Clayton de Souza/Estadão e Alex Silva/Estadão
Clayton de Souza/Estadão e Alex Silva/Estadão

Antonio Candido e Boris Schnaiderman mantiveram amizade após orientação acadêmica

Professora Jerusa Pires Ferreira relembra os laços que ligaram dois grandes intelectuais brasileiros

Jerusa Pires Ferreira, Especial para O Estado de S. Paulo

14 Maio 2017 | 16h54

A  grande figura dos estudos russos no Brasil, pioneiro, competente e minucioso em seus trabalhos, sempre renovados aos 99 anos, Boris Schnaiderman ia fazer cem, agora mesmo, no dia 17 de Maio. Nasceu junto com a revolução russa.

Teria um destino singular no século em que viveu, experiências como a da imigração ao Brasil e da Segunda Guerra Mundial, onde esteve, na condição de voluntário, pracinha brasileiro na Itália. Engenheiro agrônomo, desde cedo tradutor e professor, homem  capaz de conduzir sozinho uma Enciclopédia, a Mirador da Jackson, ao ingressar no campo das Letras, decidiu fazer o seu doutoramento, que tinha um outro estatuto por aquela altura. 

E o fez sob a orientação de Antonio Candido que, diga-se de passagem, entre tantos e notáveis, também acolheu Jacó Guinsburg, Haroldo de Campos, Luiz Costa Lima, por exemplo. Generoso mestre, apostando no talento e respeitando a diversidade de posições teóricas.

Dele sabemos tantas qualidades, inclusive a de ser um dos maiores ensaístas da  língua portuguesa. Gracioso, narrador e intérprete.

Ao chegar em SP em 1977, admiradora e depois amiga de Candido, recebi de sua parte uma acolhida, junto com Gilda, naquele sobradinho do Itaim Bibi, e devo registar minha gratidão por tantos momentos, e sua participação em minha vida universitária e pessoal.

Foram muitas as sugestões suas, e pude assim ler tanta coisa! Por exemplo, o interesse pelos Phanchatantra, recolha de fábulas indianas, que partiu da apresentação que lhe fiz de um folheto de cordel. Ainda os textos e ensaios que sempre me indicava, como no caso do estudos fáusticos.

Candido e Boris tinham muitas afinidades: discretos, éticos , elegantes, precisos e firmes em suas posições, participação na vida política, resistência à ditadura. Criadores pioneiros de grupos, departamentos, linhas de atuação na Universidade de São Paulo e em outras Universidades.

Tinham visadas diferentes. O primeiro, mais clássico, estabelecendo como crítico um paradigma próprio, que se estenderia a alguns de seus discípulos e parceiros. O segundo, mais aberto às experimentações, à Semiótica russa que se impunha, tendo criado o curso de russo da USP e incentivado as primeiras traduções diretas no Brasil.

Passam-se muitos anos, e houve sempre uma constância nessa amizade. Tendo conhecido Boris em 1978, passei a viver com ele oito anos mais tarde, contando juntos com o convívio sempre agradável e renovador do mestre.

Foi assim que, em março de 2010, passamos a tarde em casa de Cândido, onde falamos sobre o Fausto, e procedendo a gravações, transcritas e ainda inéditas. Apresenta-se aí grande riqueza e uma graça extraordinária, típica do nosso herói em oralidade expressiva.

Mas, de repente, ao longo daquela tarde tão singular, surge um pacto solenemente feito pelos dois, o de cumprir e festejar os 100 anos, o que ocorreria em 17 de Maio de 1917 para o russo, em 24 de Julho de 1918 para o rio/mineiro. Foi ali alegremente celebrado, com grande empenho e reiteração.

Vem o Boris de volta para casa, entendeu que os 100 anos não andavam longe e, naquela noite, não consegue dormir. Ao amanhecer me comunica: "Vou ligar para Cândido agora, dizendo a ele que eu não quero apenas cem anos".

Tenho muitos projetos, desejos a cumprir, muito para fazer. Isso não me basta!

E o fez, convidando o outro para se repensar, romper aquele pacto em favor de um sequente, que fizesse possível novos compromissos. E, ao longo da conversa, ainda insistia com o amigo em leituras e conhecimentos, usando até o tom de um caminho proposto.

Nesses últimos anos, nunca deixamos de falar pelo telefone. Ou o mestre vinha à nossa casa para conversar e visitar, já que o Boris tinha adoecido gravemente, conseguindo depois livrar-se, com grande persistência e coragem. Sempre, de algum modo, atualizávamos nossos passos. Tínhamos o habito de nos cumprimentar nas grandes datas.

No entanto, malogrado o pacto! Que razões mágicas e inexplicáveis conjuraram, não o sabemos, para que a celebração não se cumprisse. Talvez porque , como nos diz Elomar, o bardo do Sertão, em seu dialeto catingueiro, pelos caminhos “a véa da foice  istava...”.

O fato é que não tivemos a alegria de comemorar os dois centenários, neste e no próximo ano. Resta-nos lamentar a perda de notáveis homens, que em sua agudeza, ensinamentos e  equilíbrio, trouxeram o legado de toda uma experiência do século XX, a dedicação de suas vidas e certamente nos ajudariam a melhor atravessar tempos turbulentos e ferozes. Permanece, no entanto, o desafio de percorrer a obra que deixaram , que se revitaliza a cada passo, e ainda as marcas vivas impressas em nossa fecunda cultura brasileira.

*Jerusa Pires Ferreira é doutora em ciências sociais pela USP e professora de pós-graduação em comunicação e semiótica na PUC-SP.

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