Antropólogos criticam desprezo pelos índios

Beto Ricardo e Eduardo Viveiros de Castro debateram sobre a situação indígena do País em meio à pressão de ruralistas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 20h29

PARATY - No segundo encontro dedicado aos índios pela 12ª. edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), intitulado “Tristes Trópicos”, o antropólogo paulista Beto Ricardo, 64 anos, e seu colega carioca Eduardo Viveiros de Castro, 63, concordaram que o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, seja o da ditadura militar ou do governo atual, despreza, sobretudo na Amazônia, o que de mais rico o País produziu em matéria de cultura: seus primeiros habitantes.

O encontro dos dois na tarde deste sábado, 2, deixou claro que o Brasil está diante de um impasse: ao desenvolver projetos ambiciosos como o da hidrelétrica de Belo Monte, o governo pode estar decidindo o futuro do Brasil num jogo de azar, em que a chance das empreiteiras é muito maior que a do ambiente. Para azar de índios e brancos, concluem os dois.

Beto Ricardo é um dos fundadores do Instituto Socioambiental, que está completando 20 anos, no qual coordena o programa Rio Negro, que busca o desenvolvimento sustentável da bacia do rio no Noroeste da Amazônia. Viveiros de Castro realiza pesquisas de campo junto aos índios do Xingu há quase 40 anos, sendo uma autoridade na questão indígena e um dos antropólogos mais citados pelos colegas, em particular pelo já clássico “A Inconstância da Alma Selvagem” (Cosac Naify, 2002).

Com tais credenciais parece natural que Viveiros de Castro possa citar o poeta Eduardo Sterzi, que, por sua vez, usou uma frase do Nobel de Literatura Le Clézio, ao abrir sua participação no debate: “O encontro com o mundo índio não é um luxo, mas uma necessidade para se compreender o mundo moderno e tentar sobreviver”.

Pode parecer paradoxal unir a cultura ancestral dos índios à euforia tecnológica do mundo contemporâneo, mas é isso mesmo que propõe o antropólogo. Há, segundo Viveiros de Castro, uma ofensiva final contra os índios brasileiros ditada pela ação de congressistas que são proprietários rurais e querem os primeiros habitantes fora das reservas que pertencem às tribos por direito. “Os direitos garantidos pela Constituição aos índios estão sendo solapados”, denunciou, exemplificando o crepúsculo indígena com o projeto de ocupação da Amazônia e do Mato Grosso do Sul, onde a situação dos guaranis é dramática. “Eles são expulsos por colonos de reservas minúsculas e vivem alcoolizados na beira da estrada, a nossa faixa de Gaza”, comparou.

“Belo Monte é um cavalo de Troia ambiental”, completou o antropólogo Beto Ricardo, definindo o pantagruélico projeto de “picaretagem econômica” não para produzir energia elétrica, mas lucros para as empreiteiras, tudo isso pago com dinheiro público. “O Brasil quer ter 66 barragens na Amazônia, ou seja, estamos mexendo em todos os rios da região sem saber o que pode acontecer, o que é uma posição suicida”, completou Viveiros de Castro, concluindo que ela atinge não só seus legítimos habitantes, mas todos os brasileiros: “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. Afinal, 33% do genoma brasileiro vem do estupro de índios por brancos, lembrou. 

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.