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Análise: Livro sobre Floriano Peixoto mostra um golpista visto pelo avesso e sua sombra moderna

Escritor José Luiz Passos conseguiu trazer o personagem clássico para o presente

O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2016 | 05h00

O que o alagoano Floriano Peixoto (1839-1895), marechal austero, mas fã de teatro, comandante-chefe próximo a D. Pedro II, mas republicano, tem a ver com a mineira Dilma Rousseff, presidente afastada do cargo por força do impeachment? O primeiro seria um golpista, que teria traído o monarca para ficar ao lado dos republicanos. A segunda, vítima de um golpe – mais um entre tantos –, seria a ovelha sacrificada no altar da República autoritária, como se conclui após a leitura de O Marechal de Costas, do premiado José Luiz Passos.

Nessa República de golpes e contragolpes, escrever mais um livro sobre Floriano, segundo a ocupar o cargo de presidente, não ajudaria muito a decifrar a enigmática figura de um militar obcecado que passou cinco anos lutando na guerra do Paraguai sem pedir licença e comandou seus homens – e o País – como um Átila, o flagelo dos monarquistas, distribuindo pranchadas em seus soldados e bofetões na sociedade civil.

Passos, então, trouxe seu personagem para o presente – é um marechal intercambiável – e fez de sua bisneta, cozinheira numa casa de classe média alta, uma mulher atenta às manifestações populares contra e a favor do governo Dilma, a terceira mulher a governar o País, como lembra o autor, citando a imperatriz Leopoldina e a princesa Isabel, que, ao contrário de Floriano, não pretendiam dirigir o Brasil à bala.

Idealizações à parte – há também nas mulheres um espírito bélico intolerável –, o fato é que a bisneta de Floriano é um contraponto que merecia melhor tratamento ficcional. A impressão é que se lê um romance feito em estado de emergência, sem tempo mesmo, construído de fragmentos. Floriano emerge como um onanista incestuoso que poderia ter saído das páginas de Lavoura Arcaica, um sexomaníaco que “via no Corcovado e na Serra dos Órgãos formas e volumes de mulher”. E também como um vice (do marechal Deodoro, primeiro presidente da República) pouco confiável.

Parece claro que a intenção é menos contar a vida de Floriano e mais a de analisar a vocação caimita dos brasileiros. Toda biografia, admite o próprio Passos no livro, “é como adivinhar pelas costas o rosto de alguém”. O de Floriano pode ser humanizado como o de um ingênuo Abel, mas, de costas, parece cada vez mais com Caim, o irmão traidor da Bíblia.

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