EFE/Istvan Bajzat
EFE/Istvan Bajzat

Análise: O convite que Bob Dylan nos faz é imprescindível

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2016 tem obras-primas que estão 'encharcadas até os ossos' de inquietações profundas e perenes, que dizem respeito a qualquer um de nós

André de Leones, Especial para O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2016 | 11h30

Pode-se discutir tudo, a começar pelo valor propriamente literário das canções de Bob Dylan e a escolha de seu nome para o Nobel de Literatura – óbvio que não o premiaram por seu romance experimental Tarantula, publicado em 1971. Por outro lado, é inegável que composições como Subterranean Homesick Blues têm muito a dizer sobre as enrascadas em que ainda nos metemos, passados mais de cinquenta anos de seu lançamento. No momento em que os norte-americanos se veem obrigados a escolher entre uma arrivista e um trapaceiro para ocupar a Casa Branca, todos visualizamos Johnny no porão, “mixing up the medicine”.

Fato é que Dylan falava com a gente bem de perto em meados do século passado, e continua a fazê-lo no mundo pós-apocalíptico em que vivemos. Talvez isso se deva à aura de mistério que sempre houve ao redor dele – vejam No Direction Home, estupendo documentário dirigido por Martin Scorsese, ou Renaldo & Clara, filme enigmático (para dizer pouco) concebido pelo próprio Dylan e lançado em 1978. O que sabemos ao certo é que ele sempre recusou os rótulos que tentamos lhe impingir.

Em sua “fase” folk, era tido como a voz da geração que tomou os EUA de assalto, protestando contra o governo, a caretice, a Guerra do Vietnã etc. No entanto, e para a nossa sorte, obras-primas como Blowin’ in the Wind e Ballad of Hollis Brown estão “encharcadas até os ossos” não só daquelas inquietações pontuais, mas de outras, mais profundas e perenes, e que, portanto, dizem respeito a qualquer um de nós, em qualquer época, pois há sempre “uma batalha furiosa lá fora”, e só o que os tempos fazem é mudar. Aliás, para citar outro exemplo, poucos versos resumem tão bem o rolo compressor da História quanto os de The Times They Are A-Changing.

How does it feel?, Dylan (nos) pergunta em Like a Rolling Stone, canção que simboliza seu rompimento com o que se esperava dele até meados da década de 1960. De saco cheio de ser chamado de “cantor de protesto”, mandou o folk às favas, abraçou a guitarra elétrica e disse a que veio. Foi xingado de “traidor” e coisas piores, mas não estava nem aí. O que muitos não compreenderam então é que ele estava (e ainda está) numa busca tão particular – pela salvação, pelos limites expressivos do cancioneiro popular, pela dignidade metafísica do questionamento e do autoquestionamento – quanto idiossincrática, no decorrer da qual trata de queimar todas as pontes enquanto avança. E ainda nos convida a observar o fogo.

Em suma, pode-se discutir tudo, mas não a força desse convite que ele nos faz, tão bem exemplificado em Meet Me in the Morning, faixa do incontornável Blood on the Tracks: “Veja o sol afundando feito um navio”. É o típico convite de Bob Dylan: tão impraticável quanto imprescindível.

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