Jonne Roriz/Estadão
Jonne Roriz/Estadão

Análise: 'Grande Sertão: Veredas' continua tão moderno como outro clássico nacional, 'Os Sertões'

Trata-se de uma escrita comprometida com a atualidade

Silviano Santiago, ESPECIAL PARA O ESTADO

18 de novembro de 2017 | 06h03

O francês Roland Barthes e o italiano Giorgio Agamben se encontram em definição de caráter histórico e filosófico que explica a magia atemporal do romance Grande Sertão: Veredas e ainda salienta seu significado inesgotável. Barthes e Agamben sustentam que “o contemporâneo é o inatual”. No Brasil a vibrar com a construção de Brasília no planalto central e, posteriormente, com a abertura da Transamazônica em plena selva, nada mais inatual artística e socialmente e, no entanto, mais contemporâneo, que o monstruoso romance escrito por Guimarães Rosa em meados do século 20 e publicado em 1956.

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Recordemos a década de 1950. João Cabral de Melo Neto tinha anunciado o credo minimalista dos anos 1950. Poetar com 20 palavras, sempre as mesmas. Os irmãos Campos e Décio Pignatari reduzem o verso e até o poema a uma única palavra. A primeira Bienal de São Paulo (1954) abole a figura humana e favorece como atual o abstracionismo geométrico da escultura de Max Bill e da tela de Ivan Serpa. As rádios adotam o singelo, doce e nostálgico balanço da bossa-nova, tão cool quanto o jazz moderno que o vocábulo inglês qualifica tão bem. Lembram “do barquinho a deslizar no macio azul do mar” (Roberto Menescal)? Os exemplos se sucedem e todos desautorizam o atrevido e descomunal Grande Sertão: Veredas como modelo da temática e escrita comprometidas com a atualidade brasileira em plena modernização cosmopolita.

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O romance é incompreendido. Faltam-lhe leitores. O monstro não se entrega sem as transgressões e asperezas estilísticas da vida cotidiana num enclave perdido no Alto do São Francisco. Incomoda e não seduz. Numa série de entrevistas curtas publicadas na revista Leitura, romancistas e poetas destacados se reúnem para falar mal. A matéria ganha título explícito e demolidor: “Escritores que não conseguem ler Grande Sertão: Veredas”. Autor do originalíssimo A Luta Corporal, Ferreira Gullar declara: “Li 70 páginas do Grande Sertão: Veredas. Não pude ir adiante. A essa altura, o livro começou a parecer-me uma história de cangaço contada para os linguistas”.

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Compete a uma jovem e já notável geração de críticos literários, com destaque para Antonio Candido, assumir a tarefa de demonstrar o valor e o significado do romance. Apesar da inatualidade do texto ficcional de Rosa, eles se entusiasmam com o ineditismo da sua prosa e se entregam ao trabalho de amansar o bicho selvagem para o leitor. Há que torná-lo palatável ao gosto dos mestres romancistas e do leitor comum. Por que não inseri-lo numa tradição de épicos brasileiros que facilitaria a compreensão do texto e interesse pela trama, evidenciando, ainda que de modo ligeiramente falso, sua atualidade? Gera-se um consenso.

Grande Sertão: Veredas é tão moderno e atual quanto Os Sertões, de Euclides da Cunha. Os grandes críticos presentes no pioneiro número 8 da revista Diálogo saem de mãos dadas: ainda que inatual, o romance de Rosa é, no entanto, tão genial quanto a obra-prima de Euclides. Assassina-se a letra; salva-se o espírito?

Constitui-se uma tradição de leitura do Grande Sertão: Veredas que hoje nos incomoda e perturba. Haja vista o recente espetáculo apresentado no Sesc de São Paulo, dirigido por Bia Lessa. A qualidade selvagem do romance - sua wilderness - tinha sido domesticada. É ela, no entanto, que agiganta a originalidade de Grande Sertão: Veredas na América Latina e na literatura ocidental. Desdomesticá-la, eis a nova proposta. A fatura do romance de Rosa não é histórica nem simbólica. Pouco ou nada tem a ver com os fatos que levam a história do Brasil a transitar do período monárquico ao republicano pela dramatização da revolta dos conselheiristas na Bahia. Não há data no romance. Riobaldo não menciona uma só vez o nome da capital federal.

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A fatura do romance é alegórica e paradoxal. Quando é que quisemos ser modernos e terminamos por gerar regiões mais atrasadas do que as mais atrasadas? Desde sempre. Ou melhor, na história da nação brasileira, é assim que os administradores agem de maneira intermitente. Os governos dialogam com a história social e econômica da nação, despreocupando-se com o destino dos menos favorecidos. Somos fantásticos na construção civil e desastrados no planejamento habitacional das cidades. Gestamos enclaves selvagens.

No período pós-escravidão africana, quisemos ser modernos na construção da Avenida Central, no Rio de Janeiro, e erigimos as favelas nos morros da capital federal. Em tempos de Vidas Secas (refiro-me aos candangos), quisemos construir nova e moderníssima capital federal e deixamos ao lado, no Alto do São Francisco, um enclave onde a anarquia feroz dos jagunços se assemelha à encontrada hoje nas penitenciárias das metrópoles. Em tempos de Carandiru, quisemos armar sistema de controle de enclaves, afinado com o moderno saber das ciências sociais, e nos tornamos tão ou mais irascíveis que Zé Bebelo.

Modernizamos e segregamos. Afirma Agamben que ser contemporâneo não é ser atual. O contemporâneo é aquele que se descola das luzes do presente em que vive para perceber o escuro da realidade em que vivemos todos. O artista contemporâneo neutraliza as luzes sedutoras que norteiam sua época para enxergar as trevas, de que são inseparáveis. Só é contemporâneo quem recebe no rosto o facho de trevas - e não de luzes - que provém do seu tempo. Recebe o facho de trevas no rosto e, no entanto, enxerga. Escreve o romance Grande Sertão: Veredas.

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