Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

Alberto Mussa encerra seu ‘Compêndio Mítico do Rio’ com ‘A Biblioteca Elementar’

Com a série de cinco livros, o autor pretendeu resgatar parte da história do Brasil popular a partir de segredos e superstições

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2018 | 06h00

Na noite quente de 1733, os únicos sons vinham dos animais escondidos na mata. Nesse cenário, uma mulher, disfarçada com um traje franciscano, sai escondida pela rua, deixando o cemitério de pretos do Convento de Santo Antônio até chegar à Rua do Egito. No caminho, porém, a misteriosa personagem testemunha um crime – pior: ela conhece a vítima e seu algoz. Eis o ponto de partida de A Biblioteca Elementar (Record), romance policial com que o escritor Alberto Mussa encerra seu Compêndio Mítico do Rio de Janeiro.

Trata-se de um bem acabado conjunto de cinco volumes com que Mussa pretendeu resgatar parte da história do Brasil popular, a partir de segredos e superstições. São cinco novelas policiais, uma para cada século da história carioca. Começou com O Trono da Rainha Jinga, cuja ação se passa em 1626, continuou com O Senhor do Lado Esquerdo, que parte de um crime cometido em 1913, teve prosseguimento com A Primeira História do Mundo, ambientado no Rio de Janeiro de 1567, ou seja, quando a cidade tinha apenas dois anos de idade e contava com pouco mais de 400 moradores, até chegar A Hipótese Humana, em que um conjunto de cosmologia indígena brasileira é o ponto de partida para a narrativa de um assassinato que envolve capoeira e agentes secretos da polícia. Em todos, Mussa utiliza crimes para reconstruir o mito do Rio de Janeiro.

“Se as mitologias variam, e divergem entre si, condicionadas que são pela cultura e pela história, os problemas míticos, os problemas humanos são essencialmente os mesmos, independentes do tempo e do espaço”, observa Mussa, na introdução do volume. Aqui, ele utiliza ficcionalmente a Inquisição que perseguiu as mulheres no século 18, especialmente no Rio de Janeiro, onde residiam dois terços das vítimas presas. 

O dado fascinou o escritor, que se baseou no conceito da culpa eterna da mulher. “O primeiro exemplo é o da Bíblia: a mulher instiga o homem a cometer o Pecado Original. Mas, da África à América do Sul, o princípio permanece: as mulheres são quase sempre as responsáveis pela primeira queda, ou pelo afastamento da divindade da comunidade humana, pela origem da morte, etc.”, contou Mussa ao blog da editora Record. É esse agente elementar do Mal que presencia o crime na Rua do Egito (atual Rua da Carioca), como explica o autor.

Por que a Inquisição do século 18 te interessou mais como pano de fundo para este romance? Gostaria também que comentasse sobre a geografia do Rio escolhida para ambientar a trama.

A Inquisição foi uma das instituições mais importantes da história de Portugal e teve forte impacto na colônia brasileira. E não é explorada pela nossa ficção. Nossa ficção, realista, psicológica e sentimental, nunca se interessou muito pela História. Essa foi uma motivação. Mas não foi o motivo: como meu interesse, ao escrever o Compêndio Mítico, estava nas pessoas comuns, nas coisas que se passam nas ruas da cidade, a Inquisição era o melhor pano de fundo, porque ela atingiu essa gente, a gente que fundou a verdadeira cidade: ciganos, mouros, cristãos-novos, índios, africanos, mamelucos, todos os mestiços, as chamadas “raças infectas”, alvo principal do Santo Ofício.

Como foi o processo de pesquisa? Existe material necessário sobre a presença de ciganos no Rio do século 18?

Não há quase nada sobre os ciganos no Rio e mesmo no Brasil. Li dois livros sobre eles, apenas. E livros finos. Minha inspiração teve que vir de outra fonte: a mitologia popular, e oral. Particularmente, a mitologia da Umbanda, território onde os ciganos têm imensa importância. Meus ciganos saíram fundamentalmente dali.

Uma curiosidade que aguça a leitura é o jogo que você faz entre real e ficcional, mas a linha divisória é muito tênue. Como é o trabalho de criar fatos de modo a confundi-los com a realidade?

Acho que há dois elementos que facilitam esse truque. O primeiro são os aspectos externos da narrativa, como o cenário. Eu procuro respeitar as datas, os fatos históricos relevantes, a geografia, o nome das ruas, a paisagem social. Quando o leitor percebe essa preocupação passa a acreditar mais no narrador. E não nota que a maioria das coisas narradas no livro são ficcionais. O segundo elemento é a própria voz do narrador, que conta e comenta ao mesmo tempo. O narrador está no presente. Está na terceira pessoa. Esse distanciamento reforça o efeito de que tudo é real, quando o que se dá de fato é o oposto.

A trama é recheada de detalhes deliciosos sobre como era a sociedade carioca da época, como jogo do bicho, umbanda, etc. Como esses elementos tanto podem saciar a curiosidade do leitor como também serem essenciais para a história?

Esse é um dos grandes trunfos do romance como gênero: a capacidade de incorporar vários níveis de leitura. O romance pode reconstituir cenários históricos, e ao mesmo tempo discutir ideias; fazer o registro da cultura popular, e mergulhar num profundo drama humano; pode fazer rir, pode fazer chorar, pode fazer pensar, tudo isso num único capítulo, tudo isso numa mesma cena. Pode ter uma trama de mistério, que prenda a atenção do leitor, e promover a maior aventura que a literatura pode oferecer: a experiência da alteridade; o grande encontro com o Outro.

Você acredita que existe um parentesco entre a literatura de suspense e a psicanálise, no sentido em que há sempre, em ambas, uma verdade encoberta a ser desvendada? 

Nunca fiz essa relação, porque meu conhecimento de psicanálise é quase nulo. Vejo o policial, fundamentalmente, como um gênero de potencial mítico. O policial, o bom policial, tangencia o mito porque o fundamento das narrativas míticas é a quebra das regras, das leis e dos tabus. A narrativa mítica é fundada no crime. Por isso, o Compêndio Mítico do Rio de Janeiro é uma série de romances policiais.

Biblioteca é tema caro para autores notáveis como Jorge Luis Borges. Nesse seu novo livro, a biblioteca seria o conjunto de conhecimentos que marcavam a sociedade carioca, desde o erudito até o mais popular?

Mais do que conhecimentos, era o conjunto de inúmeros relatos diferentes que sempre terminam da mesma forma. Entre tantos crimes que ocorreram, a Biblioteca Elementar simboliza aquele único que não foi cometido.

Você poderia falar sobre seu novo livro, A Origem da Espécie?

Trata-se de um ensaio literário sobre os mitos da origem do fogo. Colecionei durante cerca de 25 anos mais de 300 mitos desse tipo, espalhados por todos os continentes, todos os grandes grupos linguísticos, todas as principais populações humanas, no sentido genético do termo. A primeira conclusão é que o mito do roubo do fogo é uma das mais antigas histórias que ainda se contam sobre a face da terra. E a razão para essa tremenda permanência é seu sentido profundo, porque o mito do roubo do fogo é o que funda a noção de humanidade.

A BIBLIOTECA ELEMENTAR

Autor: Alberto Mussa

Editora: Record (192 págs., R$ 37,90)

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