‘Angola Janga’, graphic novel de Marcelo D’Salete, é um épico que refaz a trajetória de Palmares

Quadrinista e mestre em história da arte pela USP, o autor conta uma história do quilombo e a relaciona com o Brasil de hoje

Guilherme Sobota - O Estado de S. Paulo

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O segundo capítulo da graphic novel Angola Janga, de Marcelo D’Salete, mostra como um grupo de mercenários, provavelmente portugueses, parte para a Serra da Barriga, em 1655, “capturar calhambola de Palmares”. Eles encontram um grupo de escravos fugidos e, depois de uma das diversas cenas eletrizantes de batalhas que permeiam o livro, um bebê é encontrado e levado ao padre de Porto Calvo, cidade da Capitania de Pernambuco, nas cercanias. 15 anos depois, a criança foge para Palmares e ali se torna Zumbi.

A história do nascimento de Zumbi dos Palmares é ficção – mas o que D’Salete, quadrinista e mestre em história da arte pela USP, propõe é Uma História de Palmares, conforme o subtítulo do seu romance gráfico, que chega agora às livrarias pela Editora Veneta. Antecipado por fãs das HQs no Brasil, o livro está há 11 anos sendo trabalhado pelo artista, que nesse meio tempo lançou outras obras, e demandou uma pesquisa enorme que vai do Museu Afro Brasil, em São Paulo, ao Memorial de Palmares, em Alagoas.

Marcelo D'Salete. 'Cumbe', de 2014, foi publicado nos EUA pela Fantagraphics Books e recebeu elogios entusiasmados da crítica. 'Angola Janga' deve ser publicado na França e em Portugal em 2018 Foto: Rafael Arbex / Estadão

Com 432 páginas, o livro é um impressionante romance histórico calcado em fatos sobre o mais conhecido foco de resistência negra do Brasil colonial. “Esta não é ‘a’ história. Mas ‘uma’ história de Palmares”, esclarece o autor no posfácio. “Há documentos principalmente das últimas décadas da batalha. Essas fontes são de soldados, oficiais, senhores de engenho, governadores, padres etc. Enfim, pessoas comprometidas com a destruição de Palmares. Esta obra, por sua vez, pretende conduzir a narrativa a partir do olhar dos palmaristas. Para isso a ficção tem um papel significativo. É a partir dela que podemos transpor muros e acessar, pela poesia e arte, aqueles homens e mulheres.”

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A primeira notícia sobre Palmares surgiu no final do século 16, e a ocupação holandesa em Pernambuco, entre 1630 e 1654, propiciou condições para mais pessoas se deslocarem para Angola Janga (“pequena Angola”, na língua banto quimbundo, nome usado para se referir aos quilombos da região). A capital, o mocambo de Macaco, chegou a ter 6 mil habitantes (contra 8 mil de Recife, na mesma época), mas mais de 20 mil escravos fugidos moravam lá. O livro conta a história das últimas décadas da ocupação, até a morte de Zumbi e os conflitos finais.

“O Brasil de hoje tem muitas referências e vive a partir de uma sombra, um fantasma, que é a escravidão”, diz o autor, por telefone. “A escravidão existiu por mais de 3 séculos. Por exemplo, é incrível que o modo como tratamos o trabalho manual, muito desvalorizado, é relacionado com esse passado escravocrata. Isso é um exemplo de como um pensamento geral até hoje não consegue ver os grupos negros e indígenas como seres com plenos direitos e cidadania. Até hoje, o que temos é uma subcidadania, que se dá a partir da ideia estratificada de organização da sociedade. É racismo, que faz com que certos grupos não consigam acessar bens básicos, serviços públicos e muito menos espaços de poder.”

O livro não é o primeiro quadrinho a tratar do tema no Brasil, mas é sim um acontecimento no mercado de HQs. “Palmares acontece durante 100 anos, e os últimos 50 têm mais documentos”, diz D’Salete. “O que tentei fazer foi uma leitura muito pessoal, tentando trazer alguns conflitos que acrescentam complexidade à história, como o Acordo de Cucaú (a principal tentativa de acordo de paz entre os aquilombados e a Coroa), e a presença do Terço dos Henriques, grupo de soldados negros e mestiços que lutaram contra os holandeses e contra os palmaristas.”

O autor – que também é professor de artes plásticas no ensino básico em SP – explica que por muito tempo no Brasil as histórias contadas sobre as populações negras e indígenas partiram da perspectiva da casa grande, de autores brancos. “Hoje existe uma exigência para que esses grupos falem sobre sua história. Mas não é só falar… é também ter visibilidade. A nossa sociedade ignora sistematicamente essa produção. As pessoas estão tentando fazer parte do espaço político e da discussão sobre as obras. Lógico que elas se sentirão incomodadas se a obra desconsiderar a discussão de identidade.” Ele conclui: “é possível um autor não negro falar de história negra. O que não se pode fazer é substituir o discurso. A gente tem que valorizar e tentar compreender a fala desses grupos”.

ANGOLA JANGA – UMA HISTÓRIA DE PALMARES

Autor: Marcelo D’Salete

Editora: Veneta (432 p., R$89,90)

Imagens do livro 'Angola Janga', de Marcelo D'Salete; autor usa caneta nanquim, pincel com tinta acrílica e depois finaliza no computador Foto: Marcelo D'Salete/Editora Veneta

Imagens do livro 'Angola Janga', de Marcelo D'Salete; autor usa caneta nanquim, pincel com tinta acrílica e depois finaliza no computador Foto: Marcelo D'Salete/Editora Veneta

Imagens do livro 'Angola Janga', de Marcelo D'Salete; autor usa caneta nanquim, pincel com tinta acrílica e depois finaliza no computador Foto: Marcelo D'Salete/Editora Veneta

Imagens do livro 'Angola Janga', de Marcelo D'Salete; autor usa caneta nanquim, pincel com tinta acrílica e depois finaliza no computador Foto: Marcelo D'Salete/Editora Veneta

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