Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Ana Luisa Escorel resgata personagem esquecida da Revolução Liberal de 1842 em ‘Dona Josefa'

Primeiro romance depois de vencer o Prêmio São Paulo de Literatura, 'Dona Josefa' revê trajetória de revolucionária presa por liderar revolta no século 19; leia trecho

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

04 de maio de 2019 | 03h00

Depois de se tornar a primeira mulher a vencer o Prêmio São Paulo de Literatura, Ana Luisa Escorel está de volta ao romance, cinco anos depois. Se antes ela havia construído uma trama costurando fios soltos de relacionamentos, agora ela se volta para a história do Brasil. Dona Josefa (editora Ouro Sobre Azul) reimagina a história de Josefa Maria Roquete Batista Franco Carneiro de Mendonça (1780-1855), uma das líderes da porção mineira da Revolução Liberal de 1842.

Revoltados com o poder centralizador do novo gabinete conservador do então muito jovem d. Pedro II, os liberais protestavam contra medidas fortemente centralizadoras, como mudanças no Código Penal (de acordo com novas leis o imperador nomearia pessoalmente juízes, promotores e chefes de polícia). A revolução não tinha, porém, aspirações reformistas, todos lutavam “pelo” nome do imperador.

Sobre Josefa, a pessoa real, na verdade se sabe pouco. Nascida em 1780, em Goiás, em uma família rica e dona de terras e escravos, ela foi julgada como a liderança principal dos revoltosos do Araxá (na região oeste de Minas Gerais), mas inocentada numa manobra dos seus defensores para transferir a culpa para um de seus filhos, que também era revolucionário. D. Pedro concedeu uma anistia para todos os revoltosos dois anos depois.

O livro conta um período anterior ao julgamento: a ação se dá nos três meses em que Josefa ficou presa em uma solitária na Câmara de São Domingos do Araxá, por conta do seu envolvimento nas contestações políticas, quando ela já estava com mais de 60 anos. 

No cárcere, a personagem (fictícia) relembra histórias do seu casamento, remói erros da revolução falha da qual fez parte e desenvolve uma relação com Salvador, um preso “faz-tudo“, que também lhe conta histórias do conflito. Tudo numa linguagem com requintes regionalistas.

A escritora começou a escrever há pelo menos cinco anos. “O estímulo para escrever o romance surgiu das circunstâncias particularíssimas dessa oligarca – salvo engano a única no Brasil, em seu tempo – que, envolvida numa resistência armada a d. Pedro II foi presa, posta em uma solitária por dois meses e meio, num país que tem como hábito e tradição passar ao largo das irregularidades cometidas pelas classes dominantes”, diz Ana Luisa Escorel, por e-mail. 

O trecho inicial de Dona Josefa, o novo livro de Ana Luisa Escorel, foi publicado no Estado em 2014, mas o livro só ficou pronto agora. “O que me interessa ao escrever uma história não é a trama, a estrutura da narrativa nem a construção da verossimilhança de cada personagem, mas a fluência, a sonoridade e o ritmo do texto”, explica – e isso demanda tempo. 

Filha de Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza, Ana Luisa venceu o Prêmio São Paulo de Literatura com seu primeiro romance, Anel de Vidro (2014), mas há muitos anos mantém um trabalho reconhecido na área do design, e há mais de 10 administra sua editora, a Ouro Sobre Azul.

Existe um salto temático entre Anel de Vidro (casamento) e Dona Josefa (revolução). A vontade de escrever sobre um tema dessa natureza foi reflexo das alterações do campo político nacional?

Quando o livro começou a ser escrito, em dezembro de 2014, o quadro político no Brasil era outro e, embora já inquietante, não parecia indicar um descalabro das proporções do que está ocorrendo. Mas, ainda que a escolha do tema não tenha sido provocada por causas desse teor, o interesse pela presença de uma senhora com o perfil de Josefa Carneiro de Mendonça em um movimento de contestação ao poder do império, de fato antecipava a ocorrência de questões políticas, ao longo da narrativa. Na verdade, o estímulo para escrever o romance surgiu das circunstâncias particularíssimas dessa oligarca – salvo engano a única no Brasil, em seu tempo – que, envolvida numa resistência armada a d. Pedro II foi presa, posta em uma solitária por dois meses e meio, num país que tem como hábito e tradição passar ao largo das irregularidades cometidas pelas classes dominantes, tendendo, ao mesmo tempo, a esvaziar a palavra e o gesto das mulheres de qualquer categoria social, tanto na esfera privada, quanto na esfera pública.

