Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

André de Leones lança 'Eufrates', um elogio da amizade

Sexto romance do autor de 'Hoje Está um Dia Morto' e 'Terra de Casas Vazias' será lançado nesta terça, 11, na Blooks, em São Paulo

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2018 | 06h00

Moshe e Jonas são dois garotos comuns vivendo a vida. São diferentes – mas são, sobretudo, amigos. Em Eufrates, o novo romance de André de Leones, escritor revelado pelo Prêmio Sesc de Literatura em 2005 com Hoje Está Um Dia Morto, acompanhamos determinados momentos da trajetória dos dois, e de mais duas dezenas de personagens, por cidades como São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belém, Buenos Aires e Jerusalém entre 1991 e 2013.

A obra parte da amizade dos dois protagonistas e, com base na história deles, que é narrada em paralelo, o autor vai criando uma teia de relações familiares e afetivas. Começamos em São Paulo, lendo sobre o último encontro entre Moshe e sua mãe, que está voltando para casa, em Israel, depois de uns dias no Brasil com o novo marido. Somos informados das consequências que a separação da família teve sobre o pai, outro importante personagem de Eufrates, e o garoto. Seguimos a história com Jonas, num desencontro com a namorada em Buenos Aires. E continuamos acompanhando essas pessoas comuns, que vivem, sim, aqui e ali, fatos extraordinários e tragédias incontornáveis, mas que na maior parte do tempo estão às voltas com as ocorrências cotidianas, coisas com as quais temos de lidar, como, por exemplo, o rompimento, a mágoa, o perdão.

“Amizade é a palavra-chave do livro, e isso vem também do clima que vai ficando cada vez mais sufocante no País. Eu queria investigar se ainda pode haver alguma espécie de comunhão, de convivência saudável, entre pessoas próximas. Se elas ainda podem se apoiar umas nas outras”, explica Leones.

E essa questão nos leva a 2013, o período final da trama e um ano divisor de águas. “Os historiadores vão dizer, e não vai ser por agora com o caldo entornando, mas a impressão que tenho é que há um ponto de inflexão histórica em 2013 e estamos acompanhando as consequências, para o bem e para o mal, da radicalização dos espectros ideológicos.”

As manifestações daquele ano aparecem às margens da obra, com personagens comentando algo sobre elas. “Minha ideia é, sem ficar pontuando com traços muito fortes ou fazendo com que os personagens se posicionem, usar essas questões como pano de fundo e mostrar como era a atmosfera da época.” Mesmo quando há um diálogo mais político, entre Moshe e o pai, a discussão é sobre como o País se relaciona com seus cidadãos.

Leones, autor, também de Abaixo do Paraíso (2016), que se passa em Brasília e fala sobre corrupção, voltará aos personagens de Eufrates num futuro próximo e diz que questões políticas serão tratadas mais incisivamente – justamente pelo clima “pesado” do País.

“As pessoas estão nas redes sociais gritando essas grandes questões nacionais e universais, mas, às vezes, vale mais dar esse passo para trás, atentar para as coisas pequenas, antes de pensar nas coisas maiores. A vida já está tão degringolada domesticamente que não precisamos ficar por aí berrando a favor ou contra um candidato, um vizinho. Fixar nesses acontecimentos menores, entre aspas, da vida dos personagens também é uma forma de sublinhar o que é realmente importante na vida: a família, os amigos, você mesmo”, comenta. 

Leones completa: “Se você não tem uma constituição anímica sólida em relação a essas coisas, como vai ter em relação às questões sociais e políticas?”. 

Eufrates, o sexto romance do autor, que tem também um livro de contos, é, ele diz, a convergência de um projeto que começa com Como Desaparecer Completamente (2010) e segue com Terra de Casas Vazias (2013). Coincide neles, explica, a estruturação (o desenvolvimento de várias histórias que se desenrolam paralelamente e convergem em determinados momentos) e o tema (família, amizade).

Um livro, apesar dos pesares, otimista. “A minha intenção era dar a entender que se a gente cuidar de si e do outro ainda é possível ter uma convivência minimamente saudável, não obstante a turbulência que nos cerca. Que apesar da solidão bater às vezes, do desespero, da depressão, ainda é possível”, diz o autor que autografa o livro hoje, às 19h, na Blooks.

EUFRATES

Autor: André de Leones

Editora: José Olympio

(392 págs.; R$ 57,90)

Lançamento: Terça (11), às 19h, na Blooks (Rua Frei Caneca, 569)

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