Christian Hartmann/Reuters
Christian Hartmann/Reuters

Análise: Nobel de Literatura Peter Handke tem obra marcada pela ousadia

Escritor austríaco tem romances, peças de teatro, contos e colaborações com Wim Wenders no cinema

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

10 de outubro de 2019 | 11h20

O escritor austríaco Peter Handke (1942), anunciado na manhã desta quinta-feira, 10, como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2019, escreveu romances, peças de teatro, contos, ensaios e roteiros cinematográficos. No cinema, seu roteiro Movimento em Falso foi dirigido pelo diretor alemão Wim Wenders, com quem estabeleceu sólida parceria. Mas ele mesmo foi diretor de cinema: em 1985, dirigiu A Doença da Morte. Outra faceta de Handke é a de tradutor, aliás, bastante prolífero. Essa carreira diversificada é marcada pela ousadia e experimentação.

 Muitos textos de Handke já foram traduzidos para o português. Seu romance A Perda da Imagem ou Através da Sierra de Gredos (Estação Liberdade, 2009), por exemplo, foi belamente traduzido por Simone Homem de Mello. Nele, vem à tona um escritor preocupado com as imagens: “Qual o efeito das imagens? Elas exaltam seu dia. Reforçam-lhe o presente”. Contudo, essas mesmas imagens são fugidias, como ele destaca: “A qualquer tentativa de detê-las ou observá-las com calma, elas se dispersavam imediatamente, uma interferência dessas também destruía, a posteriori, o efeito de imagem-átimo, que surgia e sumia de repente”.

“As imagens”, diz Handke, “estavam em extinção”. Ainda assim, ele as busca em toda sua obra, por isso, talvez, suas personagens tenham que deambular à procura delas. Personagens andarilhas estão, por exemplo, tanto em A Perda da Imagem quanto em A Tarde de um Escritor, que conta a história de um escritor que precisa peregrinar pela cidade e se perder nela para encontrar o fio de sua narrativa: “Mas esse temor de ficar parado, de não poder seguir [...], não esteve presente em toda a sua vida na hora de escrever e em todos os outros projetos: no amor, no estudo, em qualquer participação, ou seja, em tudo aquilo que requer persistência?”. A tarde de um escritor foi escrita depois de uma viagem a pé pela antiga Iugoslávia, nos anos 1980.

Em 1989, Handke publica Ensaio sobre o Cansaço, no qual o cansaço pode ser paralisante e assustador, já que estaria vinculado a um “sentimento de culpa”, e causaria sofrimento e deformaria as coisas, quando não a si mesmo.

No teatro, Handke abandou o ilusionismo. Acreditava que, “quanto maior fosse a artificialidade – feita de distanciamento e hermetismo – daquilo que se apresentava sobre o palco, mais o espectador poderia aplicar concreta, clara e racionalmente essas abstrações à sua situação real, exterior ao campo teatral”, como afirma Samir Signeu, que organizou e traduziu Peter Handke: Peças Faladas (Perspectiva).  

O Nobel de 2019 tem uma visão crítica do teatro. Para ele, é preciso transformar a cena para que o tédio não tome conta de todos: encenadores e público. Insulto ao Público, peça pioneira escrita na década de 1960, começa alertando os espectadores: “Vocês têm ideia do padrão do mundo do teatro. Vocês não precisam desse padrão agora. Vocês não estão assistindo a uma peça de teatro [...]. Vocês são o ponto focal. Vocês estão no fogo cruzado”.

Handke sempre viu na literatura uma forma de transformar o mundo, educando e conscientizando as pessoas.


 *Autora, entre outros, de Cenas do teatro moderno e contemporâneo (Iluminuras).

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