REUTERS/Mario Anzuoni
REUTERS/Mario Anzuoni

Aos 95 anos, Mel Brooks ainda tem muito fôlego

Cineasta e comediante apresenta suas próprias memórias em livro escrito durante isolamento na pandemia

Entrevista com

Mel Brooks

Jake Coyle, AP

06 de dezembro de 2021 | 15h00

Ao lado de citações laudatórias de Billy Crystal, Norman Lear, Conan O'Brien e outros há uma de “M. Brooks” que apresenta All About Me! assim: “Nunca li algo tão poderoso e comovente desde a Bíblia. E além disso - é muito mais engraçado!”

All About Me!, que chegou às prateleiras na terça-feira, 30, é realmente repleto de histórias, anedotas e memórias de um mestre da comédia de proporções bíblicas. Brooks, 95, passou grande parte da pandemia trabalhando no livro - um ano lembrando de tudo, desde ser atropelado por um Tin Lizzie quando tinha 8 anos em Williamsburg, no Brooklyn, até escrever a versão musical de Os Produtores com Tom Meehan no Madame Romaine de Lyon em Manhattan comendo omeletes.

“Como todo mundo, estive a maior parte do tempo preso em casa e farto da mesma dieta de informações e comida”, diz Brooks.  “Graças a Deus pude deixar minha mente livre para as lembranças. ''

Pela primeira vez, Brooks colocou no papel todas as suas histórias, desde sua infância na era da Depressão em Williamsburg (“Eu amei a Depressão!”', ele diz alegremente), servindo no exército durante a Segunda Guerra Mundial, começando no Borscht Belt, escrevendo no Show of Shows de Sid Caesar, lançando seu esquete 2000 Year Old Man com Carl Reiner, possivelmente apresentando o maior conceito cômico de todos os tempos (Os Produtores) e elaborando os filmes Banzé no Oeste, O Jovem Frankenstein, Alta Ansiedade, entre outros. Há capítulos sensíveis sobre sua esposa Anne Bancroft, que morreu em 2005, e sobre Reiner, que faleceu no ano passado. Há piadas e omeletes. Em uma longa e animada entrevista por telefone de sua casa em Los Angeles, Brooks refletiu sobre seu livro e sua vida no show business - "a maior aventura que qualquer ser humano poderia fazer", ele disse.

AP: A seção sobre sua infância em Williamsburg, no Brooklyn, é uma recordação especialmente vívida e afetuosa. Você escreve que enquanto muitos pensam que a vida na comédia nasce da dor e de uma infância difícil, para você...

Brooks: Eu queria que a festa continuasse. Eu queria manter a felicidade, a alegria e as explosões de riso nos momentos austeros de nossas vidas, não mais na infância. Certa vez, fui entrevistado e o cara disse: “Qual foi a parte mais feliz da sua vida? Foi ganhar o Oscar? Foi se casar com Anne Bancroft? ” Eu disse não, de jeito nenhum. Foi minha infância. Dos 4 ou 5 aos 9 anos, tive a vida mais emocionante, feliz e alegre que alguém poderia ter. O cara disse, “O que aconteceu aos 9?” Eu disse, "Lição de casa". Percebi que o mundo queria algo de volta. Até hoje, ainda é uma coisa ruim. Lição de casa é uma coisa ruim. Tira minutos preciosos de sua infância.

Depender das risadas para a felicidade pode causar muita dor de cabeça. Havia alguma desvantagem em precisar disso?

Ah, sim. Quando as coisas não davam certo.  Quando você trabalhou tanto em uma ideia ou projeto e o público disse: Não, obrigado.  Houve muita decepção. Quando você tem um programa na televisão como “Get Smart”, e ele é cancelado após o primeiro ano. A ABC apenas disse que não haveria um segundo ano. Existem altos e baixos. Eu não escrevi muito sobre os pontos baixos no livro. Por que chatear o leitor quando há tantos pontos altos para falar?

Você se lembra de sua última conversa com Reiner antes de sua morte no ano passado?

Sim. No dia em que ele morreu, eu disse: “Carl, você está comendo dois cachorros-quentes.'' Ele disse: “Eles não vão me incomodar. Eu amo cachorros-quentes e cachorros-quentes me amam”.  Mas não era verdade. Naquela noite, os cachorros-quentes acabaram com ele.

Alguns comediantes lamentam que o público de hoje seja muito sensível. Como alguém que muitas vezes ultrapassou os limites do aceitável, o que você acha dessas batalhas culturais na comédia?

Você tem que ter cuidado. Quando as coisas provocam grandes emoções nas pessoas, eu fico de fora. Sou muito cuidadoso e fico fora disso. Eu nunca tomo partido porque todo mundo está certo. As pessoas que zombam de algo que não deveria ter graça estão certas. E as pessoas que ficam magoadas porque estão destruindo algo que é tão importante para elas, estão certas. Estão todas certas. Recue. Fique longe.

Mas você também não se intimidava sobre assuntos que alguns consideravam proibidos, como zombar de Hitler e dos nazistas em 'Os Produtores' ou a linguagem de 'Banzé no Oeste'.

Eu tive sorte. Eu era politicamente incorreto e não sabia disso. Eu não sabia, então fiz muitas coisas boas. Depois virou politicamente incorreto, como a palavra com N em Banzé no Oeste. Richard Pryor estava escrevendo comigo. Ele simplesmente adorava usar a palavra com N porque era verdade - os bandidos a usavam contra os negros. Não pensamos que havia nada de errado até um tempo depois. Talvez tenha sido usada demais. De qualquer forma, éramos crianças e funcionou. Funcionou quando funcionou. Eu não acho que poderia fazer essas cenas de Banzé no Oeste hoje. Eu não acho que poderia me safar disso. Acho que ofenderia muita gente.

Você pensa sobre o seu legado?

Ah, não penso nisso. Eu só penso: Compre outro livro.

Em um ótimo esquete da década de 1980, você criou uma lápide operada por moedas para você mesmo que reproduzia uma mensagem gravada em vídeo que dizia: "Eu era Mel Brooks, um dos judeuzinhos mais engraçados que já andou pela Terra". Você pensa muito na morte?

Não. Desisti depois dos 60 de pensar nela, porque se o fizesse, estaria pensando nela o tempo todo. Então eu não penso muito nisso. Quando e se isso acontecer, será um dia triste - para todos menos para mim. (Risos) Eu gosto de viver. Eu gostaria de fazer isso o máximo que pudesse.

TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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