GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Antonio Fagundes comenta livro que retrata seus mais de 50 anos de carreira

Obra destaca aspectos políticos das peças do ator e também sua luta pelo respeito do espectador

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2018 | 06h00

Ele já foi líder de favela, coronel autoritário, caminhoneiro, anarquista, mocinho corrupto, cafeicultor, médico, professor gago e até Deus. Em 55 anos de carreira, Antonio Fagundes experimentou inúmeras vivências no cinema, TV e, principalmente, no teatro. “Sempre tive sorte, pois trabalhei em diversos veículos, que me permitiram atingir camadas distintas, muitas vezes com profundidade, e o que me possibilitou também alcançar público de diversas ramificações”, conta o ator de 69 anos. Tal caleidoscópio artístico é o ponto de partida de Antonio Fagundes no Palco da História: Um Ator (Perspectiva), obra de Rosangela Patriota, que será lançada na noite desta quarta-feira, 8, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Não se trata de uma biografia convencional – inicialmente parte de um projeto de pesquisa e reflexão sobre o trabalho do diretor Fernando Peixoto, as entrevistas comandadas por Rosangela acabaram rumando para a trajetória de Fagundes, a partir de conversas sobre arte, política e a situação do Brasil.

Ciente da imagem do ator construída pela sua participação em novelas, a ponto de Fagundes se transformar em uma instituição da TV, Rosangela buscou apontar para outros campos, como os trabalhos no teatro e no cinema, nos quais o ator rompeu caminhos e parâmetros.

Assim, são analisados os diferentes tratamentos que o ator dá em função do veículo para o qual a performance é destinada. “Ao entender o motivo de estar fazendo determinado trabalho, passei a entender melhor meu ofício”, conta Fagundes ao Estado. “A TV, por exemplo, não pede profundidade – é um bom rascunho e até produz obras de arte, ao contrário do cinema, que consegue aprofundar, mas pede mais ação. Já o teatro é incomparável, pois pede ousadia e onde, mesmo nos erros, é possível descobrir mais sobre a humanidade.”

Fagundes é muito prático ao comentar por que certas interpretações povoam a imaginação e se tornam referências por certo tempo, um dos tópicos do livro de Rosangela Patriota. “Alguns atores não gostam de misturar, mas é possível oferecer arte e ser também comunicativo”, afirma. “Alguns personagens caem na graça do público, outros não. Quando acontece, fica para o resto da nossa vida. É algo que mexe com o emocional do espectador, vira uma referência em sua vida, como acontece com certas músicas.”

Tal assunto leva a outro tópico do livro de Rosangela, que é pensar o teatro para além do mero entretenimento, especialmente nos anos 1960 e 70, quando as circunstâncias históricas incentivavam os jovens artistas ao debate político-estético. “É uma discussão interessante, pois ressalta a importância do mercado. Costumo brincar que certos colegas se parecem com açougueiros que querem vender carne para vegetarianos. Não adianta só privilegiar um ou outro lado, é preciso conciliar as intenções.”

A relação com o público, aliás, foi direcionada para outros (e originais) caminhos – ao longo dos anos, Fagundes passou a cobrar de seu público uma relação de respeito mútuo. Isso implicaria que, de seu lado, o espetáculo teatral começaria rigorosamente no horário, impedindo até o acesso de retardatários para não atrapalhar os que já estavam presentes. E, do lado da plateia, além da pontualidade, cuidados para evitar ruídos como tosse e, principalmente, toques de celular.

Entre apoio e críticas (especialmente dos que não conseguiram entrar para a sessão), Fagundes se inspirou para escrever a peça Sete Minutos, encenada por ele em 2002. Rosangela Patriota destaca diversos trechos da dramaturgia, que conta a história do ator, que abandona o palco, irritado pelo o que considera desrespeito da plateia. “Escrevi como uma ode ao teatro e um elogio às boas relações”, explica o ator.

Ciente da importância social de sua profissão, Fagundes encenou textos provocativos no teatro (como Morte Acidental de um Anarquista, em 1981, uma crítica geral à sociedade) e no cinema, como no filme inédito Contra Parede, que estreia no sábado à noite na Globo. Sem o uso das leis de incentivo, o longa dirigido por Paulo Pons conta uma história atual: à véspera da eleição presidencial do Brasil, o âncora de um importante telejornal lida com acusações de corrupção contra candidatos. “A estreia é na TV, pois não podíamos esperar o lançamento no cinema”, justifica ele. 

ANTONIO FAGUNDES... Autora: Rosangela Patriota Editora: Perspectiva Lançamento: Liv. Cultura – Av. Paulista, 2.073. 19h

Mais conteúdo sobre:
Antônio Fagundes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.