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Após Prêmio São Paulo de estreante, Paula Fábrio lança novo romance

Escritora fala da vida urbana de maneira intimista

Moacir Amâncio, ESPECIAL PARA O ESTADO

25 de dezembro de 2015 | 21h51

Paula Fábrio traz um tom diferente para a literatura brasileira, desde o livro de estreia, Desnorteio, e agora, com Um Dia Toparei Comigo, seu novo romance. A escritora fala da vida urbana de maneira intimista, quase como se sussurrasse e, com pinceladas ágeis e sutis, ela nos coloca em sintonia com a subjetividade das personagens diante de questões existenciais submetidas à armadura das regras e esquemas que se tornam absurdos, ver Kafka.

O clima lembra também um grande escritor brasileiro chamado Cornélio Pena, que escreveu sobre cidadezinhas mineiras e do Vale do Paraíba, fazendas, casarões, cenários propícios para a percepção, palpável, de fantasmas do cotidiano. No primeiro romance, Fábrio faz uma junção entre uma cidade do interior paulista com a capital, agora, fala de São Paulo e paisagens europeias por intermédio de Isabel, a narradora, apaixonada por literatura e também pela vida, de maneira tortuosa e provavelmente perversa. É por essa via que se introduz o uso de uma das técnicas da novela de crime e detetive, mas sem detetive, papel que fica entregue ao leitor, como parte das reflexões propostas pelas angústias da narradora diante do que se chama convencionalmente de vida, mas está muito longe desse rótulo impróprio, por causa das alienações que constrangem e vão sufocando as personagens pouco a pouco, como se o objetivo final fosse apenas usá-las até o descarte. O que poderia ser apressado, caso alguma alma piedosa – com um toque necessário de serial killer – decidisse dar sua mãozinha ao destino. Sem culpa e até com humor.

O intimismo, as meias sugestões, os silêncios encontram seu ambiente no círculo doméstico, no entreportas da narradora ou alheio, o que confirma a tendência marcante da estreia de Fábrio, ou seja, a narrativa de família, que talvez delineie a sua trajetória. Quem é o que é e para quê? As personagens são criadas com poucas pinceladas, no geral, o que sublinha a intangibilidade delas, e assim acontece com o esboço de uma figura notável, o avô italiano fugitivo da lei onde quer que seja. Como bom e eterno fugitivo, não ousa dizer o próprio sobrenome. Pelo jeito, nem para si mesmo: ele carrega no bolso um baralho de identidades – trata-se de um tipo de pirandelliano praticante (assim é se lhe parece). A figura atrai todas as demais personagens num sistema solar, embora sombrio, da fluidez das identidades e o enigma do gesto humano. Daí, o título torna-se irônico e assinala a persistência de uma “ingenuidade infantil”, da narradora, assumida, talvez, a fim de mascarar o desespero frente à falta de sentido e as intenções “angelicais” da personagem que relembra cenas e livros durante viagem à Europa com sua companheira e já de olho numa amiga e no namorado dela, sonhando de maneira espontânea com uma transação ampliada, pré ou pós-convenções.

O fragmentário das lembranças e observações sobre o momento não tornam o romance difuso, nem é recurso fácil, pois o foco se mantém com firmeza do começo ao fim. O livro incita à leitura de um só fôlego, algo perfeitamente possível numa tarde do fim de semana. Romance curto, denso, sintético, pode além da reconstituição de um conceito e uma prática literária capaz de fundir a ficção, a literatura e as ações das personagens num todo dinâmico em que a arte é elemento do real formando um organismo único. Escritores e livros são parte atuante na experiência comum. O texto dialoga com autores eleitos pela romancista, de Hemingway a Herman Hesse, Rubens Figueiredo, Borges, Vittorini, Mariana Ianelli, Borges, Cervantes, Gógol, explícitos, mais os implícitos, numa celebração que também seria às avessas.

Porque literatura, viagem e o cotidiano constituem o mesmo simulacro de existência. Um labirinto de alucinações em que nos perdemos seguindo sempre a pista falsa. O simulacro em expansão tem um momento de mais intensidade na personagem do velho agonizante que, depois de apresentar o mar a um pássaro empalhado, revela ter mantido a esposa intocada, conclui-se, perfeita como só a morte poderia ser. O ridículo desaparece em meio à loucura e à prolongada agonia – escatológica, de uma crueldade lúdica, até infantil. O sufoco, o comedimento obsessivo das personagens, não é apenas “metafísico”, mas dado pelas circunstâncias de uma classe média constrangida pela instabilidade e a ameaça da miséria. Não há uma queda no panfletário. O ininteligível da causa vincula-se à história, palco de todas as tragédias, seja em São Paulo, seja na Espanha, com a multidão dos imigrantes refugiados e as ocupações erráticas. Se quisermos um adjetivo para definir a obra, podemos encontrá-lo na letra p, de pungente.

Após a estreia bem-sucedida, acompanhada de prêmio importante, a escritora venceu o desafio do segundo romance. Sem deslumbramento, ela dribla o risco de se transformar em autora involuntária de um livro só, apura a técnica e amplia o âmbito de sua ficção. A força dramática pulsa intensa e permanente, sem catarse, algo discreto e, no entanto, perceptível no final de Desnorteio, como se a autora acenasse para o leitor, oferecendo consolo depois de abrir a fresta para o inferno. Mas isso ficou para trás.

UM DIA TOPAREI COMIGO

Autora: Paula Fábrio

Editora: Foz (160 págs.;R$ 36,90)

TRECHO

"Hoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer. Não eram coisas boas para se pensar. Mas não havia escape. Seu Odair morrera. Uma pneumonia sem cura, sem velório. Meu voo para Madri e o enterro do lado de cá do Atlântico. Ninguém sai ileso. Malas arrastadas no corredor, um cartão de pêsames escrito às pressas e, depois, depois a fuga. Não, nada a ver com seu Odair. Nem com o edifício Richard Wagner, nem com o 5.º andar. Tirava férias; sim, estaria livre de olhares vigilantes"

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