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Lucio Consul
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'Amor de Bicho', de Marcelo Labes, é 'Um Copo de Cólera' do nosso tempo

Labes é vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura do ano passado com seu romance de estreia, 'Paraízo-Paraguay'

Paula Sperb, Especial para o Estadão

05 de julho de 2021 | 20h00

Um casal “se esquece de contar os mortos” por seis dias. Em menos de uma semana, em plena pandemia, eles precisam viver todas as fases de uma paixão, incluindo o término, dentro de um apartamento em Florianópolis. O novo livro de ficção do catarinense Marcelo Labes, Amor de Bicho (Caiaponte, 2021), demanda que o leitor não interrompa a fala do narrador.

Labes é vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura do ano passado com seu romance de estreia, Paraízo-Paraguay (Caiaponte, 2019), sobre a imigração alemã em Blumenau. O livro desmitifica um passado recriado para apagar as minorias, como negros e indígenas em regiões de colonização europeia. Filho de uma empregada e de um operário, o escritor tratou também sobre a face sombria de Blumenau no seu segundo romance, Três Porcos (Caiaponte, 2020). Na obra, relembra os abusos sexuais sofridos na infância e se vinga dos pedófilos. A narrativa de Três Porcos é tão potente que, depois de lançar o livro, Labes passou a receber relatos de inúmeras vítimas de abusos.

Por isso, ler o recém-lançado Amor de Bicho após ler Três Porcos causa a impressão de que a verdadeira vingança ocorre agora, quando este novo narrador se nega a abrir mão de viver intensamente. É como se os abusadores tivessem sido derrotados.

A novela começa com a partida da namorada. A primeira frase, assim como as demais, começa em letra minúscula: “agora ela foi embora e eu acompanhei seu voo para a Europa numa dessas páginas de radar”. Sem a letra maiúscula, que indica início de um período, é como se o leitor estivesse escutando uma história que já estava em andamento.

De fato, o narrador acaba revelando que o romance iniciou quatro meses antes, “quatro meses de eternidade”, de forma virtual, já que a mulher vive em um Estado no Nordeste. Por isso, antes da viagem dela rumo ao exterior, ela passa seis intensos dias no apartamento do narrador.

Em uma das passagens, é como se fosse “dada a largada” para a corrida contra o tempo. A contagem regressiva é marcada pelos andares do elevador que desce com o protagonista-narrador que irá abrir o portão para a visitante: “7 6 5 4 3 2 1 (suspiro) (os joelhos tremem e o peso do peito sobre as omoplatas encostadas na parede) (que cheiro ela tem?) (que gosto ela tem?) (serei homem?) (será assim tão alta?) (com que roupa ela vem?)”, se questiona. Entre parênteses, as perguntas ganham ares de pensamentos, enquanto fora deles, de desabafo.

É nessa característica de catarse, história contada oralmente e no êxtase incontido, que Amor de Bicho conversa com o clássico de Raduan Nassar, Um Copo de Cólera, seja nas suas aproximações como em traços distintos. Começando pelo tamanho, ambos são novelas enxutas, como manda o gênero.

Em Um Copo de Cólera, o narrador é um homem que, já em 1978, ano da publicação do livro, parecia anacrônico no seu machismo. Se na obra de Nassar a primeira frase não começa com letra minúscula como em Labes, inicia também como dando continuidade: “E quando cheguei à tarde na minha casa lá no 27, ela já me aguardava andando pelo gramado”.

No texto de Nassar, o ponto final aparece somente no fim de cada capítulo, os únicos respiros para o leitor que testemunha a fúria do narrador desencadeada por um motivo frívolo: formigas que atacam suas plantas.

Labes e Nassar se aproximam em razão da prosa eufórica e ritmada. O intervalo de tempo entre a criação das duas novelas, entretanto, pode explicar as diferenças entre os papéis desempenhados pelos homens nos relacionamentos. Há também outra diferença significativa declarada nos títulos, um trata de cólera e o outro, de amor.

Em Nassar, o narrador se impõe com violência diante da namorada, e adota gestos distantes intencionalmente: “sabendo que por baixo do seu silêncio ela se contorcia de impaciência e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe parecesse”. 

Na novela de Labes, porém, o homem é “desconstruído” e admite de antemão que está entregue a essa mulher chegada do Nordeste: “ela me fala Olá como se me dissesse para me render diante da sua imagem, mas eu já tinha mãos e pés amarrados quando a vi pela primeira vez”.

Os pés também possuem uma simbologia nas duas novelas. Em Nassar, o narrador orgulha-se dos seus pés brancos, que ele tem certeza que seduzem a namorada: “quando pressenti seus passos de volta no corredor, e foi então só o tempo de eu abrir os olhos para inspecionar a postura correta dos meus pés despontando fora do lençol”. Na novela de Labes, são os pés da namorada que impressionam pelo tamanho 39, compatível com a personagem alta, conforme a descrição.

Desde Paraízo-Paraguay, o catarinense já figurava ao lado de escritores brasileiros de leitura “obrigatória” na atualidade, que trataram da desigualdade e do racismo, como Itamar Vieira Junior (Torto Arado), Paulo Scott (Marrom e Amarelo), Jeferson Tenório (O Avesso da Pele) e José Falero (Os Supridores). Agora, com Amor de Bicho, Labes lançou Um Copo de Cólera do nosso tempo.

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