Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

'Aquela Água Toda', de João Anzanello Carrascoza, ganha reedição e volta às livrarias

Obra, que agora é quase de bolso, traz também ilustrações do artista plástico Visca

João Prata, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 06h00

Aquela Água Toda, a obra mais premiada de João Anzanello Carrascoza, está de volta às estantes das livrarias. Publicado inicialmente pela Cosac Naify em 2012, o livro estava fora de catálogo desde o fechamento da editora, em dezembro de 2015. Nesses três anos, no entanto, faturou troféus voltados à literatura adulta, como o Jabuti e o APCA, e ao público jovem, como o FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) e o White Ravens, da International Youth Library de Munique, na Alemanha.

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Agora acaba de ser reeditado pela Alfaguara, em novo formato (quase de bolso) e com ilustrações do artista plástico Visca - inicialmente, a obra tinha desenhos de Leya Mira Brander. Os 11 contos também tiveram uns parafusos apertados. “Fiz uma leitura, não uma revisão. Algumas palavras acabei cortando, tirei uma linha ou outra. Mas são coisas menores”, conta Carrascoza ao Estado.

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As histórias, em comum, têm o ponto de vista da descoberta, a maior parte delas durante a infância. Carregam o tom da leveza, dos aprendizados menos dolorosos. São pequenas recordações que se tornam grandiosas graças à capacidade do autor em colocar uma lupa de lirismo sobre os sentimentos dos personagens descritos.

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É o lado solar de Carrascoza que se faz presente de novo. Uma face oposta à de seu último livro de contos, Catálogo de Perdas, de 2017, que saiu pela Sesi-SP Editora. Nele, o autor desce ao subterrâneo das sensações e trata questões obscuras, fala sobre o momento da ausência, da ruptura na vida. 

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“Foi uma coincidência”, diz o autor de Diário de Coincidências de 2016. Repetições de palavras à parte, o que de fato une essas e a grande maioria das obras de ficção do autor é a sua capacidade de transmitir o não dito, de mostrar o que está entre as relações, de tornar uma perda ainda mais triste e também de fazer de uma simples ida à praia momento sublime.

Nos livros de Carrascoza não há grandes descrições de paisagens e cenários. Interessa mais a ele o vínculo do que está sendo formado ou do que é interrompido. Ele diz que sua obra está sempre em busca da relação com o outro, do núcleo da situação e que a partir desse núcleo tudo reverbera.

“Tento na literatura colocar um olho nessas situações cotidianas que a gente acaba perdendo, deixando de captar a beleza que tem e o quanto são significativas para nós. Porque a maior parte do nosso tempo acontece com situações menores. Mas, ao mesmo tempo, por serem tão menores, fazem a gente achar a vida grandiosa.”

A escolha por essa voz narrativa, no entanto, demorou para reverberar entre os críticos. Fazer ouvir seu sentimento, ser reconhecido por um tipo de literatura inspirada declaradamente em Carlos Drummond de Andrade e Raduan Nassar demorou para ganhar legitimidade. 

“Já tive muita dificuldade de ser visto. Hoje as coisas melhoraram um pouco. Mas a maior parte das vezes fui publicado em editoras pequenas. Por muito tempo o que escrevi ficou muito à sombra”, recorda. 

Seu primeiro livro de contos saiu em 1994, Hotel Solidão, quando tinha 32 anos. Na época, Carrascoza também começava a vida acadêmica e dava aula de publicidade na Escola de Comunicações e Artes da USP, onde pode ser visto com o giz na mão até hoje. De lá para cá foram mais de 40 obras, entre contos, romances e ensaios.

A ponto de equilíbrio entre todos esses universos veio com a ioga. Durante 25 anos Carrascoza contou que foi discípulo do mestre José Ramon Molinero, que morreu em 2004. E mesmo após a perda de sua referência, até hoje, ao menos uma vez por semana, se reconecta com doses solitárias de inspiração e expiração em seu apartamento.

“Com o passar do tempo meu trabalho foi sendo visto como legítimo, que tinha uma coluna vertebral típica, com certa singularidade. Sou muito grato por esse reconhecimento. O interessante da literatura é isso. A possibilidade de encontrar ali autores que falem de diferentes questões”, afirmou.

Novidades. Neste ano, Carrascoza publicará um conto inédito intitulado Super Lua. Terá ilustrações e ele acredita que, com mais esse fator, será enquadrado como infantojuvenil, apesar de discordar. “É um livro ilustrado e ponto”. Sairá pela editora Nós e ainda não tem data de lançamento.

Na semana passada saiu pela Positivo a antologia a Estação das Pequenas Coisas, que reúne contos produzidos entre 2006 e 2016. “Tem uma ou outra coisa de antes desse período, mas é exceção”, informa o autor.

Para o próximo ano, Carrascoza trabalha em novo romance. Já tem nome provisório, mas ele prefere não revelar. “Estou em um período de retrabalho. Vamos ver o que acontece daqui para frente e se conseguimos publicar em 2019”.

TRECHO 

“Era, de novo, o verão. O menino estava na alegria. Modesta, se comparada à que o esperava lá adiante. A mãe o chamou, e o irmão, e anunciou de uma vez como se natural: iriam à praia de novo, igualzinho ao ano anterior, a mesma cidade, mas um apartamento maior, que o pai já alugara. Era uma notícia inesperada. E ao ouvi-la ele se viu, no ato, num instante azul-azul, o pé na areia fervente (...), aquela água toda nos olhos, o menino no mar, outra vez, reencontrando-se, como quem pega uma concha na memória. É verdade, mesmo?, queria saber. A mãe confirmou. O irmão a abraçou e riram alto. (...) Nem lembrava mais que podia sonhar com o sal nos lábios, o cheiro da natureza grande, molhada, a quentura do sol nos ombros, o menino ao vento, a realidade a favor, e ele na sua proa...” 

AQUELA ÁGUA TODA

Autor: João Anzanello Carrascoza

Editora: Alfaguara (112 págs.,R$ 39,90)

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