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Análise: Com 'Patafísica', Alfred Jarry criou a maior de todas as ciências

o sincretismo religioso dá lugar de destaque a esses dois credos: o teatro e a ‘patafísica

Aderbal Freire-Filho, ESPECIAL PARA O ESTADO

14 Janeiro 2017 | 04h00

Esse maluco do Jarry é um precursor x-tudo no carrinho de sanduíches das vanguardas do século 20. Os surrealistas, os dadaístas, esse pessoal do Oulipo, como Perec e Queneau, e até os ciclistas paulistas vieram na onda dele. 

Rachilde, nome de guerra (literária) de Marguerite Vallette-Eymery, escreveu uma biografia do cara, que intitulou de Alfred Jarry, o Supermacho de Letras (Alfred Jarry, le surmâle de lettres). O que ela quis dizer com isso? Não sou eu quem pergunta, mas Paul Gayot, autor inclusive de uma Antologia Patafísica. Para citar sua resposta, temos que entrar em um campo minado nos dias “transgenéricos” de hoje. Ele lembra que a própria Rachilde se identificava como “homem de letras” e chamando assim a Jarry - “supermacho de letras” - quis certamente destacar o excesso na sua condição de escritor, um super-homem de letras. Atribuía a Jarry o poder que ele próprio atribui ao protagonista do seu romance O Supermacho, isto é, de ir “além das forças humanas”. 

Peço licença para continuar nesse campo minado nos dias transgenéricos (viva!) de hoje e poder usar a expressão que mais cabe para o que quero dizer. Isto é, se cheguei botando banca com um monte de citações foi porque quero mesmo é ganhar o direito de falar dos meus gostos (literários, digo). 

Dos personagens excessivos/exagerados de Jarry, o meu predileto não é esse André Marcueil, o supermacho do romance, nem mesmo o extraordinário Rei Ubu, que tinha tudo para ser: além de ser sua mais conhecida e reconhecida criação, é rei no meu terreiro, o teatro.

Mas não posso deixar de louvar e colocar acima de todos os seus semelhantes e dessemelhantes o criador da maior de todas as ciências, isto é, o criador da ‘patafísica, o ilustre dr. Faustroll. Como está dito no romance neocientífico Gestas e Opiniões do dr. Faustroll, Patafísico, o doutor nasceu no Cáucaso, com 63 anos, idade que conservou por toda sua vida. Podia admirá-lo por tantas proezas, como sua viagem de Paris a Paris por mar; por sua amizade com o macaco Giba-de-Natica (Bosse-de-Nage); por descobrir as muitas significações das únicas palavras que compunham o sucinto discurso desse macaco, isto é, “ha-ha”; por muito mais. 

Mas nada pode se comparar na grandeza de Faustroll à criação da ‘patafísica (a ortografia real é precedida de apóstrofe). A ‘patafísica, segundo seu criador, está para a metafísica, assim como a metafísica está para a física. Faustroll nos dá ao menos duas definições que a sintetizam: a ‘patafísica é a ciência das exceções e a ‘patafísica é a ciência das soluções imaginárias. Nas suas palavras: “A ‘patafísica será sobretudo a ciência do particular, conquanto se diga que não haja ciência senão do geral”; e “a ‘patafísica é a ciência das soluções imaginárias, que concede simbolicamente aos lineamentos as propriedades dos objetos descritos por sua virtualidade”.

Meu sincretismo religioso dá lugar de destaque a esses dois credos: o teatro e a ‘patafísica. Aqui meu assunto era a ‘patafísica. Introduzi, introduzi, introduzi... e não falei dela tanto quanto devia. Patafísica pura! Posso me justificar, ainda no campo das metáforas sexuais (introduzi, introduzi...): as preliminares, as preliminares. 

Finalmente, em tempos que muitas vezes misturam política e religião e, apesar disso, tempos de “pô café!”, posso ao menos acreditar que, no Brasil de hoje, só a ‘patafísica pode nos salvar.

* ADERBAL FREIRE-FILHO É HOMEM DE TEATRO E APRESENTA NA TV BRASIL UM ANTIPROGRAMA PATAFÍSICO DE TELEVISÃO

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