Ary Brandi
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Análise: A vida e o seu ofício se confundiam em Plínio Marcos

De repente, lá se vão 18 anos sem Plínio Marcos

Oswaldo Mendes, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2017 | 06h00

De repente, lá se vão 18 anos sem Plínio Marcos. Muitos que estão chegando agora nem sequer o conheceram, mas guardam como se fosse sua a imagem dele nas portas de teatros e restaurantes a vender seus livros, prometendo morrer logo para valorizar o autógrafo. Plínio provou do verso do poeta Maiakovski, para quem “nesta vida, morrer não é difícil; o difícil é a vida e o seu ofício”. Poucos exerceram esse ofício com a sua paixão e a consciência que lhe permitiu dizer, quando Boris Casoy perguntou se tinha sido muito perseguido, que perseguido “é coisa de bunda-mole, eu fiz por merecer”. Quem, depois de viver tão intensamente, olha para trás sem ressentimento e sem se queixar do mundo por seus infortúnios, este exerceu bem o ofício. Também poucos foram tão cerceados em sua liberdade de trabalhar, sem abrir mão da coerência.

Nos momentos difíceis, quando em uma camiseta puída e chinelões se socorria nos seus livrinhos para pagar as despesas do dia, uma publicitária o imaginou como o Papai Noel diferente de uma fábrica de veículos e outro amigo criou uma campanha para conhecida fabricante de camiseta tendo Plínio como modelo. Os contratos eram bem razoáveis e dariam uma folga nas contas por um bom tempo. Não, respondeu a todos. Crítico do consumismo, “a minha religiosidade me obriga a ser uma pessoa que procura viver seu próprio discurso”, dizia. E para que não restasse dúvida: “Eu não posso aparecer numa favela dizendo uma coisa e, de repente, aparecer na televisão fazendo outra”.

Não se pense que havia heroísmo ou arrogância nessa coerência. Ao contrário, não poucas vezes, se queixou a amigos do cansaço de andar pelos estranhos caminhos do bom Deus pra vender seus livros. Em janeiro de 1995, quase lhe amputaram as pernas. Ele fazia ponto da porta do Teatro Cultura Artística onde estava em cartaz Navalha na Carne, com Louise Cardoso e Diogo Vilela. Em pé, que camelô bom não senta, oferecia os livrinhos. De repente, cambaleou e caiu. “Caí na sarjeta com as pernas podres, doendo muito, não pegava nem morfina.” A perna estava necrosada. Socorrido por um espectador, médico e amigo de Louise, foi levado para as Clínicas. “Vamos ter que amputar as pernas dele, as duas”, ouviu de um decidido plantonista. Chamaram até o diretor do hospital para impedir. Plínio tentou fazer troça. “Eu só consegui gaguejar: vai ficar melhor pra vender livro.”

Não havia do que rir. Depois desse episódio, o camelô se retirou. Vendeu os direitos de publicação de suas peças para a Funarte.

Em março de 1998, fez a primeira viagem ao exterior para o lançamento de Deux Perdus Dans une Nuite Sale no Salão do Livro, em Paris. Sentiu-se enturmado com João Ubaldo, Chico Buarque, Paulo Coelho, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres. Gostou tanto que aceitou voltar no ano seguinte para o Festival de Teatro de Avignon. “Já sei até falar francês. Peço café olé e sou atendido.” Mas, em setembro de 1999, ele estava no velho reduto, o restaurante Gigetto, para a noite de autógrafo de O Truque de Espelhos, cercado pela sua gente (de Paulo Autran a Tônia Carrero, de Antonio Fagundes a Miriam Mehler), não imaginava que era uma despedida. Cinquenta dias depois, em novembro, Plínio saiu de cena.

O sonho só agora se realiza com a publicação de sua obra teatral completa pela Funarte. Hoje, ele só lamentaria que ela continue tão atual. Não, Plínio, a realidade que você colocou em cena é a mesma, se não pior. E os jovens, até os que vieram depois, reconhecem a presença ainda incômoda de Paco, Veludo, Balbina, Neusa Sueli... E se o encontrassem nas portas dos teatros talvez perguntassem tímidos: “Você é o Plínio Marcos?” E ouviriam sem demora: “O tempo todo”. Literalmente.

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