Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Análise: Antonio Candido, o crítico desarmado

No caso de Antonio Candido, morto aos 98, a mestria se define não pelo saber acumulado, mas por aquilo que Barthes chamou de Sapientia: “nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria”

José Castello, Especial para O Estado de S. Paulo

12 Maio 2017 | 13h58

Ainda atordoado pela notícia da morte de Antonio Candido, vasculho minha biblioteca em busca de uma plataforma de observação, desde onde possa espreitar o grande mestre, sem o consolo nefasto dos clichês.

Esbarro, então, na célebre “Aula”, que Roland Barthes proferiu em janeiro de 1977, e, em particular, em uma preciosa idéia guardada em seu fecho. “Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe”.

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Leio as palavras de Barthes e, de imediato, vejo Candido de corpo inteiro. Não só um professor bem equipado, um teórico rigoroso, um técnico, como a maior parte dos mestres de hoje. Não um grande manobrista do saber, mas, ao contrário, alguém que via o conhecimento como um “desaprender” - de nossos preconceitos, de nossas convicções e tolices. Numa palavra: como uma aventura. No caso de Antonio Candido, a mestria se define não pelo saber acumulado, mas por aquilo que Barthes chamou de Sapientia: “nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria”.

Também pudera: para Candido – fundador histórico do Partido dos Trabalhadores -, a literatura esteve sempre atada ao real. Impossível pensar a literatura sem levar em conta os fatores concretos que a geram. Inútil tentar ler sem considerar o mundo em que se lê. Já em um dos capítulos de “O discurso e a cidade”, de 1993, ele nos adverte: “Hoje está na moda dizer que uma obra literária é constituída mais a partir de outras obras, que a precederam do que em função de estímulos diretos da realidade, pessoal, social, ou física”. Contra as teorias da moda, a Sapientia. Sim, porque a realidade – que é móvel, inconstante, complexa – exige sabedoria e paciência, exige abnegação e desapego, ou não se deixa fisgar.

Em seu célebre ensaio sobre Graciliano Ramos, Ficção e confissão, de 1992, Candido nos fornece uma chave para ler sua própria obra. Escreve: “Para ler Graciliano Ramos, talvez convenha ao leitor aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas e, principiada na narração de costumes, termina pela confissão das mais vívidas emoções pessoais”. Algumas idéias aqui devem ser preservadas: a literatura como uma aventura; o desenrolar interminável da ficção sobre a História; não só história social, mas também a história pessoal. Em resumo: o laço fatal que une literatura e existência.

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Antonio Candido foi um crítico engajado não só porque militou, com coragem, na vida política, mas também porque encarava a literatura como um instrumento de interrogação da realidade. Não apenas da “grande realidade” – a que aparece nos jogos do poder e nas lutas sociais -, mas também da “pequena realidade” pessoal que, ele nos dizia, está intimamente ligada à nossa relação com a escrita. Em um dos textos guardados em “O albatroz e o chinês”, de 2010, ele propõe a seus colegas de crítica que não se limitem ao salão das grandes idéias, mas que visitem também os “arrabaldes” da escrita. E, talvez para surpresa daqueles que costumam confundir engajamento com despersonalização, ele escreve: “Um capítulo vivo da periferia da crítica seria o que registrasse com o devido senso de oportunidade a história da nossa experiência afetiva com as obras”. 

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Entre os livros que lemos, reflete o mestre, alguns se integram com mais força a nossas vidas, “muitas vezes de maneira desproporcional em relação a sua qualidade”. Portanto: não basta um livro ser bom, é preciso que ele nos afete e contamine, que ele nos sacuda. Muito além dos recursos teóricos, existem fatores afetivos e circunstâncias existenciais que definem o que é a literatura para cada um de nós. Candido sempre defendeu o esforço da precisão histórica. Nem por isso deixou de considerar que esse esforço é, muitas vezes, inútil. Falando da poesia do francês François Villon, que nunca parou de ler, ele nos diz: “O decisivo é o nervo do poema”. No caso de Villon – a respeito de quem não se sabe, sequer, se ele foi mesmo o autor da obra que lhe atribuímos – todo esforço de precisão é, em resumo, uma traição. Defendia Candido, assim, numa época em que os críticos se armam de aparatos teóricos até os dentes, uma crítica desarmada, pronta para a surpresa e para o susto, e que nunca descarte os movimentos da vida.        

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