NECO VARELLA/ESTADÃO
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Análise: João Gilberto Noll percebeu cedo que o Brasil não superaria estruturas autoritárias

Para dar uma ideia da importância da obra que o gaúcho construiu, basta dizer que outro escritor que trilhou um caminho semelhante, vários anos depois, foi Roberto Bolaño

Ricardo Lisias, Especial para O Estado de S. Paulo

29 Março 2017 | 10h18

Morreu na madrugada desta qurta-feira, 29, o escritor gaúcho João Gilberto Noll. Autor de diversos romances e contos, chamou atenção desde a publicação do primeiro livro, O Cego e a Dançarina, em 1980. A reunião de contos apresenta o que seria uma constante em sua obra: personagens solitários e perdidos em meio à grande cidade, que os aprisiona e sufoca. A sexualidade, longe de ser um possível escape, funciona como outro mecanismo de opressão.

O Cego e a Dançarina é aberto pelo conto “Alguma coisa urgentemente”, em que Noll, ainda durante a ditadura, percebe o surgimento de uma geração abandonada, a dos filhos dos guerrilheiros mortos pelo Estado. À euforia que tomaria conta da década, o escritor já aponta a fragilidade das instituições, que se espelham nos laços muito fracos que suas personagens instalam com o mundo externo. O Rio de Janeiro para ele não tinha nada de terra do amor. Sobram pessoas sozinhas, gerações fraturadas e afetos sufocados. Não é exagero dizer que “Alguma coisa urgentemente” é o melhor conto da literatura brasileira publicado desde 1980. O texto também inspirou um ótimo filme, Nunca Fomos Tão Felizes, de Murilo Salles.

O livro seguinte, A Fúria do Corpo, traz uma personagem vagando pela cidade grande, procurando algum tipo de consolo para a falta de laços em relacionamentos físicos velozes, autodestrutivos e no mais das vezes despidos de qualquer afeto. O corpo, que talvez pudesse funcionar como último refúgio, é basicamente o veículo da opressão que as pessoas sentiam em meio a uma sociedade que não lhes oferecia nada, a não ser motivos de fuga.

Ainda nos anos 1980 sairiam Bandoleiros, Hotel Atlântico e Rastros de Verão, em que o escritor continuava o projeto de construir personagens frágeis e desoladas, perdendo-se em qualquer recanto em que se colocassem. A linguagem, sempre tensa e ambígua, variava entre a crueza do abandono e a tentativa de certo lirismo cheio de desolação.

A literatura brasileira dos anos do fim da ditadura dividiu-se em algumas linhas: de um lado, textos memorialísticos como O Que É Isso, Companheiro? e Os Carbonários; de outro, toma força o realismo cru, misturado a certa matriz do romance policial, impulsionado sobretudo por Rubem Fonseca; há ainda um terceiro grupo que se volta para o intimismo das personagens, colocando-as em confronto com a sociedade. Nesse último caso, os dois melhores são Sergio Sant’Anna e João Gilberto Noll.

A opção estética de Noll tem uma sutileza: personagens fracas se opõem a uma sociedade que simula certa força nas instituições para esconder apenas a matriz violenta que as sustenta. Se notarmos que a obra começa a partir dos anos 1980, justamente os que marcariam a redemocratização, fica claro que o escritor muito cedo mostra em seus textos que a reconstrução democrática que o Brasil ensaiaria fazer não teria a menor consistência. João Gilberto Noll percebeu que o Brasil não conseguiria superar as principais estruturas autoritárias ainda antes que a ditadura acabasse. Para dar uma ideia da importância da obra que construiu, basta dizer que outro escritor que trilhou esse mesmo caminho, mas vários anos depois, foi Roberto Bolaño.

RICARDO LÍSIAS É ESCRITOR, AUTOR DE, ENTRE OUTROS ROMANCES, 'A VISTA PARTICULAR'

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