Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Ainda longe da TV, Jô Soares lança primeiro volume de sua agitada autobiografia

Livro resgata momentos marcantes da vida e da carreira do apresentador

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2017 | 06h02

O humorista e apresentador Jô Soares manteve durante muito tempo um arquivo em seu computador com o nome de BIO - ali, pretendia escrever a sua autobiografia. “Mas o máximo que consegui foi colar um texto que o Millôr Fernandes fez sobre mim e uma ou outra frase”, conta ele, sem esconder a frustração. A virada de jogo ocorreu quando recebeu a visita de Luiz Schwarcz e Matinas Suzuki Jr., da Companhia das Letras - incentivado pela dupla, Jô decidiu fazer a viagem pelo seu tempo, mas desde que acompanhado por Matinas. “Eu me expresso melhor oralmente”, justificou.

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Assim, em março, eles começaram a se encontrar no apartamento de Jô, no bairro de Higienópolis, e, depois de 104 encontros (alguns chegaram a beirar três horas) e uma enormidade de material gravado, nasceu O Livro de Jô - Uma Biografia Desautorizada, que a Companhia das Letras acaba de lançar. Trata-se, na verdade, do volume 1. “São tantas as histórias que o livro ficaria com mais de 700 páginas”, conta Matinas, que convenceu Jô a dividir em dois volumes - o próximo deve sair no final de 2018.

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De fato, mesmo tratando desde o nascimento do apresentador, em 1938, até o final da década de 1960, o livro é repleto de histórias incríveis, muitas esquecidas e resgatadas graças à prodigiosa memória de Jô e ao afinco de Matinas e sua equipe em pesquisar todos os detalhes. E não foi pouca coisa - perto de completar 80 anos (em 16 de janeiro), José Eugênio Soares não apenas testemunhou momentos determinantes da cultura brasileira como fez parte de boa parte deles. “Sou a soma do que devo aos meus pais, Mercedes e Orlando, e também aos meus amigos”, conta ele. “O livro é fruto do conjunto desses encontros.”

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E são tantas as histórias que o repórter brincou com o apresentador, tratando-o como o Forrest Gump brasileiro, referência ao personagem (vivido por Tom Hanks no cinema) que presenciou os fatos mais importantes dos EUA. “Sim”, concordou, para arrematar com um largo sorriso: “Mas um Forrest consciente”. Filho único de pais de espírito livre, Jô recebeu uma educação humanista, voltada para as artes. Vivendo no Rio de Janeiro, acompanhou a trágica final da Copa de 1950, no Maracanã. Passou uma temporada em Nova York e estudou em colégio interno suíço, período em que acompanhou outro Mundial de futebol, o de 1954, e também desenvolveu o pendor para a música (jazz, em especial), as artes visuais (é fã, entre outras, da Pop Art) e a habilidade com o humor.

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“Sempre fui um menino atrevido, que não se envergonhava em puxar conversa com celebridades”, lembra ele (leia alguns exemplos abaixo). Em um desses momentos, ele conseguiu conhecer o ateliê do pintor americano Roy Lichtenstein (1923-1997), um dos papas da arte moderna. “Adoro sua obra e, uma vez em Nova York, procurei seu nome na lista telefônica, liguei e ele foi muito gentil ao me receber”, relembra Jô.

Esse primeiro volume resgata, portanto, momentos marcantes da vida e da carreira do apresentador, desde a infância vivida no Anexo do Copacabana Palace até a chegada na televisão, onde conviveu com nomes lendários como Silveira Sampaio e Nilton Travesso, sem se esquecer de locais famosos, como o Nick-Bar, ao lado do Teatro Brasileiro de Comédia, ou o Gigetto, em seu primeiro endereço, em frente ao Cultura Artística. “As lembranças mexeram com ele”, conta Matinas. “Muitas vezes, além de chorar, Jô interrompia a conversa para telefonar para a pessoa da qual falávamos.”

Dois momentos ainda provocam as lágrimas do apresentador: a lembrança do filho, Rafael, que tinha autismo e morreu em 2014, aos 51 anos, de câncer, e da mãe, Mercedes, que foi atropelada por um táxi, no Rio de Janeiro, em 1968.

Atualmente, vive o período sabático da Globo, mas não deve voltar à televisão - sua maior preocupação é o teatro, especialmente a peça A Noite de 16 de Janeiro, que deverá montar em 2018. “É minha maior preocupação agora.” Assunto para o próximo volume.

TRECHOS

“Paris, 1951. Fomos a um café, onde estava Orson Welles, no maior porre. (...) Tarde da noite, tomei coragem, fui falar que era um fã dele e pedi um autógrafo. Welles olhou para mim e perguntou: “Brazilian?” Respondi que sim e ele então falou: “Não vou te dar autógrafo, leva meu passaporte”. E jogou o passaporte em cima da mesa. Agradeci, felicíssimo, e voltei para nossa mesa, mas meu pai me fez devolver o passaporte. Eu não queria e repliquei: “Amanhã, ele vai à embaixada americana e pega outro”. Papai foi firme: “Meu filho, ele está inteiramente bêbado. Faça o favor de devolver o passaporte”. Eu não tinha como desobedecer, e fui devolver, chateado.

“Uma ocasião, em Lausanne, mamãe se hospedou num dos excelentes hotéis da cidade e eu me mudei para lá a fim de ficar com ela... Estava no lobby certa tarde, quando ouvi um som de piano maravilhoso vindo de uma sala. Fui até lá e vi o Oscar Peterson estudando. Ele me disse que estudava oito horas por dia; no dia seguinte, ao que deixasse de estudar por oito horas, haveria um pianista melhor do que ele na cena jazzística. Eu pedi se podia tocar um pouquinho com ele, Oscar achou graça. Subi ao quarto para buscar o bongô e, durante uns quinze minutos, foi como se estivesse em algum reino encantado. Uma emoção. Oscar foi simpaticíssimo.

“Todas as noites eu atravessava a cozinha do Copacabana Palace, a qual fazia a ligação entre o Anexo e o hotel... Uma noite de abril de 1956, vejo uma mulher pequena, frágil, de chinelos, sendo amparada por dois homens. Quando passam por mim, reconheci a Édith Piaf, que voltava para o quarto depois da estreia do seu show no Golden Room, numa das grandes noites daquele ano no Rio. Terminado o show, Piaf tirava os sapatos, punha os chinelinhos e era praticamente carregada para o quarto do hotel, fazendo sempre o mesmo percurso. Aos 41 anos incompletos, aparentava oitenta.

“Resolvi encarar o teste, subi ao palco com o texto, li, e a Cacilda falou: “Está tudo errado, mas você vai fazer o papel genialmente bem. Vamos lá pra casa. Fomos para a casa dela e Cacilda Becker ficou até três horas da manhã me mostrando o que queria do papel. Ela me deu dicas e revelou segredos, revelações que só atores qualificados e experientes conseguem acumular. Ela me ensinou como dar vida ao personagem, como ligar as frases e intenções do subtexto. Coisas que não estão nos livros, segredos que eram só dela, de seu próprio aprendizado. Cacilda foi de uma generosidade incrível.

O LIVRO DO JÔ

Autores: Jô Soares e Matinas Suzuki Jr.

Editora: Companhia das Letras (528 págs., R$ 64,90 papel; R$ 39,90 ebook)

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