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Antonio Carlos Secchin celebra obra de João Cabral e detalha suas rusgas com Drummond

No livro 'João Cabral de Ponta a Ponta', o escritor, crítico literário e imortal da ABL faz um dos mais completos relatos analíticos e históricos da obra do poeta centenário

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2020 | 05h00

Dois dos maiores poetas em língua portuguesa cultivaram uma amizade motivada pela admiração mútua que, com o tempo, se deteriorou e terminou com o completo afastamento, com resquícios de mágoa. Basicamente, foi uma diferença estética que transformou João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em ex-amigos, como atesta o escritor e crítico literário Antônio Carlos Secchin em um dos capítulos do livro João Cabral de Ponta a Ponta (Cepe).

O livro será lançado nesta quarta-feira, 26, às 17h30, em uma live da Companhia Editora de Pernambuco, a Cepe, em seu canal no YouTube. Excelente oportunidade para que o escritor, professor e membro da Academia Brasileira de Letras fale sobre a concepção do livro desde as versões iniciais, publicadas em 1985 e 1999, passando pela de 2014, até chegar à forma definitiva que, por ora, está disponível apenas no formato e-book.

Trata-se de um dos mais completos relatos analíticos e históricos da obra de João Cabral, cujo centenário de nascimento foi comemorado em janeiro. Responsável por uma ruptura radical na linguagem da poesia brasileira – antes dele, os versos nacionais viviam à sombra do simbolismo e da retórica pomposa –, João Cabral começou com Pedra do Sono, de 1942, mas especialmente com O Cão sem Plumas (1950), a ostentar uma escrita marcada pelo estilo seco, cortante, uma visão materialista da escrita, além de seu desprezo ao enfeite e à beleza fácil.

Avesso ao poema lírico, Cabral se autodenominava antilirista. “Minha poesia é intelectual – em alguns livros, é uma poesia de crítica social à situação nordestina, é uma poesia, como dizem os críticos atuais, metapoesia, uma poesia sobre a poesia, mas não é uma poesia lírica. Eu tenho a impressão de que a verdadeira poesia lírica hoje está sendo feita pelos compositores de música. Os grandes líricos do Brasil hoje chamam-se Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda”, comenta João Cabral a Secchin, em uma entrevista de 1980 e que consta no livro.

Tal posicionamento explica o distanciamento que marcou a trajetória de João Cabral e Drummond ao longo dos anos. No início, nos anos 1930 e 40, eram muito próximos: Cabral não apenas se revelava tributário e admirador do poeta itabirano, conforme revelam dois poemas de 1938, como Drummond foi padrinho de casamento de Cabral com Stella, sua primeira esposa, em 1946.

A partir dos anos 1950, o afastamento começa a ficar evidente graças a projetos estéticos divergentes – se Drummond já aponta restrição ao que considera um hermetismo na poesia do colega, Cabral, por sua vez, percebe que a fase de “desconstrutor” do período modernista é trocada, em Drummond, pelo poeta participante de Sentimento do Mundo e Rosa do Povo.

“Mais tarde, na virada para a década de 1960, Cabral passou a ser entronizado como o grande poeta brasileiro, enquanto, injustamente, parte da crítica, em especial a vinculada à vanguarda concretista, depreciava a produção de Drummond, atacado pelos mesmos nomes que consagravam o afilhado. Também deve ter chegado a seu conhecimento que era ele, Drummond, o poeta ironizado por João Cabral no cáustico e cifrado poema Retrato de Escritor, de A Educação pela Pedra”, escreve Secchin. Por fim, nos anos 1980, Drummond passou adiante um exemplar autografado de Museu de Tudo, de Cabral. Secchin conversou com o Estadão.

João Cabral foi, ao mesmo tempo, um dos mais regionais e um dos mais cosmopolitas poetas brasileiros?

O diplomata e cosmopolita João Cabral, quanto mais percorria o mundo, mais fazia o poeta João Cabral tornar-se regional, ou melhor, pernambucano. Mas foi, paralelamente, o mais hispânico de nossos poetas. Aprofundou-se na história e na literatura da Espanha, traduziu Garcia Lorca e escritores catalães, acompanhou com intensidade as manifestações populares da cultura espanhola, foi aficionado do canto flamenco e de touradas. Sua grande musa não foi uma mulher, mas uma cidade: Sevilha, a quem dedicou numerosos poemas e o derradeiro livro, Sevilha Andando, de 1989.