Na sua visão de escritora, a literatura e o trabalho de edição de livros precisam ter algum papel na discussão sobre as questões contemporâneas do País?

Um editor consciente tem sim, na minha maneira de ver, o encargo de pôr para circular textos – literários ou não – que ampliem a visão do mundo, de modo geral, a compreensão dos fatos contemporâneos, em particular. Já ao escritor cabe, antes de tudo, o compromisso de atender à sua necessidade de expressão, produzindo o melhor texto de que for capaz para dar forma a essa necessidade.

Você considera que esse tipo de resgate histórico por meio da ficção ganha outro significado quando estamos falando de mulheres como Josefa, já que, de maneira oficial, a história sempre foi centrada na ação dos homens, dos chefes e dos comandantes? 

Josefa não é uma personagem histórica relevante. Sua ação foi circunscrita, embora extremamente original e surpreendente, consideradas as condições que encarnava. No entanto, dela não se desprendeu nenhuma grandeza substancial que tivesse o poder de influir no curso da história. Mesmo admitida sua liderança incontestável no movimento, na região do Araxá, em Minas Gerais, de que resultou a Revolução Liberal de 1842, liderança completamente improvável em uma mulher com a inserção social que ela tinha, no tempo em que viveu. No entanto a colocação da pergunta faz todo sentido se pensarmos que homens com desempenhos equivalentes ao de Josefa, e portanto também pouco relevantes para o curso dos acontecimentos em qualquer país, são mencionados nos registros históricos com frequência. 

Não se nota na personagem uma inspiração tipicamente abolicionista. Você acha que esse é um tipo de “falha histórica” dos liberais progressistas no Brasil? Quero dizer, não lutar necessariamente contra a escravidão.

A Josefa real provavelmente não foi uma abolicionista embora, considerando o pouco que se tem dela, qualquer afirmação nesse sentido seja temerária. A Josefa personagem, no entanto, foi desenhada como sendo uma proprietária rural rica, inteligente, personalidade incomum comprometida com o aumento contínuo de seus bens e que via os escravos como cabedal precioso cuja integridade, por isso mesmo, era necessário preservar. (...) Devo confessar que, ao escolher o tema desse meu novo romance, não previa que a presença subterrânea e contínua de certos aspectos da escravidão, tal como se deram no Brasil, ocupassem o espaço que vieram a ocupar em Dona Josefa. Esses aspectos foram se impondo naturalmente e aos poucos, à medida que a narrativa progredia. Sendo assim espero ter dado, ao tratar deles, a dimensão infame que a sociedade brasileira carrega pelo fato de tê-los permitido e de não ter sabido lidar com suas consequências – assustadora e numerosamente concretas – até os dias atuais.

 

DONA  JOSEFA

Autora: Ana Luisa Escorel

Editora: Ouro Sobre Azul (192 págs., R$ 52)

Trecho de Dona Josefa

“Josefa continuou no catre, mesma posição por um bom quarto de hora, costas eretas mantida pela musculatura de quem cavalgara desde menina e a cada intervalo entre um filho e outro, dos 11 abrigados nela. Seguiu assim, esperando, postura de senhora em sua casa – retomada a cada encontro com Salvador –, impaciente para ir adiante na conversa naquele misto de impropério e resguardo, combinação improvável mais exata de sua natureza peculiar. Como ele custasse a vir, acabou deitando e dormiu (...) até ser içada aos poucos de uma sensação aflitiva por ruídos rascantes, insistentes. Então voltando-se para o lado de onde vinham enxergou, na tarde que já ia alta, o contorno impreciso – era quase noite – de uma velha muito velha, de cócoras no ângulo entre duas paredes. Olhos vítreos fixos em Josefa a velha arranhava as pedras com as unhas transparentes, finas e compridas da mão esquerda até todas, nos quatro dedos – ela só tinha quatro em cada mão – arrebentarem de tanto arrastar na superfície dura, largando um estalido forte, seco.”

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