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Aos 84 anos, Augusto de Campos lança novo livro de poemas

Em 'Ouro', autor faz mais experiências com a palavra

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 05h00

Augusto de Campos não publicava um livro de poesia desde 2003, quando saiu Não. Mas, ao longo desses 12 anos, o poeta de 84 anos não ficou parado - pelo contrário. Pesquisador incansável das novas mídias eletrônicas, ele manteve seu interesse pela dimensão “verbivocovisual” (conceito emprestado de James Joyce com que os concretistas definiam a fusão de aspectos visuais, sonoros e verbais da poesia) e criou novos poemas, reunidos agora em Outro (Perspectiva), cujo lançamento acontece na segunda-feira, dia 3, a partir das 19 horas, na Casa das Rosas.

Augusto é último dos escritores vivos do grupo Noigandres, fundado em 1952 e do qual atuava juntamente com seu irmão Haroldo de Campos e o amigo Décio Pignatari, dupla com quem fundou a revista do mesmo nome. A publicação apostava em uma nova forma de ler a literatura brasileira e universal, priorizando as questões estéticas e internas à própria literatura.

Ao longo dos anos, Augusto manteve-se fiel ao radicalismo da experimentação, testando a destruição do verso, desintegração da palavra e se recusando a praticar a poesia discursiva. Em Outro, que traz texto, capa, projeto e execução gráfica do próprio autor, despontam poemas visuais e indicações de clip-poemas, que podem ser vistos na internet.

Inquieto, Augusto de Campos habituou-se a trabalhar com a palavra, modificando-a com prazer. Até mesmo quando concede entrevista, como é no caso a seguir, feita por e-mail.

O senhor já disse que não sabe se ainda faz poesia concreta - julga-se hoje mais ‘pop’. Como avalia essa trajetória entre uma e outra?

Em geral, identifica-se a poesia concreta com a sua “fase ortodoxa”, que ocupa só a década entre 1950 e 60, balizada pelo geometrismo bauhausiano. Desde os anos 1960, porém, além do “salto participante”, buscamos caminhos diferentes, eu com os “popcretos” e a poesia aleatória de “cidade”, Décio com a “poesia semiótica”, Haroldo com o “prosoema” das Galáxias. A evolução tecnológica, que lastreou o nosso projeto, também o expandiu de forma a ultrapassar os limites do nosso Plano Piloto. Mas a poesia concreta continua a inspirar os meus textos, embora sem as constrições iniciais que visavam impor alguma ordem no caos a-sintático das primeiras manifestações. 

A lembrança a Haroldo de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald e Ronaldo Azeredo, a quem dedica seu novo livro, faz acreditar que, a julgar pela importância de todos, os críticos que apostaram contra seu grupo são hoje derrotados?

“Toda vitória é uma grosseria”, disse Fernando Pessoa pela voz do semi-heterônimo Bernardo Soares. Prefiro manter a “autoridade do fracasso”, com a qual Fitzgerald contrastou a sua personalidade com a de Hemingway: “Você fala com a autoridade do sucesso - eu, com a autoridade do fracasso”. Nada do que acontece com poesia pode ser considerado sucesso, já que ela interessa a poucos, sobrevivendo numa espécie de gueto ou reserva impopular. Em todo caso, dada a hostilidade que a poesia concreta encontrou por tanto tempo, e ainda encontra, não deixa de ter um sabor especial o Prêmio Interamericano de Poesia Pablo Neruda, que venho de receber e que fala pelos companheiros que já se foram. Pois, ao publicar o poema Pós-tudo, não fui acusado de “delírio de grandeza” e a poesia concreta de “bobagem provinciana”?

Haroldo formulou o conceito de pós-utópico. Hoje, o senhor faria distinção entre pós-moderno e pós-utópico?

Nunca simpatizei com o termo “pós-moderno”. “Pós-tudo” o satirizava, por implosão conceitual. Transferido da arquitetura para a literatura, serviu mais de álibi para um retro-moderno. A poesia continua, no que tem de melhor, a orientar-se pelo giro do alto-modernismo. Haroldo plantou o seu conceito de pós-utópico na falência das utopias ideológicas no século passado. Achava que não havia mais motivação para movimentos. Daí a sua idéia de “agoridade”. Eu sou mais renitente quanto às utopias, acho que merecemos continuar apostando nelas, por mais que os fatos nos desanimem. Sou mais pessimista com o “agora”. Temo que sirva de abrigo a retornos indesejáveis. Meu lema é: ser radical sem ser fanático, aberto sem ser eclético.

O senhor acredita que seja desejável uma atividade vanguardista hoje? A vanguarda não teria se mercantilizado? Qual deveria ser a postura da vanguarda agora?

Sempre haverá os que gostam de explorar territórios desconhecidos da linguagem - os “vanguardistas”, que Pound chamava de “inventores” - e os que se dedicam a aperfeiçoar a linguagem já codificada - os “mestres”. São tipos de intervenção relativos e intercambiáveis. Mas a poesia se faz de muitas vozes e em vários níveis. Não vejo mercantilização nas vanguardas da poesia. Autores de vanguarda jamais se encontram na lista dos “best sellers” e têm de passar por um longo corredor polonês antes de serem reconhecidos quando longevos ou de preferência “post mortem”, quando incomodam menos.

É curiosa a presença do poema Brazilian ‘Football’‚ em nova versão no livro. O que mais o motivou a reescrever: a Copa do Mundo no Brasil no ano passado ou os 50 anos do golpe militar, ambos no ano passado?

O poema foi publicado em setembro de 1964, no número que o Times Literary Supplement de Londres dedicou às novas vanguardas e à poesia concreta brasileira. O “futebol”, entre aspas, era só um pretexto para denunciar o golpe militar. O poema aludia às conquistas brasileiras nos Mundiais de 1958 e 1962, com o grito de GOAL GOAL GOAL, e o revertia em 1964 para GAOL GAOL GAOL (o mesmo que “jail”, prisão). Lembrei-me dele quando organizava os poemas para o novo livro. Nada a ver com a Copa do Mundo. Eu queria era “descomemorar” a ditadura. 

O livro traz também traduções de autores que são referência para o senhor, como Mallarmé, poetas que se concentram nos “inventores”, segundo a classificação poundiana. Como o senhor formou estas afinidades eletivas e como dialoga com sua criação?

Discute-se muito hoje nos Estados Unidos a tendência denominada “unoriginal language”, linguagem não-original. Desde os anos 60 e 70, venho realizando uma espécie de intervenção crítico-poética, as “intraduções” e “profilogramas”, com imagens ou textos alheios remanejados sob a forma de tradução ou de interpretação gráfica. Do Profilograma Pound/Maiakovski ao recente Profilogramallarmé. É uma forma de diálogo-homenagem. 

O senhor sempre gostou de variar os suportes para sua obra, do livro-objeto  à animação digital. Quais são seus interesses atuais?

A partir da década de 1990, passei a trabalhar com recursos da linguagem digital. O livro permanece um veículo relevante, mas me interesso muito por outras formas de apresentação, suportes cinéticos e interdisciplinares que a tecnologia hoje proporciona em variantes multiformes. A poesia concreta apontava há mais de meio século para esses caminhos, “sem prever do futuro” o quanto a fulminante revolução digital das últimas décadas confirmaria as suas intuições.

OUTRO

Autor: Augusto de Campos

Editora: Perspectiva (120 págs., R$ 59)

Lançamento: Casa das Rosas. Avenida Paulista, 37. Dia 3/8, 19h 

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