PHILIPPE MERLE/AFP
PHILIPPE MERLE/AFP

Aharon Appelfeld foi um apolítico em terra de engajados

O escritor israelense morto no dia 4, não via literatura como sociologia ou psicologia, mas como arte

Luis S. Krausz / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2018 | 06h00

Aharon Appelfeld (1932-2018), o grande escritor israelense que morreu na quinta-feira, 4, em Jerusalém, foi, desde o início de sua carreira, um outsider no cenário literário de seu país. Nasceu em Czernowitz, cidade que, até 1918, tinha sido austríaca, implantada nos confins do Império Austro-húngaro, uma espécie de polo avançado da cultura austro-alemã numa região, a Bucovina, percebida como carente de modernização cultural. Vinha de uma família judaica que, por um lado, se empenhara em adquirir os valores culturais do Império – em que a língua e a literatura alemãs e a música austro-alemã ocupavam lugar de honra – e, por outro lado, mantinha seus laços com a tradição cultural dos velhos guetos, a língua iídiche, a religiosidade mística e messiânica dos judeus.

As duas faces do mundo bipartido de sua origem familiar – ambas, aliás, indistintamente obliteradas durante o genocídio – são presença constante em seu legado literário, quase 40 romances e antologias de contos que reconstroem sabores, atmosferas e emoções peculiares ao universo desaparecido dos judeus da Europa Central. 

Um mundo que desapareceu dos mapas pode sobreviver na memória, mas as letras hebraicas mostraram-se, por muito tempo, hostis a essa memória. Appelfeld sobreviveu ao genocídio da maneira mais improvável. Tendo sido aprisionado com os pais no gueto de Czernowitz, conseguiu, depois, fugir de um campo de concentração e passou a esconder-se em florestas. Sobreviveu juntando-se a um bando de ladrões de cavalos, trabalhou para uma prostituta, foi intérprete do exército russo.

Em 1946, chegou à Palestina Britânica, levado por um grupo de resgate de sobreviventes judeus do genocídio. Encaminhado a uma escola agrícola, conviveu com um imperativo impossível: esquecer a Europa, esquecer a infância em Czernowitz, para incorporar os mitos, crenças e costumes da Israel nascente, que via a si mesma como única alternativa para os judeus no pós-guerra.

É exatamente isso que ele se recusou a fazer, por toda sua vida. Sua literatura reconstrói, a partir de fragmentos, o mundo perdido de sua origem. Quando apresentou a um editor, no fim dos anos 1950, sua primeira coleção de contos, ambientados na Europa, foi quase insultado. “A quem interessa isso?”, perguntaram-lhe. E recebeu um conselho: “Escreva sobre a realidade israelense, sobre as cidades israelenses, sobre o kibutz”. Appelfeld nunca o fez. 

Os grandes nomes da literatura israelense são os que dedicam suas vidas – quando não suas obras – às eternas questões políticas do Oriente Médio. As entrevistas que eles concedem falam menos de literatura do que de política. Para Appelfeld, porém, literatura não é sociologia, não é psicologia, não é ilustração para um artigo de jornal. É arte. Possui um estatuto autônomo.

A ideia de que o engajamento político é dever do escritor vem de uma visão das relações entre Estado e cultura cuja raiz está na União Soviética, que prosperou e sobrevive, até hoje, no establishment literário de Israel. Toda uma linhagem de escritores, críticos e acadêmicos toma tal engajamento por óbvio e necessário. Appelfeld, porém, defende uma concepção cuja origem talvez se encontre no desprezo com que a Europa de língua alemã, na passagem do século 19 para o século 20, olhava para a esfera da política, vista como o âmbito do palpável e da banalidade brutal, ao qual se oporia a arte como o território do gosto, do onirismo, da experiência estética.

“Para mim, a literatura é um caminho para o mundo interior. Não sou profeta. Não me levanto, dia após dia, para gritar ‘isto tem que ser assim, aquilo tem que ser assado!’ Venho de um mundo diferente, que foi arruinado pela catástrofe, e o que encontrei aqui (no cenário literário israelense) foi, com o perdão da palavra, provincianismo. E na província, cada qual se levanta e diz ‘quero isto, quero aquilo!’”, disse, em entrevista a mim concedida em 2013.

A obra de Appelfeld coloca-se a contrapelo da sucessão de desastres ideológicos que marcaram o século 20 europeu. É um monumento, feito de humildes fragmentos, a um mundo aniquilado. 

* LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR  DE LITERATURA HEBRAICA E  JUDAICA NA USP. AUTOR DE  RUÍNAS RECOMPOSTAS: JUDAÍSMO CENTRO-EUROPEU EM AHARON  APPELFELD, JOSEPH ROTH E GEORG HERMANN (HUMANITAS, 2013),  

TRADUZIU, DE AHARON APPELFELD, O ROMANCE EXPEDIÇÃO AO  INVERNO (PERSPECTIVA, 2011)

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