Amigos e colegas lamentam a morte de João Ubaldo Ribeiro

Notícia impactou o mundo das artes no Brasil; entre outros, Milton Hatoum, Luis Fernando Verissimo e Ferreira Gullar comentaram vida e obra de Ubaldo

O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2014 | 09h56

Atualizado às 13h05.

O corpo do escritor João Ubaldo Ribeiro, de 73 anos, que morreu na madrugada desta sexta-feira vítima de uma embolia pulmonar, será levado à sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio, por volta de 13h. Ainda não há informações sobre horário ou local do enterro. João Ubaldo, o 7º ocupante da cadeira 34 da ABL, faleceu em sua casa, no Leblon, na zona sul do Rio.

O poeta maranhense Ferreira Gullar, de 83 anos, lamentou a morte de João Ubaldo Ribeiro, “sem dúvida um dos mais importantes escritores brasileiros”, afirmou. “Fiquei surpreso porque, pelo que sabia, ele estava bem de saúde. Havia atravessado um período de dificuldade, mas se recuperado. Foi uma notícia chocante”, disse Gullar.

“Um romancista de nível muito alto, enorme qualidade, de obras maravilhosas como Viva o povo brasileiro, O sorriso do lagarto e Sargento Getúlio, além de ser um cronista sensacional, com muito senso de humor. Eu era leitor dele; toda semana lia João Ubaldo. Não era um amigo frequente, de estar sempre com ele, mas éramos amigos de muitos anos”, disse o poeta.

A escritora Nélida Piñon, que como João Ubaldo é imortal da ABL, destacou o grande narrador que era o amigo. “Eu destacaria dois livros: Sargento Getúlio, que é uma pequena epopeia do Nordeste brasileiro, na qual encarna o autoritarismo, o poder e a servidão dos pobres; e também esse painel formidável que é o Viva o povo brasileiro, um romance que abrange a nossa formação ao longo dos séculos”, disse.

Nélida, que conhecia João Ubaldo há mais de 30 anos, enalteceu as qualidades do amigo: “Eu lhe devotava uma admiração enorme. Um homem muito engraçado, divertido, de sólida cultura que devia à imposição paterna. João Ubaldo era um homem apaixonado pelas conquistas humanas do pensamento”, disse. Assim como Gullar, Nélida contou ter ficado surpresa com a notícia da morte, e muito triste.

“Lamentamos a sua morte porque morreu moço, aos 73 anos, tendo ainda tanto a dar à língua do Brasil”, completou Nélida Piñon.

Veja outras menções a João Ubaldo Ribeiro nesta sexta-feira:

Milton Hatoum, escritor:

"Lamento muito a morte de João Ubaldo, sem dúvida um dos grandes narradores da literatura de língua portuguesa. Ele fez de Itaparica um mundo, transformou a ilha num continente ficcional. Viva o povo brasileiro é um dos romances mais ambiciosos da literatura brasileira contemporânea: uma fábula sobre a nossa História, narrada com uma linguagem sofisticada, em que os narradores usam vários registros em épocas diferentes. Mas gosto também dos outros livros, principalmente do Sargento Getúlio, pela força da concisão e de uma linguagem muito elaborada, que expressa as relações arcaicas, o mandonismo e a brutalidade numa área específica do Nordeste. Mas essa brutalidade está presente Brasil, de norte a sul."

Sérgio Sant'Anna, escritor:

"Viva o Povo Brasileiro é realmente um grande livro, que sem dúvida vai ficar para a posteridade. A obra dele toda vai ficar, é inegável. Era um grande escritor brasileiro. É uma grande perda e surpresa, também. João Ubaldo era uma figura, ultimamente andava um pouco recolhido. Convivi com ele numa época em que era muito falante. Além de ser um grande escritor, era engraçado, muito inteligente, todos gostavam dele."

Paulo Coelho, escritor:

"'Já cheguei à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo' Viva escritor e amigo João Ubaldo Ribeiro (1941- 18/7/2014)".

Carlos Heitor Cony, escritor:

"Um dos maiores escritores do Brasil e um grande ser humano. A Academia tem isso de mau, quando um amigo morre, nós nos sentimos órfãos. Ele era meu irmão de ideias, de interesses, um homem que estimulava as pessoas, assim como ele foi estimulado por Jorge Amado. O livro de que mais gosto é Sargento Getúlio. Vou sentir muito a falta dele."

Zuenir Ventura, escritor e jornalista:

"Conheci o João Ubaldo por meio do Glauber Rocha, que me disse que me apresentaria o maior escritor brasileiro. Depois estive com ele em muitos momentos, em mesas-redondas, e o que impressiona é que ele era um grande contador de histórias, não só escritas, mas faladas também. É um choque muito forte."

Domício Proença Filho, acadêmico e secretário da Academia Brasileiras de Letras:

"Era um convívio agradabilíssimo, extremamente simpático, quando ele vinha para a Academia era uma festa. João era uma pessoa muito preocupada com a nossa identidade, com o povo brasileiro, tinha um domínio da técnica narrativa. Um dos maiores escritores contemporâneos."

Luis Fernando Verissimo, escritor:

"Foi uma tristeza saber da morte dele, não sabia que ele estava doente. Os encontros com ele eram sempre alegres. É lamentável. Ele escrevia sobre o Brasil, sobre os brasileiros, os dramas, humores do brasileiro. Talvez fosse o mais brasileiro dos escritores brasileiros. Herdeiro de Jorge Amado, fez uma baianice universal."

Ignácio de Loyola Brandão, escritor:

"Foram 40 anos de amizade, muitas viagens, vivemos no mesmo período na Alemanha. O João tinha uma coisa irritante: ele cozinhava muito bem. Em uma ocasião, em Itaparica, ele fez uma moqueca de ostrinhas, fiquei enlouquecido. Pensava: 'O João escreve bem, cozinha bem, fala bem, é um homem sedutor'. Nunca vi uma gargalhada igual. Foi clássico ainda em vida. Um estilista, muito preocupado com a escrita."

Dilma Roussef, presidente do Brasil (pelas redes sociais):

"A literatura brasileira perde um grande nome com a morte de João Ubaldo Ribeiro. Neste momento de dor, presto minha solidariedade aos familiares, amigos e leitores."

Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro:

"A CBL teve a honra de reconhecer o talento de João Ubaldo, por meio do Prêmio Jabuti, em duas ocasiões. A primeira, em 1972, quando o escritor ganhou o prêmio de melhor autor revelação com o romance Sargento Getúlio, e em 1985, foi condecorado na categoria Melhor Romance do Ano, com a obra Viva o Povo Brasileiro. O setor editorial perde, neste dia, um dos grandes romancistas e cronistas da atualidade, membro da Academia Brasileira de Letras. Mas suas obras sempre permanecerão vivas na memória dos brasileiros."

Na manhã desta sexta-feira, o nome do escritor era um dos trending topics (assuntos mais comentados) do Twitter.

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