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Antonio Carlos Chaves Cabral reflete sobre seu ofício no livro 'Jornada Pelo Reino da Mídia'

Obra tece uma deliciosa teia de observações com base em escritores brasileiros e estrangeiros que trabalharam em jornais

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 03h00

Dez anos de estudo e pesquisa, dezenas de obras consultadas e lidas, dedicação e paciência para analisar textos de autores nacionais e estrangeiros. Antonio Carlos Chaves Cabral – ou apenas Antonio Cabral, como ele se apresenta – aposentou-se em 1997, após mais de 30 anos de jornalismo, sendo 27 anos na redação do Estado, para escrever Jornada pelo Reino da Mídia. Lançado pela Editora Bússola em e-book ou versão digital, o livro está disponível nos portais das principais livrarias e será publicado em edição impressa em data ainda não definida. Algumas dezenas de exemplares em papel saíram da gráfica com endereços certos, de amigos e divulgadores dos meios de comunicação.

“Longe das tarefas, perto da filosofia”, adverte Cabral logo na primeira linha do prólogo, ao esclarecer que sua proposta é refletir sobre sua experiência na profissão, na qual passou grande parte de sua carreira exercendo a função de redator. Ou na “casa das máquinas”, debruçado sobre informações de correspondentes e de agências de notícias, fora da reportagem de rua em que tantos colegas se projetam. Modéstia do autor, pois ele ocupou no Estadão um posto privilegiado, que lhe permitiu observar a distância os fatos que deveria interpretar para os leitores. Como redator da Editoria Internacional, Cabral especializou-se no noticiário da Guerra Fria, descrevendo e analisando os acontecimentos que constantemente punham em choque as grandes potências mundiais. Embora não fosse repórter, entrevistou duas vezes Henry Kissinger, então secretário de Estado do governo norte-americano.

Refletindo sobre o jornalismo, Cabral tece uma deliciosa teia de observações, com base em escritores famosos, brasileiros e estrangeiros, que trabalharam em jornais, paralelamente a outras atividades. Por exemplo, Euclides da Cunha, o engenheiro encarregado por Julio Mesquita de cobrir a campanha de Canudos, na Bahia, que aproveitou o esforço de reportagem para escrever Os Sertões, um épico da literatura nacional. Não só Euclides, mas ainda Gilberto Freyre, Antônio Cândido, Carlos Drummond de Andrade e Otto Maria Carpeaux, entre dezenas de autores citados. Antropólogos, historiadores e sociólogos, como Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Hollanda e Fernando Henrique Cardoso são nomes recorrentes no texto de Jornada pelo Reino da Mídia. 

Cabral foi particularmente feliz ao escrever sobre a mídia nos tempos de Vargas, mostrando como a ditadura se aproveitou da imprensa, para construir um misticismo a serviço do ditador. Getúlio Vargas submeteu a seu poder quase a totalidade dos jornais brasileiros. No caso de resistência, como ocorreu com o Estado, a repressão chegou ao extremo: seus diretores foram presos e exilados em 1932, após a derrota da Revolução Constitucionalista e, em outra vez, no Estado Novo. Julio de Mesquita Filho foi exilado outra vez, enquanto o jornal era ocupado pelo governo, de março de 1940 a dezembro de 1945. Da descrição desse período, Cabral avança no tempo, sempre com a ajuda de historiadores, para mostrar como o poder manobra a mídia na promoção de dirigentes políticos e programas de governo. Não só jornais e revistas, mas também, e cada vez mais, a televisão, instrumento frequente para a construção do misticismo.

Sem a pretensão de ser acadêmico, como insiste ao caracterizar seu trabalho de jornalista observador, Cabral faz uma comparação entre o jornalismo europeu, marcadamente intelectual, e o jornalismo norte-americano, que dá preferência ao relato ou divulgação da notícia, função primordial do repórter. É um exercício interessante esse paralelo, numa análise que vem do século 19 aos dias atuais, num confronto de tendências entre títulos seculares que, embora se modernizando, se mantêm fiéis à tradição, e os lançamentos mais recentes de jornais populares. Cabral aponta a evolução vista também em outros veículos de comunicação, especialmente o cinema. Charles Chaplin – que não gostava da imprensa, como observa o autor – abre a galeria de cineastas famosos, entre os quais Woody Allen, um crítico sagaz da sociedade atual. 

Antonio Cabral gostaria que seu livro servisse principalmente aos estudantes de jornalismo. É possível que se decepcione com essa expectativa, pois a densidade e a extensão de Jornada pelo Reino da Mídia podem desencorajar os leitores jovens, geralmente pouco afeitos à leitura de livros tão sérios. É provável, porém, que a versão digital desminta essa hipótese. No caso de professores e outros estudiosos, sobretudo antropólogos, historiadores e sociólogos, é inestimável a contribuição dessas páginas para suas áreas.

JORNADA PELO REINO DA MÍDIA

Autor: Antonio Cabral

Editora: Bússola (29,90, o e-book)

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