MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
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Análise: O poeta Ferreira Gullar, as crianças e o acaso que age

Ele escreveu livros para o público infantojuvenil; um de seus últimos títulos para os pequenos leitores foi ‘A menina Cláudia e o rinoceronte’

Dirce Waltrick do Amarante, Especial para O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2016 | 03h00

Ferreira Gullar não deixou as crianças de lado, dialogou com elas e escreveu livros para o público infantojuvenil, como Um gatinho chamado gatinho e Dr. Urubu e outras fábulas, além de poemas e letras de música, muitas delas musicadas e interpretadas por Adriana Partimpim (pseudônimo de Adriana Calcanhotto). Um de seus últimos títulos para os pequenos leitores foi A menina Cláudia e o rinoceronte (José Olympio, 2013), escrito e ilustrado pelo autor com recortes de papel colorido, cuja técnica ele já havia usado no seu livro de poemas Bananas podres (Casa da Palavra, 2011). 

O livro de 2013, uma ousada introdução à arte de vanguarda, começa assim: “A menina Cláudia de tanto brincar com restos de papéis coloridos que recortava inventou um rinoceronte. Mas não foi logo nem foi lógico. Foi por acaso”. Essa frase parece endossar a afirmação do escritor italiano Umberto Eco, segundo a qual “o mundo é um nó de possibilidades” e “a obra de arte deve reproduzir essa fisionomia”. Com a sua estrutura imprevisível e desordenada, os recortes da pequena Cláudia abrem um leque de possibilidades aleatórias, e é por isso que “num lance de sorte e vontade” nasce um rinoceronte de restos de papéis coloridos. 

A obra indeterminada da “artista”, entretanto, escapa ao seu controle e se modifica a seu bel prazer. Sem um nexo prefixado, o rinoceronte da menina muda de cor: o animal se torna “milagrosamente” preto, vermelho, verde, branco, então de repente (mais uma vez é o acaso que age) se vê “pronto”.

Se a estrutura da obra é imprevisível e desordenada, o número de possibilidades de criação de um objeto, originariamente indefinido, também aumenta. É justamente por faltar uma regra que preveja o desenvolvimento de sua obra numa determinada direção que, ao tentar refazer um rinoceronte, a menina Cláudia acaba “criando” uma série de outros animais. 

Entre um bicho e outro, a garotinha cria bichos inusitados e parece comprovar que, como afirma Umberto Eco, toda forma de arte, mesmo que adote as convenções da linguagem comum ou símbolos figurativos aceitos pela tradição, fundamenta seu valor justamente numa novidade de organização do material disponível. 

Muitos artistas hoje consagrados trabalharam com o acaso, ou lutaram em vão contra ele: Mallarmé, John Cage, Haroldo de Campos... Poder-se-ia comparar os recortes da menina Cláudia, por exemplo, ao primeiro traçado de um quadro do pintor norte-americano Jackson Pollock: “O primeiro traçado, tendo ocupado a tela arbitrariamente, a menos que tenha sido suscitado pela forma da tela, os traçados sucessivos reagem a um ritmo acelerado, numa coincidência perfeita da emoção, do gesto e do traçado”, como afirma Antoine Compagnon.

O primeiro rinoceronte da menina Cláudia nasce de “um lance de sorte”, que é seguido pela “vontade” de ir atrás desse impulso espontâneo. Poderia ser de Cláudia as palavras de Pollock: “Quando estou na minha pintura, não me dou conta do que faço. Somente após um período de ‘religação’ é que vejo onde estou.”

Umberto Eco lembra que a repetição no uso de determinado procedimento faz com que o processo adquira certa ordem – pois é dessa ordem, pode-se concluir, que surge um outro rinoceronte dos recortes de papel da pequena Cláudia.

 

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