Acervo Estadão
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Análise: Carolina Maria de Jesus, uma bricoleur na literatura brasileira

Sua obra esta eivada de ligações que revelam sua poética de resíduos enquanto uma aglomeração de discursos como recurso de uma escrita que visa catalogar tudo que leu e viveu

Raffaella Fernandez*, Especial para o Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

A máquina literária da escritora Carolina Maria de Jesus se ergue de sob os escombros de um lirismo beletrista, que considera o belo como o próprio da arte, assim como o fazem os sambistas; recordemos que ela também era uma compositora de sambas, fazia parte dessa fração do povo que produz arte nas franjas da sociedade e, através dela, expressa sua condição social. Aquilo que, muitas vezes, é denominado “estética da fome”, “literatura marginal” ou “literatura periférica”, pode ser entendido como uma poética de resíduos, uma reciclagem literária ao modo de um bricoleur que vai colando, no seu texto, pedaços de discursos literários diversos, procurando uma aproximação com essa clássica, linguagem entendida como “arma” crítica, ela vai colando retalhos de dicursos e de formas de escrita e oralidades em sua escrita. Na sequência dos versos, ela comenta uma série de leituras, anotando junto com poemas dedicados a Maupassant, Casimiro de Abreu, Edgar Allan Poe, Machado de Assis, Camões, Gonçalves Dias, Tomás Antônio Gonzaga, Cervantes, Berardo Guimarães, Euclides da Cunha, Camilo Castelo Branco, Victor Hugo, Harriet Beecher Stowe, entre outros.

Sua obra está eivada de ligações que revelam sua poética de resíduos enquanto uma aglomeração de discursos como recurso de uma escrita que visa catalogar tudo que leu e viveu. Carolina de Jesus tem como eixo a bricolage que, desde As Nascentes de Levi-Strauss e depois, vem sendo transposta; e a bricolagem como uma apropriação que se move na maior liberdade porque conserva, transfere e muda campos. Ao analisar Macunaíma, Gilda de Mello Souza observa que esta obra não foi construída a partir da mimesis, e sim “a partir da combinação de uma infinidade de textos pré-existentes, elaborados pela tradição oral ou escrita, popular ou erudita, européia ou brasileira”. O mesmo podemos observar entre o bricoleur de Levi-Strauss e o processo de criação de Carolina de Jesus. A literatura de Carolina de Jesus é uma literatura entre discursos, literaturas e oralidades em sua composição de cárater repetitivo e acumulativo.

Seu legado literário, composto por mais de cinco mil páginas manuscritas e datilocritas, é uma avalanche de papéis desmembrados de seu espólio, e ainda está por se compreender sua dinâmica, seu modus operandi. A bricoleur Carolina de Jesus recolhe e mobiliza seus recursos com aparente objetivo de revelar as dicotomias da sociedade, sobretudo, em relação ao meio rural e meio urbano, ao racismo estrutural e às desigualdades sociais. Esses temas estão presentes nos diversos gêneros literários experimentados por ela, seja nos romances, peças teatrais, poemas, diários, cartas, composições musicais ou provérbios. Uma alquimia muitas vezes venenosa para a crítica de linhagem mais tradicionalista, que privilegia os ditames do cânone, ou um antídoto entusiástico para as aberturas críticas, sobretudo os estudos pós-coloniais, de gênero ou raciais. E para todos aqueles que reduziram sua escrita a subliteratura, Carolina de Jesus deixou o seguinte recado poético:

"Os pássaros cantam na linguagem certa, na linguagem correta e sincera que a própria Mãe Natureza lhes deu; falar é bonito quando se fala certo. A linguagem só tem valor quando se trata de nominações estranhas. Digo estranhas para voces mas não para nos esquecer os dissabores é o nosso dever, pois, nos consideramos isto como uma estrada em que viajamos e se estamos chegando no local designado, não vejo motivo para lembrar e comentar no trecho da estrada ruim."

Apesar de todo seu esforço literário Dona Carolina de Jesus e sua escrita somente vêm recebendo seu devido cuidado e respeito na atualidade com o advento da entrada das camadas populares e negras nas universidades, com o reconhecimento da literatura inventanda por mulheres negras e com o avanço dos estudos da crítica genética e da crítica textual voltados para sua obra.

*Raffaella Fernandez é doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp e pesquisa a obra de Carolina Maria de Jesus há cerca de 20 anos

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