Jonathan Nackstrand/AFP
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Análise: Na campanha antiassédio, a Academia Sueca foi mais rápida que a de Hollywood

Literatos liquidaram a questão em cinco meses, mas em 2018 não haverá apostas em Philip Roth, Adonis ou em algum rapper do Brooklyn

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

05 Maio 2018 | 06h00

Este ano, ninguém renovará suas apostas em Philip Roth ou no poeta sírio Adonis, nem se espantará com a entrega do galardão a um desconhecido poeta de Mali ou a um rapper do Brooklyn. A única discussão provocada pelo Nobel de Literatura de 2018 será a sua própria ausência – das bolsas de aposta e do noticiário. 

Das outras vezes em que o prêmio foi, como agora, guardado para o ano seguinte, ou havia uma guerra conturbando a Europa ou faltavam candidatos à altura do prêmio, na discutível avaliação da Academia Sueca. Desta feita, bastou um escândalo – envolvendo não um escritor, mas o marido tarado de uma integrante do comitê de seleção e premiação do Nobel, a poeta Katarina Frostenson. 

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Se restava alguma dúvida sobre as semelhanças entre o Nobel e o Oscar, os últimos desdobramentos da campanha antiassédio dissipou-a de vez. A Academia Sueca foi mais rápida que a de Hollywood: em cinco meses, liquidou a questão. A de Hollywood só na quinta-feira, 3, tomou uma atitude drástica em relação aos abusos sexuais há décadas praticados por alguns de seus mais priápicos varões, expulsando Harvey Weinstein, Bill Cosby e Roman Polanski

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Ninguém foi chutado da Academia Sueca. Os três que se demitiram o fizeram em protesto pela não expulsão de Frostenson (afinal seu marido também teria vazado informações sobre algumas premiações) e em solidariedade a Sara Danius, secretária permanente do comitê, a primeira a dar o alarme e o fora. Há três anos no cargo, Danius significou uma auspiciosa guinada na Academia, cenáculo secularmante patriarcal que agora, mais do que nunca, terá de ampliar sua cota de mulheres, que antes da crise já acusava um déficit expressivo. 

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