Acervo Estadão
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Análise: Antonio Candido era um ser de exceção

Crítico criou o 'Suplemento Literário' de 'O Estado de S. Paulo', em 1956, o paradigma dos cadernos culturais do Brasil

Elizabeth Lorenzotti, Especial para O Estado de S. Paulo

12 Maio 2017 | 10h25

É como se eu o visse, magro e elegante como sempre, com seu passo rápido, entrando na grande sala que era a redação do Suplemento Literário - um espaço autônomo dentro da própria redação de O Estado de S. Paulo - criado por ele em 1956.

Eu, que tenho saudades de algumas coisas que não vivi, gostaria de tê-lo conhecido naquela época, e aos seus eternos amigos, e de ter colaborado naquele que se tornou o paradigma dos cadernos culturais do país.

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Antonio Candido não frequentava muito a redação do suplemento que criou e entregou nas mãos competentes de Décio de Almeida Prado, a quem qualificava como “ser de exceção”, pelo exemplo de integridade e coerência.

A reação já havia se mudado para a Rua Major Quedinho, centro de São Paulo, ali pertinho da Biblioteca Municipal, do MASP, na Sete de Abril, da livraria Jaraguá- onde havia um canto de conversa e uma sala de chá ao fundo. Esses eram alguns dos pontos de encontro de intelectuais, artistas, jornalistas nas décadas de 40, 50, 60.  

A redação do Suplemento também era um centro animado de discussões. E o Suplemento, um veículo transmissor de ideias, um intermediário, um mediador cultural que teve importante papel na reflexão e na difusão da crítica cultural da cidade e do País. 

Tudo começou, entretanto, quando um grupo de estudantes da USP, a novíssima universidade, a convite de Alfredo Mesquita, escritor e dramaturgo, criou a revista de cultura Clima, em 1941, plena Segunda Guerra Mundial, plena ditadura Vargas.

ACERVO: Antonio Candido no Suplemento Literário

Candido era, então, aluno do segundo ano de Ciências Sociais. Para o mineiro nascido no Rio, como ele mesmo se definia - criado em Cássia e Poços de Caldas - os amigos do grupo de Clima tiveram grande importância nos anos de formação. “Nós temos consciência de nos termos formado uns aos outros: Gilda, minha mulher, Decio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes, Rui Coelho, Lourival Gomes Machado, eu e mais alguns, todos marcados pela variedade de interesses com reflexo na atividade." 

As mulheres participantes eram Gilda de Moraes Rocha (depois Gilda de Mello e Souza, professora de Estética da USP, a companheira da vida inteira, morta em 2005) e Ruth, esposa de Décio de Almeida Prado, em cuja casa, na esquina das ruas Itambé e Mato Grosso, ficava a redação. 

Aquela revista de cultura, feita por jovens universitários, tinha praticamente a mesma equipe que depois fundou e colaborou com o Suplemento Literário e se tornou conhecida como a primeira geração de críticos saídos da USP. 

Em um artigo sobre Clima, o professor Antonio Candido afirmou que, na década de 1940, São Paulo acabava de completar um milhão de habitantes e as pessoas se conheciam de vista. E eles tiveram a sorte de ficar próximos de artistas e escritores que admiravam. “Nos acotovelávamos com Mario de Andrade, Oswald, Sérgio Milliet, Lasar Segall, Guilherme de Almeida, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Flavio de Carvalho, Di Cavalcanti, Cassiano Ricardo, Monteiro Lobato, Caio Prado Junior (...)”.

Alguns anos depois, esses mesmos intelectuais tornavam-se colaboradores do Suplemento, que em seu minucioso  projeto previa espaço generoso para a ilustração gráfica, plástica e fotográfica, e o mesmo preço para estas colaborações e as de textos- os grandes textos críticos, os contos, os poemas. O Suplemento pagava dez vezes mais do que o mercado da época, me contou o professor.

Naquela redação fantástica, dirigida harmonicamente por Décio - onde uma jovem Lygia Fagundes Telles, contista iniciante, poderia ser ilustrada por um consagrado Di Cavalcanti, por exemplo -, reinavam a independência e a autonomia. Da pauta à edição, não havia interferência de chefe de redação, ou do dono do jornal, Julio de Mesquita Filho, que não discriminava colaboradores por motivo ideológico.

Imagino Antonio Candido - o critico literário que fez sua carreira no jornalismo, mas foi essencialmente um professor, como ele mesmo se definia - subindo as escadas para chegar à redação do Suplemento e entregar um artigo. Imagino seu abraço em Decio, o cumprimento ao diagramador Ítalo Bianchi, algum comentário sobre a política, o tempo, novos lançamentos literários que hoje se tornaram clássicos. A propósito, já no primeiro número do Suplemento, em 6 de outubro de 1956, Grande Sertão:Veredas foi saudado por Antonio Candido como “uma das obras mais importantes da literatura brasileira - jacto de força e beleza numa novelística algo perplexa como é atualmente a nossa".

Todos já estão mortos. Candido foi o mais longevo da turma de acadêmicos dos primeiros anos da USP. Uma das vezes em que fui à sua casa, eu o encontrei relendo Jurandir Ferreira, seu grande amigo de Poços de Caldas, ótimo escritor e farmacêutico. O professor não concedia mais entrevistas - temia algum engano da memória-, não falava sobre novos lançamentos. “A gente chega a um a certa idade e se compraz em reler.”

Estava bem, lúcido como sempre, a fala rápida, a mente ágil. De repente disse: “A velhice é muito triste”. Minha respiração suspensa, o que responder?

Mas o próprio professor com seu bom humor cortou a atmosfera densa contando uma historinha. Há mais de 30 anos tomou um táxi e o motorista (“muito inteligente”) lhe disse: "Gente é feito remédio. Tem prazo de validade".

*Elizabeth Lorenzotti, jornalista e escritora , é autora de “Suplemento Literário- Que falta ele faz!” (Imprensa Oficial, 2007).

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