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Apagão

Fica a esperança de que, no próximo ano, as pessoas voltarão a cruzar os céus em viagens turísticas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 03h00

Lê-se o novo romance de Don DeLillo, O Silêncio, de uma sentada. Na reclusão pandêmica, faz bem ao espírito a convivência com variadas ficções de fruição efêmera, que nos possibilitem a ilusão de frequentar não apenas outros mundos, mas muitos outros mundos alternativos. 

Escapismo? Não, terapia. E maior diversidade de narrativas. 

Do tamanho de um conto que passou da conta ou de uma novela bem curta, O Silêncio tem apenas 106 páginas e sete capítulos. Sete como as proposições de Wittgenstein, em seu Tratado Lógico-Filosófico, citado muito de passagem no livro, por cujas linhas também transitam, com bem maior visibilidade, Albert Einstein e a Teoria da Relatividade. Seus cinco personagens (dois casais e um solteiro) têm alguma ligação com a ciência, especificamente com a Física. 

No entanto, Tessa, a primeira mulher a quem somos apresentados, vive de poesia e aconselhamentos sobre uma infinidade de coisas na internet. Nem por isso DeLillo a qualifica de influencer. Ela e o marido, Jim Kripps, estão vindo de avião de Paris para Manhattan, onde vivem e os espera um pequeno jantar no apartamento do casal amigo Max-Diane, em torno do Super Bowl de 2022, a Copa do Mundo do futebol americano. Em campo, os Seahawks de Seattle e os Tennessee Titans. Confiram daqui a alguns meses se serão mesmo estes os finalistas do Super Bowl LVI. 

O avião que traz Jim e Tessa de volta ao lar sofre um pequeno acidente durante a aterrissagem em Newark, sem consequências mais graves que um pequeno ferimento na cabeça de Jim. Nem ele, nem Tessa, nem Max e Diane, nem o quinto comensal, Martin, ex-aluno de Diane, que é professora de Física aposentada, conseguirão assistir ao jogo pela TV, por causa de outro desastre: um apagão, que mergulha a cidade no breu, desliga todas as telas, todos os celulares, todas as interfaces.

Max, que vive com Diane há 37 anos, “em estado de rotina massacrante”, segundo ela, passa a noite tentando decifrar o que se passa na tela escura do televisor, imaginar os lances ocultos pelo blecaute, investindo-se de locutor esportivo, sem descurar dos intervalos comerciais, com anúncios de verdade e transmissão de mentira. 

Desde os primeiros romances que DeLillo explora a alta voltagem metafórica do esporte e o que o futebol e o beisebol nos ensinam sobre a América, suas guerras e sua congênita violência. O futebol já era um dos protagonistas de seu segundo romance, o farsesco End Zone, de 1972. Submundo abria seu vasto painel histórico-cultural com uma legendária vitória dos Giants sobre os Dodgers, em 1951–com o criminoso corifeu do FBI, J. Edgar Hoover, e Frank Sinatra no mais concorrido camarote do estádio.

Em O Silêncio, Martin, o solteiro do grupo, amplia o espectro, teorizando sobre o nosso futebol, o soccer, com os clichês habituais: “não é permitido pegar a bola com a mão”, “a toda hora os jogadores fingem que se machucam” (viu no que deu Neymar?) etc. 

Por saber que DeLillo o concluira duas semanas antes da pandemia e a Simon & Schuster o lançara em outubro do ano passado, relevei a ausência da covid-19 entre os flagelos de nosso tempo referidos em seu huis clos (desastres ecológicos e nucleares, recessão, fake news, teorias conspiratórias, ciberataques, agressões biológicas, fome, debacles financeiras, redes elétricas em colapso, “percepções individuais mergulhando no domínio quântico”), quando, na página 86, tropecei no vírus que em pouco mais de um ano já matou 20,5 milhões de pessoas ao redor do mundo.

“Ainda está fresco na memória de todo mundo”, observa Tessa, o que foi a peste, o que foi o vírus, e então alude à covid-19, com “as pessoas caminhando pelos terminais dos aeroportos, as máscaras, as ruas das cidades esvaziadas”. Mas não vai além dessa descrição. 

Fiquei mais intrigado com essa inopinada inclusão da covid do que com sua total ausência até o terço final do romance. Soube que DeLillo também se surpreendeu ao vê-la no livro e chegou a imaginar, paranoia bem a seu gosto, que alguém da editora decidira “atualizar” por conta própria o drama que agora nos chega traduzido pela Cia. das Letras. 

Já ouvi pelo menos duas versões para essa insólita ocorrência. Numa delas, DeLillo achou graça e pediu para que mantivessem o apócrifo aggiornamento. 

Estranhei bastante o início do romance, com Jim e Tessa no avião, conversando como dois autômatos. A partir do apagão, já no apartamento de Max e Diane, ao embalo de monólogos e diálogos afiados, irônicos e mordazes, tive a sensação de revisitar o apartamento de O Deus da Carnificina, aquele huis clos de Yasmin Reza filmado por Roman Polanski, até me sentir, finalmente, como se estivesse assistindo pela primeira vez ao filme Melancolia, de Lars von Trier, ou a uma ópera de Philip Glass – o mesmo desconforto que a “histeria emudecida de pessoas inteligentes diante de uma calamidade” é capaz de provocar. 

Por mais calamitoso, e, mesmo, apocalíptico, que nos pareça o futuro esboçado por DeLillo, com “a tecnologia se esvaindo”, com o mundo acabando não com um estrondo, nem com um sussurro, mas no tenebroso e cavo silêncio de uma pane no sistema elétrico, fica a esperança de que, no próximo ano, as pessoas voltarão a cruzar os céus em viagens turísticas e a encher os estádios.

O apagão, em princípio, poderá ser uma exclusividade nossa.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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