Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Amazon suspende venda de livro após hashtag #SeExplicaAmazon

'Anjos Proibidos', lançado em 1991, traz retratos de meninas de 10 a 17 anos seminuas, e foi retirado da loja virtual; entenda o caso

Redação, O Estado de S. Paulo

16 de junho de 2020 | 18h18

A Amazon anunciou a suspensão da venda do livro Anjos Proibidos (1991), de Fábio Cabral, depois que internautas levantaram a hashtag #SeExplicaAmazon, cobrando um posicionamento da empresa sobre o conteúdo do livro.

No volume, o fotógrafo retrata meninas de 10 a 17 anos seminuas, às vezes em lugares públicos, como o Vale do Anhangabaú. O livro chegou a ser proibido pela Justiça e Cabral depôs em inquérito na época, que resultou numa acusação do Ministério Público baseada no artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente. O fotógrafo foi inocentado no caso em 1994.

"A Amazon agradece pelo alerta", escreveu a empresa no Twitter. "Suspendemos o produto assim que fomos informados, e estamos investigando", completou, ao usar a própria hashtag para divulgar a mensagem.

 


Na rede social, internautas se revoltaram e classificaram o livro como pornografia infantil. Alguns chegaram a divulgar o perfil pessoal do fotógrafo.

O livro era vendido por quase R$ 10 mil no marketplace da Amazon (ou seja, não era oferecido pela própria empresa).

Entenda o caso de 'Anjos Proibidos', o livro de Fábio Cabral

As imagens de meninas de calcinhas ou com os seios à mostra, clicadas entre 1985 e 1991, enquadraram o fotógrafo num inquérito policial. Acusado pelo então coordenador das Curadorias da Infância e da Juventude, Munir Cury, de estar infringindo o Estatuto da Criança e do Adolescente, Cabral recebeu ameaça de prisão. Em 1991, seu estúdio foi invadido e os negativos das fotos, confiscados. E como estava de férias quando a polêmica estourou, o autor foi tachado de fugitivo.

O artigo 241 do Estatuto proíbe "a produção de fotografias pornográficas que retratem crianças ou adolescentes". Na sentença publicada em 1994, o juiz Osvaldo José de Oliveira definia as imagens de Anjos Proibidos como "artísticas". O juiz recomendou à promotoria "cautela em separar o erótico daquilo que poderia caracterizar cena de sexo explícito ou pornográfico", segundo reportagem do Estadão em 2001.

O fato de Anjos Proibidos ter sido colocado à venda apenas na Galeria de Arte Paulo Figueiredo, onde foi lançado, também colaborou para a sentença favorável. Em 2001, o fotógrafo disse: "As manchetes anunciavam: Anjos Proibidos some das prateleiras. Que prateleiras!? O livro só esteve exposto num balcão, em uma única galeria!". Dias antes de figurar nas páginas de polícia, o fotógrafo havia sido destaque nas de cultura, em matérias elogiosas à publicação — na qual ele assumia ser pautado pela sensualidade. "Se eu disser que essas fotos não são carregadas de erotismo estarei sendo hipócrita", disse na época. "Mas elas são respeitosas, parecem uma pintura. A idéia do projeto nasceu da percepção de que as mulheres exercitam a sedução desde muito cedo. Quando acompanhava testes para um anúncio de brinquedos, por exemplo, via que as meninas jogavam charme para serem escolhidas."

As crianças foram convidadas entre as filhas de amigos. Todas as imagens foram clicadas com a autorização e presença dos pais, segundo reportagens. Quando determinou a apreensão dos livros, Munir Cury disse aos jornais que a bênção paterna ao trabalho poderia acarretar a perda do pátrio poder — ou seja, os direitos de pai e mãe sobre as crianças.

Nos anos 70, o fotógrafo inglês David Hamilton também publicou álbuns sobre o tema e no século 19 o britânico Lewis Carrol, o autor de Alice no País das Maravilhas, fez trabalho semelhante.

Em 1999, Cabral lançou o livro Some Women/Algumas Mulheres, com retratos escolhidos de Bruna Lombardi, Sônia Braga, Adriane Galisteu, Ana Paula Arósio, Claudia Raia e Cristiana Oliveira. Ele continuou com sua carreira de fotógrafo e diretor de fotografia, no cinema, em comerciais e videoclipes.

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