Acervo Hilda Hilst/Divulgação
Acervo Hilda Hilst/Divulgação

Análise: Hilda Hilst parece mais viva do que muitos poetas vivos

Escritora não se iludia a respeito da brutalidade das palavras e foi contra a estupidez e o escárnio que sempre escreveu

José Castello, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 Abril 2017 | 05h00

Se queremos saber o que é a poesia, nada melhor do que dar atenção à voz dos próprios poetas: “Porque imperfeito és carne e perecível/ E o que eu desejo é luz e imaterial”, responde Hilda Hilst no canto II de Da Noite, um dos livros incluídos em Do Desejo, de 1992. Muitos se perguntam a razão do crescente sucesso da poesia de Hilda, que se expande desde sua morte, em 2004, em um percurso paralelo à difusão da internet. Pois a resposta está aí. Esses dois frágeis, mas belos, versos nos trazem uma pista importante: o objeto que nos atrai, e que ao mesmo tempo nos escapa, é o impalpável de que fala Hilda. Não o que não existe, mas o que está ali e, no entanto, não se pode tocar. Tudo o que fica além da matéria, mas, apesar disso, constitui o presente também.

Por isso, quase 13 anos após sua morte, Hilda, tantas vezes, parece mais viva do que muitos poetas vivos. Nos tempos cada vez mais instáveis e tormentosos em que vivemos, quando a matéria - desmascarada, desnudada, obscena - se inflama até o risco de uma explosão, a poesia de Hilda nos traz, sem nenhuma veleidade religiosa, e também sem nenhuma piedade, tudo aquilo que, além do real bruto, pode vir depois. Assim também, ela nos diz, é o desejo: há sempre algo além do desejo, algo a que chamamos o Outro; o desejo sozinho não basta. Essa distância lhe dá, às vezes, uma aparência dissimulada. Como se a poeta fugisse do real quando, ao contrário, nele mergulha. Parece uma loucura, mas é poesia.

“Para pensar o Outro, eu deliro ou versejo”, Hilda escreve no canto final de Do Desejo. Com essas palavras fortes, ela equipara a poesia à insensatez, erguendo as palavras, assim, à condição de vórtice. Alguns leitores, mais desconfiados e mais rasos, sempre a acusaram de, com seus escritos, transformar a poesia em uma mística. Daí o estigma de absurda e imprudente que sempre envolveu sua imagem - da mulher que falava com os mortos através de ondas de rádio, que venerava figueiras centenárias e que vivia às turras com o fantasma do pai psicótico. No quinto canto do Cantares, de 1995, porém, a poeta se defende: “O Nunca Mais não é verdade./ Há ilusões e assomos, há repentes/ de perpetuar a Duração”. Em outras palavras: o Além Daqui está aqui.

Conheceu, bem de perto, o desprezo, as acusações secretas, a delação (hoje tristemente consagrada). Julgava-se, não sem razão, incompreendida. Não se iludia a respeito da brutalidade das palavras e foi contra a estupidez e o escárnio que sempre escreveu. Já no canto X dos Poemas aos Homens do Nosso Tempo, de 1974, podemos ler as palavras que, mais do que nunca, hoje nos servem: “Amada vida;/ que esta garra de ferro/ Imensa/ Que apunhala a palavra/ Se afaste/ Da boca dos poetas”. Legou-nos uma poesia que se oferece como antídoto a tudo o que é animalesco e brutal. Uma poesia que, em tempos tão dolorosos, por isso mesmo, se engrandece. Poesia que - imitando as feiticeiras - encontra no próprio mundo o seu Mais Além. No canto VIII dos Poemas Malditos, Gozosos e Devotos, ela, ciente do risco de sua aposta, anuncia: “É neste mundo que te quero sentir./ É o único que sei”.

* JOSÉ CASTELLO É ESCRITOR, JORNALISTA E CRÍTICO LITERÁRIO, AUTOR DE 'RIBAMAR' E 'O INVENTÁRIO DAS SOMBRAS', ENTRE OUTROS

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