João Cabral dizia que a grande arte não era a literatura, mas a pintura. Seria por isso que, para ele, a poesia deveria ter dimensão visual e não apenas auditiva?

Cabral era obcecado pela visualidade, tanto que, numa entrevista, declarou que, se tivesse de escolher uma divisa para sua poesia, recorreria ao título de um livro de Paul Éluard: “Dar a ver” (Donner à Voir). Infenso à música, disse-me que o Hino Nacional era a única melodia que reconhecia, de tanto ouvi-la em cerimônias públicas. É elevado o número de artistas plásticos homenageados em sua obra, e de poemas que aproximam a literatura da pintura. Essa visualidade, no entanto, não se reduz à expressão figurativa, aponta antes para um jogo de formas, volumes, texturas, luminosidades, de que Mondrian seria ótimo exemplo.

João Cabral reconhecia mesmo Morte e Vida Severina como um de seus piores poemas porque o fez às pressas, sem ter trabalhado como os outros?

Morte e Vida é obra de grande comunicabilidade, mas nada tem de apressada ou espontânea, ao contrário do que o próprio Cabral gostava de dizer. Foi fruto de minuciosa pesquisa em fontes ibéricas e pernambucanas, que lhe forneceram os traços básicos dos autos natalinos tradicionais, magistralmente reconfigurados para o espaço da penúria nordestina. Não sem um laivo de ironia, dizia que o texto devia ser ruim porque Maria Clara Machado , que o encomendara, desistiu de encená-lo no Teatro Tablado. Creio, porém, que a minimização da qualidade de Morte e Vida, por parte de Cabral, obedecia a outro propósito: o de, pelo contraste, jogar luz sobre o conjunto de sua produção. Deveria incomodá-lo a desproporção entre o sucesso de um livro e a acolhida bem mais discreta (em termos do grande público) de todo o restante.

Como aconteceu o dissenso estético que afastou João Cabral de Drummond? 

Trato da questão no ensaio Afagos e Alfinetes. Na década de 1940, quando veio morar no Rio, Cabral nitidamente situava-se como “discípulo” e amigo de Drummond, que foi o padrinho de seu casamento com Stella. Nos anos 50, com o crescente prestígio do jovem escritor – numa linha poética muito diferenciada da de CDA –, começam as divergências: o ex-pupilo tornava-se então um mestre. Tenho notícia de dardos oblíquos – de um contra o outro, e com certeza havia pressurosos mensageiros que se incumbiam de transportá-los, bem envenenados, aos dois poetas. Com a carreira diplomática, os laços, já esgarçados, se romperam de todo. Mas, curiosamente, nenhum dos dois, publicamente, assumiu o distanciamento, como se fosse normal dois “amigos” ficarem 30 anos sem se falar.

Cabral chegou a criticar Drummond como autor de uma poesia “derramada”, a ponto de lhe causar engulhos. Era a poesia discursiva de Drummond que mais o incomodava?

Numa entrevista a mim concedida em 1980, Cabral localizava a grandeza de Drummond apenas em seus livros iniciais, os mais ortodoxamente modernistas, da década de 1930. Incomodava-o, sim, a retórica, a grandiloquência da poesia drummondiana estampada no período seguinte, em especial na vertente engajada de A Rosa do Povo (1945). O culpado disso, segundo Cabral, seria Pablo Neruda, que aqui esteve para influenciar negativamente, com sua dicção hiperbólica, a poesia brasileira da época.

O crítico Wilson Martins apontava Cabral como um solitário na literatura: sem antepassados conhecidos e sem descendentes reconhecíveis. 

Sim, mas não no sentido depreciativo que o crítico lhe confere. WM sempre fustigou Cabral por aquilo que ao crítico soava como excessivo cerebralismo, para ele incompatível com a emoção lírica que, aliás, o poeta nunca buscou. Em nossa tradição poética, de fato, a obra de Cabral surge algo órfã. E permanece também sem descendentes, salvo os diluidores, os sub Cabrais que proliferaram sem proveito algum para nossas letras.

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