Guilherme Maranhã
Guilherme Maranhã

Antonio Candido: um mestre devotado à literatura

Com conjunto de fotos, a biografia ‘A Formação de Antonio Candido’ revê o legado do professor como intelectual e cidadão

Marisa Lajolo, Especial para o Estadão

27 de julho de 2021 | 05h00

A Formação de Antonio Candido (Ouro sobre Azul, 2020) é uma elegante e oportuna biografia ilustrada do professor nomeado no título do livro lançado no ano passado por Ana Luísa Escorel.

A figura de Antonio Candido integra o pequeno número de intelectuais brasileiros que desfruta de largo reconhecimento e profunda estima. Razões não faltam para isso: seus ensaios, suas reflexões sobre Teoria Literária, suas discussões de literatura brasileira, seus frequentadíssimos cursos muitas vezes transformados em livro. Ao lado desta figura emoldurada por salas de aula e estantes de livros, o amor e respeito pelo mestre se ampliam por sua constante luta por um país menos desigual, e por uma vida brasileira mais digna.

Por tudo isso, este recente lançamento é muito oportuno para conhecermos alguns itinerários de quem deixou um significativo legado como cidadão e como intelectual.

Neste livro assinado por sua filha encontramos um Antonio Candido de carne e osso. 


O volume pequeno é requintado em suas pouco mais de 300 páginas. Da capa, o biografado contempla seus futuros leitores com um olhar de menino que desafia interpretações. Logo nas primeiras páginas, o professor discreto e reservado na vida real adulta se apresenta bebê, primeiro vestido com uma camisolinha (1918) e, logo depois, com pouco mais de um ano, de fraldas. 

A narrativa desta biografia ilustrada é sóbria como foi o biografado. E é igualmente sóbria a reprodução dos documentos que ela reúne. A sobriedade elegante de Antonio Candido articula-se bem à sofisticada diagramação do livro e ao belíssimo conjunto de fotos em branco e preto, com bordas cuidadosamente serrilhadas. A legenda de cada uma identifica os fotografados, época e local da foto. Muitas vezes, articulam-se às imagens textos rápidos do professor, extraídos dos cadernos que - ficamos sabendo, na introdução do livro - ele foi preenchendo ao longo da vida, com os mais variados registros. 

Dentre as fotos, sobressai a figura de Clarice, na verdade Clarisse, com dois esses: esposa do médico Dr. Aristides, Clarisse foi a mulher que, como conta o livro, na noitinha de 24 de julho de 1918, com a lua cheia ganhando o céu da enseada de Botafogo, deu à luz um menino, que recebeu o nome de um de seus antepassados: Antonio Candido. 

Muito embora a narrativa biográfica não seja ortodoxamente linear - é muitas vezes interrompida por comentários ou por anotações do professor constantes do verso das fotos - ela prende o leitor de começo ao fim, mergulhando-o na história que o título do livro promete: a formação do professor. 

Carioca de nascimento, sua infância foi pontilhada de períodos vividos numa cidadezinha mineira - Cássia, hoje Santa Rita de Cássia. A convivência com meninos da roça talvez tenha sido seu primeiro contato com os diferentes brasis que constituem o Brasil. Brincadeiras, roupas, modos de fala eram diferentes em Minas e no Rio. Antonio Candido viveu dez anos em Cássia e, quem sabe?, talvez tenha sido por lá que nasceu seu interesse e amor pela cultura rural, interiorana, que acabou desembocando nos Parceiros do Rio Bonito. 

Depois da história de seus primeiros anos, a biografia introduz o leitor no mundo das leituras de Antonio Candido, que começou a se interessar pela letra impressa muito cedo, a partir de manchetes do jornal de Cássia. A figura dos pais, que liam e compartilhavam leituras com os filhos, mais tarde seguida pela influência de alguns professores parece ter sido fundamental para a imersão definitiva do professor no mundo das letras.

Vindo de Carlos Magno e os 12 Pares de França, passando pelo Tesouro da Juventude, com o tempo ele acaba juntando aos óculos do leitor a pena do escritor que, em 1959, muda a maneira de olhar para a nossa literatura, ao lançar Formação da Literatura Brasileira

Encerra-se a biografia com a imagem do professor aos 43 anos, em meio à plateia de um Congresso de Crítica e História Literária (Assis, 1961). Seguem-se páginas de um “Perfil do Arquivo”, traçado por Laura Escorel, que indica o mapa da mina: o arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP que recebeu o acervo de fotos e documentos do professor, a partir dos quais nasceu A Formação de Antonio Candido. Em suas últimas páginas, o livro transporta o leitor para o século 19, apresentando familiares do professor, alguns de barbas longas e gravatas-borboleta e algumas de fita e trança nos cabelos e roupas com babados. 

Da roupinha de marinheiro do menino de 8 anos ao terno e gravata do professor que participava do congresso em Assis, se tece uma vida, quando adulta, dedicada a entender (e explicar aos outros), através dos livros (os alheios que comenta e os que escreveu), o País e o mundo em que vivemos. Na foto do congresso, com a mão no queixo, o professor como que indaga para onde seguem a literatura e os estudos literários. 

Pois é: para onde? Nos livros dele, algumas pistas para respostas.

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