ROBERT SCHWENCK / DIVULGAÇÃO
ROBERT SCHWENCK / DIVULGAÇÃO

Análise: Chico Buarque é bem mais do que 'o homem que enxerga a alma feminina'

Vencedor do Prêmio Camões, primeiro nome da música a ganhar a maior honraria literária dos países de língua portuguesa não pode ser reduzido a apenas uma de suas facetas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2019 | 19h30

O Chico dos livros não é e nem poderia ser o Chico das canções. Ambos são tão fluidos e artesãos quanto, mas algo como dois terços de seu reconhecimento pelo Camões certamente referem-se ao segundo. O Chico dos livros escreve sem os mesmos desafios de ritmo e divisão que tanto lhe atraem nas canções. O texto solto, livre das amarras da forma e das rimas que o fazem gênio mas que sempre serão amarras, estende-se pelas páginas refletindo agora a ideia e não mais os moldes definidos por agrupamentos de sílabas e acentos tônicos.

“Lembro-me bem do nosso último fim de tarde no sítio, cinco anos atrás, ele sentado ali mesmo, já meio grogue, com a fala cremosa”, narra em Estorvo. “O ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa”, diz em Leite Derramado.

O Chico da música é reduzido sempre que seu reconhecimento se resume ao “homem que sabe entender a alma feminina como ninguém.” Cronista forjado nas carteiras de Noel Rosa, é também o homem nascido em mantas de seda que escreve na pele do trabalhador braçal, o urbano de asfaltos bem tratados que assume a verdade dos morros, o velho que se apaixona como os jovens e aquele que, quando jovem, pensava no tempo dos anciãos. O branco, o negro e o mestiço que só não consegue pensar no registro daqueles que não acreditam na liberdade dos pensamentos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.