 

Este é apenas um dos filmes do ciclo que integra o projeto Ariano Suassuna – A Arte como Missão, com início no dia 30 de janeiro e encerramento em 8 de fevereiro. A sala tem apenas 50 lugares e o valor do ingresso é R$ 1 – ele deve ser retirado uma hora antes do início da sessão. Serão apresentados filmes de curta, média e longa-metragem, além de documentários sobre a vida e a obra do escritor.

Na abertura do ciclo, no dia 30, às 18 h, será exibido O Sertãomundo de Suassuna, documentário produzido por Douglas Machado em 2003 com depoimentos de artistas e intelectuais – entre os quais Rachel de Queiroz – e do próprio escritor.

No dia 31, sábado, às 18 h, o filme em cartaz é o já clássico O Auto da Compadecida, baseado na peça de Ariano Suassuna de 1955 e que traz um grande elenco: Fernanda Montenegro, Marco Nanini, Selton Melo e Matheus Nachtergaele.

No domingo, dia 1.º, o público poderá ver, em duas partes, A Pedra do Reino, minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho que foi ao ar em 2007. A exibição começa às 16 h.

O ciclo faz uma pausa durante a semana e volta na sexta, dia 6, às 17 h, com Quaderna. O documentário de Alexandre Montoro feito para celebrar os 80 anos de Suassuna intercala fatos e depoimentos sobre sua vida com aspectos da obra ficcional. Na sequência, será exibida a série Uma Mulher Vestida de Sol, de Luiz Fernando Carvalho.

No sábado, às 18h30, serão exibidos o curta Música Armorial, de Ana Paula Campos, e o especial para TV A Farsa da Boa Preguiça, também de Carvalho. O ciclo será encerrado no domingo com duas adaptações: Princesa do Sertão, documentário de Deraldo Goulart, às 15h30, e O Santo e a Porca, adaptado por Adriana Falcão e dirigido por Maurício Farias, às 18 h. 

ARIANO SUASSUNA - A ARTE COMO MISSÃO

Exposição O Decifrador

Caixa Cultural. Pça da Sé, 111. 3ª a dom., 9 h/19 h. Até 22/2. Abertura sáb. (17), 11 h. Grátis

Recital

Teatro Municipal. Pça Ramos de Azevedo s/nº, tel. 3053-2100. Sáb., 20 h. R$ 1 (ingressos a partir das 18 h)

Ciclo de filmes

Caixa Cultural. Praça da Sé, 111. De 30/1 a 8/2. R$ 1 (os ingressos serão distribuídos uma hora antes da exibição dos filmes)

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