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Antologia discute as virtudes dos textos poéticos da Grécia Clássica

'Do Mito das Musas à Razão das Letras' é uma instigante reunião organizada por Roberto Acizelo de Souza

Luis S. Krausz, Especial para O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2014 | 03h00

Do Mito das Musas à Razão das Letras é uma antologia que discute a origem, a função e as virtudes dos textos poéticos, abrangendo um período que vai da Grécia Clássica até o século 18. É, como propõe seu organizador, um livro seminal, na medida em que os textos servem como portas de entrada para as galerias da reflexão sobre as artes do discurso na tradição do Ocidente. Seus 87 textos apresentam os conceitos fundamentais aos cânones literários, num panorama que parte das concepções míticas da linguagem poética, próprias da Grécia arcaica, e expressas por Homero, Hesíodo, Empédocles, Píndaro, Platão e Ovídio, para quem a verdadeira poesia decorre não das habilidades de um indivíduo, mas de uma espécie de possessão pela voz das Musas, responsáveis pela inspiração e pelo fluxo involuntário da palavra. 

Esta mesma linguagem inspirada, porém, passa a ser objeto de crítica dos filósofos na Grécia Clássica, e o valor do discurso poético acaba por ser reconhecido, em meio à realidade das repúblicas, pelo surgimento da retórica, que o instrumentaliza tendo em vista finalidades políticas. Dedicada às regras da composição, a segunda parte do livro começa com trechos da Retórica a Herênio, de autor anônimo, que estabelece regras da elocução necessárias ao bom desempenho do orador. As qualidades do discurso são enumeradas neste tratado que fala de tons, ornamentação e vícios, bem como de figuras de linguagem, partindo do pressuposto de que o fluxo da linguagem está sujeito ao controle voluntário do orador.

Sempre à sombra dos atenienses, vistos como os mestres incontestes em retórica, Cícero enuncia, em seu Orator, os métodos e preceitos desta arte considerada das mais difíceis, por não poder prescindir do conhecimento de múltiplos assuntos. O poeta, para ele, estaria perto do orador, pois o ofício de ambos é criar a persuasão. E, para aprender esta arte, o autor propõe exercícios, semelhantes àqueles com os quais os soldados se preparam para as batalhas. O bom discurso, portanto, está, para ele, diretamente atrelado às necessidades da vida institucional romana. Mas o irreverente Petrônio retoma as ideias arcaicas e defende a livre inspiração, reconhecendo no discurso poético um valor absoluto e afirmando que não cabe aos poetas competir com os historiadores. Quintiliano estabelece um catálogo de figuras de linguagem ainda atual, enquanto Geoffroy de Vinsauf, em sua Poetria Nova, de 1210, enuncia os princípios do culto à forma, como convém ao gosto medieval pelas cerimônias e rituais. Suas ideias sobre abreviação, amplificação e ornamentação, e sua incomum comparação entre a arte da literatura e as artes culinárias tornam suas teorias vívidas. Antonio Vieira, Dante Alighieri e Adam Smith são outros autores representados nesta seção. 

Os procedimentos crítico-analíticos são tema da terceira parte, que contém textos de clássicos como Aristófanes e Santo Agostinho. Do primeiro, temos a representação cômica de um certame entre Eurípides e Ésquilo, em que os talentos dos dois dramaturgos são postos à prova, diante de Dioniso, em meio à troca de insultos e de acusações, por meio das quais se revelam os critérios empregados no julgamento da qualidade das tragédias. Já Agostinho trata da interpretação das Escrituras, e parte do pressuposto de que há, em suas palavras, camadas de significados ocultos, sinais de outras coisas, o que é a base da exegese, sem a qual as alegorias, enigmas e parábolas do texto bíblico se perdem.

Outras seções do volume são dedicadas aos gêneros literários, à ordenação histórica da poesia e à reflexão filosófica. Há, por fim, uma breve seção em que autores do século 18, como Jonathan Swift, confrontam as ideias estéticas e a erudição de seus contemporâneos com as dos clássicos, acenando para rupturas no cânone e para a revolução estética do fim século 18. Os princípios da autoridade divina e do interesse público cedem, então, seu território à emancipação do sujeito. Com o triunfo das ideias românticas de autonomia da arte, a noção reguladora de imitação desaparece, proclamando-se a originalidade como requisito indispensável às manifestações artísticas. Daí surge um culto às letras de feições contemporâneas, independente de sua instrumentalização para fins políticos e religiosos. Se o termo literatura era, na tradição, aplicável à poesia, à filosofia, à historiografia e à dramaturgia, em sua acepção moderna ele pressupõe a autonomia da subjetividade. A arte, antes uma estrutura histórica, vista em meio a um quadro de referências eternas, destinadas a domesticar a genialidade ou ingenium, torna-se, então, território livre para a expressão e o desdobramento deste. 

O livro cumpre, assim, a função de despertar questionamentos e debates e é uma contribuição bem-vinda ao universo dos estudos literários, útil como obra de consulta e referência, e agradável pela qualidade das traduções que contém.

LUIS S. KRAUSZ É ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA NA USP

DO MITO DAS MUSAS À RAZÃO DAS LETRAS

Org.: Roberto Acizelo de Souza

Editora: Argos(1.071 págs., R$ 150)

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