Mabel Maldonado/ dIV
Mabel Maldonado/ dIV

Escritor Alejandro Zambra usa a autoficção para entender o passado

'Meus Documentos' mostra as razões de o chileno ser apontado como sucessor de seu conterrâneo Bolaño

Entrevista com

Alejandro Zambra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2015 | 04h00

Nos 11 contos de Meus Documentos, o escritor chileno Alejandro Zambra mostra as razões de ser apontado como o legítimo sucessor de seu conterrâneo Roberto Bolaño, incorporando, como ele, parte da história do Chile como se fosse a sua. Ou melhor, usando o recurso da autoficção para examinar como é viver num Chile permanentemente assombrado pelo fantasma de Pinochet.

A autoficção não é propriamente um gênero literário novo. Ele pode ser identificado, por exemplo, nos escritos do francês Georges Perec, mas é com Bolaño e Zambra que ela se volta para a questão da memória como material frágil da construção de uma narrativa.

Em entrevista ao Caderno 2, Zambra comenta que “é quase impossível falar sem ficcionalizar”, criticando os homens de sua época, que colocam “demasiada ênfase numa ideia simplificada de realismo”. A seguir, a entrevista de Zambra.

Alguns dos contos de Meus Documentos são autorreferenciais, entre eles Eu Fumava Muito Bem, creio. Como você compatibiliza a vida privada e pública em seus livros?

Interessa-me o vínculo entre eu e os outros. Essa barreira que se move todo o tempo. Nenhum experiência é totalmente pública. Nenhuma experiência é totalmente privada. Quero explorar esse limite. Acredito também que na narrativa está demasiado instalada a ideia de ‘ficção’, mas eu venho da poesia, que tem uma relação mais completa com a ficção. Chega um momento em que se preocupar com a fronteira entre ficção e realidade é irrelevante. Às vezes me pergunto: Para que inventar? Para me proteger? Mas de quê? Isso nasce da ideia de ficção como ‘mentira’. É quase impossível falar sem ficcionalizar. Talvez se coloque demasiada ênfase numa ideia simplificada de realismo, como se não passássemos várias horas do dia sonhando.

O que você pensa da transposição de seus livros para o cinema? De modo geral, você interfere durante a realização do filme, em particular de Bonsai, dirigido por Cristián Jiménez? O cinema representa algo novo para você como experiência?

Claro que sim. Quando Cristián Jiménez me propôs fazer de Bonsai um filme, eu não o conhecia, ainda que tivéssemos amigos em comum e a mesma idade. Pedi a ele que me mostrasse um de seus trabalhos e ele exibiu um corte preliminar de seu Ilusões Óticas, do qual gostei muito. Captei que Cristián queria fazer algo distinto do livro e se apropriar de suas imagens. Isso não me incomoda. Ficaria incomodado se ele tivesse um desejo de assimilação estrito, mas não acredito nisso. Gosto muito dessas diferenças. Quando me perguntam se eu teria feito o mesmo filme, respondo que não, com toda a certeza. Não vejo a literatura como o país pobre que produz matéria-prima para o país rico do cinema. Existe algo específico na literatura, intraduzível, e o livro nasceu dessa busca. Com Cristián não houve propriamente colaboração, mas li o roteiro e nos tornamos amigos. Ele frequentava minha casa, tomava chá como o personagem do filme e eu tomava café, como o personagem do meu livro. E começamos a refletir sobre o visual. A mim sempre me interessou a especificidade da literatura, e para isso me serviu a experiência. Ao conhecer Cristián, comecei a pensar no visual, mas em outras direções. Víamos filmes juntos, lembro-me sobretudo de alguns filmes de Ozu. Assistir a um filme com um diretor é um privilégio, porque você pode perguntar como se filmam certas coisas. Aprendi muito com ele e com meu amigo Diego Noguera, o protagonista de Bonsai. Ficamos tão amigos que, junto a Alicia Scherson (outra diretora chilena, que fez ‘El Futuro’, a versão de ‘Una Novelita Lumpen’, de Bolaño), pensamos em adaptar Vida de Família, do meu livro Meus Documentos, que se encontra em fase de conclusão. A diferença é que agora eu mesmo escrevi o roteiro.

A presença de Bolaño como referência da literatura chilena contemporânea lhe interessa como a de outros narradores de seu país, como Santos Gonzalez, Nicanor Parra ou Manuel Rojas? Qual a sua opinião sobre Bolaño?

Adoro Bolaño. Desde La Literatura Nazi, que li em 1997, até seus últimos escritos, o segui e admirei. Bolaño desordenou a literatura chilena. Devemos muito a ele.

O fantasma de Pinochet volta em Formas de Voltar para Casa e também em Meus Documentos. A fantasmagoria no Chile tem um lugar mais relevante para a sua geração, que cresceu à sombra de Pinochet, do que a própria realidade?

Não creio que falar da ditadura seja falar do passado. Por desgraça, o Chile ainda não curou suas feridas, e o país atual é ainda mais inexplicável sem a referência desses anos. Permanecem, no entanto, enclaves autoritários, porque segue em vigor a Constituição enganosa de 1980. Fizeram muitas emendas, mas ela permanece a origem de muitos problemas dos chilenos, lamentavelmente. Sobre o livro Formas de Voltar para Casa, creio que se trata da uma indagação sobre como nos relacionamos com a experiência e com a ideia de experiência, sem impostar a voz, perseguindo uma difícil honestidade, em especial porque a infância é sempre uma ficção, sempre é em parte algo que lhe contaram. O vínculo entre infância e ditadura é quase insondável. Não poderia falar de infância sem ditadura ou de ditadura sem infância.

Durante certo tempo você trabalhou como jornalista. Qual é, hoje, sua relação com a imprensa? Qual é o traço característico da sua ficção ao tratar de política? O jornalismo seria uma ferramenta que toca em aspectos políticos e sociais de uma forma mais superficial que a literatura?

Não diria isso. Não sou jornalista. O que fiz por anos foi crítica literária ou crônicas. Mas tenho muitos amigos jornalistas na área política. Respeito enormemente o que fazem. Há um rigor ali, uma busca, sempre na contramão do poder. Sobre ficção e política, creio que é impossível estabelecer tendências gerais. A literatura sempre lida com a incerteza, se aventura, dá conta de complexidades, tem uma função demasiado distinta para ser comparada ao jornalismo, cuja missão – dificílima, sobretudo em países como o Chile, com tão poucos meios de comunicação – é informar.

Meus Documentos traz reminiscências poéticas da adolescência, como no conto Instituto Nacional, para mim o melhor do livro, que elimina a fronteira entre ficção e realidade. Buscar ecos da adolescência é, para você, voltar ao registro emotivo de seus primeiros textos poéticos?

Obrigado, gostei da descrição. É, de fato, um texto muito intenso. Não saberia mesmo o que acrescentar.

 

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