Erik Jacobs/The New York Times
Erik Jacobs/The New York Times

Aos 95, Al Jaffee, da revista 'MAD', mostra como a infância pobre o ajudou a ser criativo

Ele começou a desenhar no chão de terra usando uma varinha e se tornou um dos principais nomes da celebrada revista americana

Michael Cavna, The Washington Post

09 de setembro de 2016 | 11h41

Al Jaffee é de antes da Depressão, mas a fome e a escassez cedo o assombrariam – embora não nos Estados Unidos. Essa lenda do cartum nasceu em Savannah, Geórgia, e nos primeiros seis anos teve uma vida confortável. Mas então a mãe, saudosa da terra natal, levou Al e irmãos para a Lituânia, onde foram viver num shetetl, cidadezinha de maioria judaica, onde havia muito pouco para um garoto descobrir ou comprar.

“Foi como voltar ao século 19”, me disse Al Jaffee quando eu estava moderando uma mesa de discussões na Baltimore Comic-Con, onde ele foi guindado ao Hall da Fama do Harvey Award. O jovem Al passou a maior parte dos seis anos seguintes em Zarasai, a “Sibéria da Lituânia”. Não havia água corrente, faltava comida (ele furtava vegetais) – e Al não tinha brinquedos. Ele me falou do contraste entre essa dura experiência e a vida de volta à Geórgia, onde o pai trabalhava no comércio e, aos sábados, Al e irmãos ficavam à solta na seção de brinquedos de uma loja de departamentos. Foi na Lituânia, porém, que Al Jaffee aprendeu a improvisar. Garimpava peças para fazer ferramentas, ou montar um caniço de pesca.

Como o pai mandava revistas de quadrinhos dos EUA para Zarasai, e Al tinha jeito para desenho, começou a desenhar cartuns no chão de terra usando uma varinha. Desenvolveu então um senso de inovação temperado com desconfiança na autoridade dos adultos, canalizando isso para os cartuns – uma arte rara no shetetl que se provou popular e venceu até os bullies. Tudo isso foi uma combinação ideal para a futura carreira de Al como cartunista da revista MAD, onde vem desenhando há mais de meio século suas inimitáveis páginas “dobre aqui” e suas invenções malucas. Em março, em seu 95º aniversário, o Livro Guinness de Recordes confirmou-o como “o cartunista em atividade há mais tempo” da história dos quadrinhos. “A necessidade é mesmo a mãe da invenção”, disse Al na Baltimore Comic-Con.

Aí eu perguntei: “Então se tivesse continuado em Savannah, você hoje estaria vendendo seguros?”. O pai trouxe os filhos de volta para os EUA para uma vida melhor, enquanto a mãe ficou na Lituânia durante a 2ª Guerra e nunca mais foi vista. Acredito que o que Al passou, com as dificuldades e a indescritível perda da mãe, teve uma profunda influência em sua habilidade de pensar contra a corrente, aprender a adaptar-se e mudar de curso até abrir caminhos que ninguém havia tentado. É uma coisa muito forte conhecer, na infância, a abundância e a súbita falta dela. Mas essa defasagem pode ensinar a reagir com um senso incomum de urgência, adaptabilidade e inovação.

Não distante do Centro de Convenções de Baltimore fica a Universidade Johns Hopkins, onde Meng Zhu é professor com especialização em comportamento do consumidor. Num recente estudo para o Journal of Consumer Research, Zhu o coautor do estudo, e Ravi Mehta, da Universidade de Illinois – Urbana-Champaign, escreveram: “Ao contrário da crença popular, a abundância de recursos pode ter efeito negativo na criatividade”. E continuaram: “Descobrimos que a escassez força os consumidores a pensarem além da função tradicional de um produto, com aumento da criatividade”. 

Al Jaffee, aos 95, é ainda um incrivelmente hábil pensador lateral. A criativa armadilha que é sua mente de aço ainda funciona rápida e aguda. Alguns instintos são tão fortemente forjados no início da vida que se tornam parte central da medula do homem. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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