Brad Barket/Invision/AP
Brad Barket/Invision/AP

Análise: Nobel de Literatura Olga Tokarczuk retrata o mundo fragmentado pelas inquietações

Escritora polonesa aborda temas como esoterismo, questões históricas, ecológicas e feministas

Piotr Kilanowski, Especial para o Estado

10 de outubro de 2019 | 12h17

Embora se falasse na possibilidade de um prêmio Nobel ir para algum dos importantes escritores e poetas poloneses desde 1996, quando foi premiada a já conhecida poeta Wisława Szymborska, o comitê sueco não premiou Ryszard Kapuscinski nem Stanisław Lem nem o eterno candidato polonês Adam Zagajewski. Há apenas alguns anos, o nome de Olga Tokarczuk começou orbitar as especulações a respeito do prêmio e, depois do International Booker Man Prize recebido por ela no ano passado, as expectativas, que estavam no alto, foram atendidas. O comitê decidiu outorgar quinto prêmio para um escritor da língua polonesa. Depois de Sienkiewicz, Reymont, Miłosz e Szymborska, a nova laureada é Olga Tokarczuk.

A prosadora polonesa que, no Brasil, conta com apenas um título traduzido (Os Vagantes, Tinta Negra, 2014), nasceu em 1962. Graduada em psicologia, deixou de praticar a profissão quando seus primeiros livros conquistaram certo êxito, dedicando-se apenas ao trabalho de escrever. Até agora, publicou cerca de 20 obras entre romances, contos e ensaios. Seu primeiro livro, A Viagem das Pessoas do Livro, foi publicado em 1993 e contava a viagem em busca do misterioso Livro, que poderia mudar o curso da história e devolver a juventude, feita por um marquês alquimista e sua estranha comitiva: um banqueiro filantropo, uma cortesã, um cocheiro mudo e um cachorro amarelo. Logo na sequência, a escritora publicou E.E. (1995), sobre uma jovem que repentinamente ganha poderes paranormais e que, igualmente, desaparecem repentinamente.

O livro seguinte, O Primevo e Outros Tempos (1997), uma espécie de saga de duas famílias do interior polonês, que vivem a conturbada história do século 20 em um mundo recheado de elementos fantásticos e reflexões sobre a natureza do tempo, lhe trouxe o prêmio Nike dos leitores. Nike é o prêmio literário mais importante da Polônia, concedido pelos críticos, mas, um dia antes do anúncio oficial, é outorgado o prêmio dos leitores. A escritora reuniu seis nomeações ao prêmio principal, recebeu o laurel duas vezes, e cinco vezes foi a autora preferida pelos leitores. No livro publicado na sequência, A Casa Noturna, a Casa Diurna (1998), ela descreve uma mulher que, saindo da cidade grande, enfrenta a vida cotidiana num pequeno vilarejo interiorano polonês, repleto de histórias, mística e costumes locais.

Seus primeiros escritos reúnem elementos fantásticos (poderíamos falar em uma espécie de realismo fantástico) com uma reflexão sobre a conturbada história (principalmente polonesa), além da forte presença do olhar feminino. As protagonistas e heroínas do universo criado por Tokarczuk observam o mundo com sensibilidade e compreensão de mulher e atuam nele com força (por vezes, a força que parece proveniente de uma bruxa) e energia. Sentem necessidade de mudar o mundo para melhor, atuando social e misticamente contra os esquemas da dominação patriarcal.

O esoterismo, principalmente a astrologia, é um dos elementos que também aparece frequentemente em sua prosa. Por outro lado, as protagonistas de Tokarczuk estão fortemente ligadas a problemas ecológicos. Desde o início, a autora se sensibilizava com os problemas ecológicos e pregava vegetarianismo - quando o assunto nem estava em voga ainda. Um dos seus livros, que foi indicado ao Booker deste ano, Pelos Ossos dos Mortos (de 2009, que a Todavia lança no próximo mês), e adaptado ao cinema por Agnieszka Holland e Kasia Adamik (Pokot, 2017) tem como seu tema principal as questões ecológicas e feministas.

O mundo em movimento, em viagem, o mundo fragmentado pelas inquietações, tanto as criadas pelo mundo moderno, quanto as inerentes ao ser humano, é o tema de seu premiado livro Os Vagantes (2007). A construção atípica do livro, tecido de vários fios narrativos aparentemente não ligados, que se unem em um multicolorido tapete, coloca em voga os temas atuais e eternos, como a tentativa de imortalizar o ser humano ou de criar um compêndio de toda a experiência e ciência humanas ou ainda a necessidade que temos de permanecer em movimento. Isso faz com que o leitor seja obrigado a se defrontar com uma obra complexa e fascinante.

Um outro elemento presente em seus escritos é a História, mostrada a partir de sua complexidade. No premiado Livros do Jacó (2014) ela narra a pouco conhecida trajetória de Jakub Frank, místico judeu que se proclamou messias e criou uma seita herege de franquistas no seio do judaísmo. A história é narrada sob o colorido pano de fundo da Polônia do século 18, nos momentos finais da sua existência independente, e mostra um país multiétnico, complexo, muito diferente da visão idealizada da Polônia que a história oficial polonesa apregoa.

Essa tentativa de apresentar a Polônia histórica de um modo não maquiado, repleta de injustiças, desigualdades, violência e pobreza, assim como a denúncia da história polonesa como um fabricado que omitia e camuflava os pecados de colonização, violência contra as minorias ou a quase escravidão dos camponeses, denúncias que ela fez ao receber o seu segundo prêmio Nike em 2015 (o primeiro foi em 2008, por Os Vagantes), lhe rendeu uma onda de ódio na internet promovida pelos grupos direitistas. E, é claro, depois do ódio veio uma tentativa de ignorar sua importância. Há poucos dias, aliás, o ministro da cultura polonês pertencente ao partido governante de direita populista, PiS, ao ser indagado sobre Tokarczuk em contextos do prêmio Nobel, declarou não ter conseguido terminar de ler nenhum dos seus livros. Talvez o prêmio faça com que ele seja obrigado a tentar de novo.

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