REUTERS|Valentin Flauraud
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Análise: se Leonard Cohen tivesse ficado com a escrita, seria igualmente genial

Ele escolheu espraiar sua força criativa na música – mas o que esses dois livros provam é que se ele não tivesse escolhido ser o Bob Dylan de Montreal, hoje ele poderia ser o Philip Roth canadense

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2016 | 05h00

Quando Leonard Cohen era um jovem universitário e o rock ainda não existia, o jeito mais fácil – ou mais belo – de conquistar garotas era escrever poemas. A primeira carreira artística oficial de Cohen começou em março de 1954, quando ele publicou poemas em uma revista de Montreal. Em maio de 1956 (11 anos antes de seu primeiro álbum), ele lançou Let Us Compare Mythologies, uma reunião de 44 poemas. Influenciado pelo avô (rabino e escritor) e pelo trabalho de García Lorca, a sua obra inicial apresentava a mistura particular entre mitologia e hedonismo que seria uma de suas marcas.

Seu segundo livro de poemas, The Spice-Box of Earth, veio algumas peregrinações e cinco anos depois, em 1961, e teve reação crítica ainda mais positiva e os prêmios literários se tornaram rotina. Ele tinha 27.

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Dois anos depois, 1963, veio seu primeiro romance publicado: A Brincadeira Favorita (a Cosac Naify publicou no Brasil em 2011). E aqui podemos testemunhar como ele acerta bem no alvo: é um livro muito bem escrito, engraçado, com personagens ótimos e uma história – uma espécie de autobiografia ficcional – muito envolvente. 

Seu romance seguinte, o último até hoje, veio em 1966 com o brilhante título: Beautiful Losers. Ele aqui atingiu o seu ápice de construção literária barroca: avaliada 50 anos depois, a história permeada de criaturas míticas e muitas cenas de sexo é considerada a introdução do pós-modernismo na literatura canadense. Em 1967, Cohen lançou seu primeiro álbum e nos anos seguintes nenhuma outra ficção apareceu por aí. Ele escolheu espraiar sua força criativa na música – mas o que esses dois livros provam é que se ele não tivesse escolhido ser o Bob Dylan de Montreal, hoje ele poderia ser o Philip Roth canadense.

 

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