EFE/Daniel Deme
EFE/Daniel Deme

Análise: Kazuo Ishiguro faz literatura sutil sobre a memória

Prêmio Nobel de Literatura de 2017, escritor nipo-britânico é comparado a Kafka como um grande fabulador burocrático da ansiedade

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2017 | 09h05

A literatura de Kazuo Ishiguro é marcada por temas como morte e guerra. Mais que isso: ele busca mostrar como preservar a memória pode tanto trazer benefícios como malefícios. É o que norteia livros como Os Vestígios do Dia, Não Me Abandone Jamais (seus best-sellers) e seu mais recente lançamento, O Gigante Enterrado, que saiu em 2015. “Escrever é minha única forma de preservar a memória – não de uma forma científica, mas de como o homem consegue preservar sua dignidade ao longo dos tempos”, disse ele ao Estado, há dois anos

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É possível notar que todos seus romances são, na verdade, em parte sobre a volta do passado, o repúdio ao passado. E os efeitos que incidentalmente resultam desse repúdio. 

Para tratar de temas tão abertos e importantes para o homem, Ishiguro opta por personagens de pouca relevância social, como o mordomo de Os Vestígios do Dia, que chega ao fim da vida com a sensação de tê-la desperdiçado a serviço de um lorde inglês, ou os estudantes que são preparados para se tornar “doadores de órgãos” na vida adulta em Não Me Abandone Jamais, ou mesmo o casal de idosos que, ao decidir partir em busca do filho, não se lembra de suas feições tampouco de seu paradeiro, tema de O Gigante Enterrado.

“Nesse romance, questiono se essas lembranças não estão de fato enterradas e se elas, ao ressurgirem, não podem provocar um novo ciclo de violência. Isso leva a um novo dilema, pois não sabemos se é melhor provocar mesmo um conflito para então recomeçar ou se seria melhor manter essa memória enterrada e esquecida”, disse ainda Ishiguro.

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O que mais impressiona é a forma de linguagem adotada pelo escritor para narrar temas que, em outras mãos, beirariam o apocalipse – na maioria das vezes, Ishiguro se enquadra na tradição realista inglesa, em que a sutileza predomina mesmo na descrição de momentos cruéis da realidade, na maioria das vezes acobertados por eufemismos e subentendidos. Na verdade, o escritor nascido no Japão é igualado a Kafka como um grande fabulador burocrático da ansiedade, sua arquitetura imaginativa.

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