Aos 23 anos e mais confortável com a escrita, Luisa Geisler lança romance

'Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente' é o terceiro livro da escritora gaúcha

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2014 | 19h11

Henrique, o Ike, é um garoto calado, na casa dos 20 e poucos, que divide seu tempo entre duas coisas enfadonhas: o trabalho na loja de conveniência e a faculdade. Da namorada um pouco deprimida, Manu, até que ele gosta. Sua rotina é alterada quando Gabriel, seu melhor amigo, cai em casa, bate a cabeça e entra em coma. Ele pode acordar a qualquer momento e, meio que para passar o tempo, meio que para atualizar o amigo do que está acontecendo ao seu redor, Ike começa a escrever cartas para ele.

Esse é o ponto de partida de Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente, segundo romance da gaúcha Luisa Geisler, de 23 anos, estudante de Relações Internacionais e Ciências Sociais e garota prodígio da literatura brasileira – e o primeiro que ela escreve e publica como a maioria das pessoas. Os outros dois que ela lançou nasceram de um propósito claro: concorrer ao Prêmio Sesc, dedicado a autores estreantes. Àquela altura, Luisa frequentava a Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. 

Na primeira vez, Luisa optou pela categoria contos, e ganhou com Contos de Mentira. No ano seguinte, teve um estalo: como nunca tinha escrito um romance, era estreante no gênero. Tratou logo de preparar um livro para participar novamente. E seu Quiçá ganhou. Nos dois casos, a obra foi publicada pela Record, parceira do prêmio, depois de uma revisão. Não houve, porém, um editor sugerindo mudanças nem espaço para que a autora mexesse na obra, e ela lamenta isso hoje. Foi assim que tudo começou.

“Eu era só uma guria que escrevia para mim mesma. Na oficina, tomei consciência de que existia um leitor e de que essa pessoa também era parte do meu texto, e isso mudou muito o meu jeito de criar. A literatura não se tornou uma coisa ‘estou chateada, vou escrever’, mas sim uma criação consciente”, explica. E completa: “Durante a oficina alguém comentou do prêmio e eu mandei meu livro. Se eu não tivesse ganho, eu não teria procurado uma editora, seguiria com a faculdade e a literatura não teria se tornado a prioridade que ela é hoje”, afirma.

Depois de sua estreia duplamente premiada, outra surpresa. Na seleta lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros, Luisa, então com 21 anos, era a mais jovem.

Com tudo isso, seria natural sentir a pressão do lançamento de agora, mas a escritora está tranquila e conta que entre os dois primeiros livros e este, ela passou a se sentir mais confortável com o ofício. Ter um editor e uma agente literária ajudou muito, ela reconhece. “Ao compartilhar com os outros, ganhei perspectiva. Eu ficava muito nervosa em alguns momentos porque experimentava coisas e não sabia se estava dando certo. Agora, pude testar e ver como as pessoas reagiam. Foi muito mais confortável e menos solitário”, diz. Mas pondera: “Por outro lado, o livro não tem o aval do prêmio, o que me deixa um pouquinho insegura. Mas acho que vai dar certo”.

E como o processo foi mais lento – quase dois anos, o dobro das suas primeiras incursões pela literatura –, ela teve tempo de trabalhar melhor os personagens, estruturar a história e mudar seu rumo quando Dante, que seria só mais um de seus personagens, a conquistou e ela decidiu dar mais espaço para ele. Teve tempo para ler, reler, reescrever. Isso tudo, entre um trabalho e outro das duas faculdades e mais intensamente durante as férias.

Luisa quis escrever um livro narrado em cartas. Por vezes, aparece um narrador em terceira pessoa, mas o que se destaca é a voz de Henrique. Ao longo do livro, essas cartas com relatos cotidianos vão se transformando em um diário, embora seu autor continue endereçando seus escritos a Gabriel. “Tenho a sensação de que ele vai percebendo que o amigo não vai acordar. E por isso ele começa a escrever de um jeito mais confortável no caderno porque sente que ninguém vai ler”, conta a autora.

Enquanto escreve, ele vai acordando para a vida, como se a escrita o despertasse para si mesmo. Ele, que vivia sua monótona rotina em negação, se rebela, xinga, se estranha e vai aprendendo a viver com suas contradições e com os sentimentos e sensações que não conhece. “Henrique não é o tipo de pessoa que fala muito, que discute a vida com os amigos. Ao botar para fora, ele percebe a quantidade de coisas pelas quais está passando. Em algum nível, ele se descobre e percebe que tudo o que está ali é real”, analisa. E o que está ali é, sobretudo, a descoberta do desejo. E nisso, Dante tem um papel especial.

A história se passa em Canoas, cidade natal da escritora, e no trem – ou ao seu redor – que leva e traz os moradores que trabalham e estudam na vizinha Porto Alegre. Aliás, foi sentada no chão desses trens que Luisa começou a escrever – ela garante que é bom.

Em certo momento, o narrador fala que Canoas era, para ele, o que ela era para o Trensurb: só parte do caminho.

“O Trensurb vai e volta numa linha reta, que corta Canoas ao meio. Tenho a sensação de que ele retrata muito o Ike”, comenta. “E mais: o Dante acaba sendo essa pessoa que divide Ike no meio. E, às vezes, parece que ele está indo embora e ele está voltando.” O caminho de Henrique já não é mais tão certo, e ele vai vivendo e amadurecendo com os recursos de que dispõe naquele momento.

Luisa Geisler segue para Nova York em setembro para uma residência artística e se forma no fim do ano em Relações Internacionais. Sabe que continuará escrevendo, mas não tem um projeto literário. “Digo para mim que tenho tempo para descobrir, e para as perguntas que não tenho resposta digo que não preciso saber disso agora.” 

Leia trecho do livro Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente

“Meu velho, tu bateu a cabeça. Era 7 de setembro, chovia...

(...)

“Quis fazer uma piada. Quis mesmo. Quis falar daquelas listas de ‘Mortes Mais Patéticas’. Quando tu acordar, podemos fazer uma Lista de Comas mais Patéticos. Se tu quiser dizer que foi um acidente de moto durante um rali, ninguém vai desmentir. Um rali no deserto com um prêmio de quatro milhões de dólares.”

(...)

“Porque escrever isso tudo foi muito rápido (mas tu tá f... tem quase um ano) E cada dia que tu tá mal passa muito mais rápido que os dias tu tava bem. E um dia eu vou ter 80 anos e vou dizer que tu participou da maior parte da minha vida (porque tu vai continuar apagado até lá).”

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