Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Aguinaldo Silva lança 'Turno da Noite', um relato de sua vivência na reportagem criminal

Livro revela bastidores de grandes casos policiais que cobriu

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2016 | 06h00

Em um determinado trecho de Turno da Noite (Objetiva), livro em que relata suas memórias como repórter policial nos anos 1960 e 1970, o escritor e hoje autor de telenovelas Aguinaldo Silva rompe momentaneamente a frieza implacável que marca aquela profissão e confessa, em uma dolorosa reflexão: “O que mais me chocou nas vezes em que vi uma cena destas foi a absoluta solidão de cada morto. Sempre achei que nós, repórteres, devíamos andar com velas nos bolsos para acender pelas almas daqueles mortos solitários... Mas, que nos desculpem todos eles, nenhum de nós nunca se lembrou de fazer isso”.

“Estar diante de uma pessoa morta é sempre algo chocante”, conta Aguinaldo ao Estado, em entrevista por telefone. “Eu ficava espantado com certos repórteres que remexiam os bolsos dos cadáveres, em busca de algum detalhe interessante. Repórter policial era como um legista, que precisa desenvolver uma frieza necessária para lidar com a morte.”

Em Turno da Noite, Aguinaldo apresenta um recorte de sua vida, desde a publicação de seu primeiro romance, que lhe abriu as portas do jornalismo, até a experiência com a reportagem policial, seja em um grande jornal, como O Globo, seja na chamada imprensa alternativa, em periódicos como Opinião.

O que o livro deixa claro é que o jornalista jamais foi abandonado pelo escritor – ao contrário da maioria dos profissionais da época, Aguinaldo exercitava suas qualidades literárias para recontar um fato real, com o agravante de, na maioria das vezes, dispor de um tempo curto para finalizar o texto. “Sempre procurei manter meu estilo ao escrever uma reportagem e, para isso, necessitava da maior quantidade de detalhes possível.”

Munido desse instrumental, Aguinaldo cobriu crimes misteriosos que entraram para a história da crônica policial, como o caso Lou, mulher que mandou matar dois namorados, ou Carlinhos, o garoto de nove anos raptado de sua casa em circunstâncias duvidosas e cujo paradeiro jamais foi desvendado. Esses e outros textos estão reproduzidos integralmente na segunda parte de Turno da Noite como prova do talento estilístico de seu autor.

A primeira parte traz um relato autobiográfico de Aguinaldo Silva que, antes de se tornar autor de telenovelas de sucesso, como Partido Alto e Senhora do Destino, foi um escritor precoce – aos 17 anos, lançou seu primeiro romance, Redenção para Job, quando ainda morava no Recife. Era 1961 e os críticos não acreditaram no que viam: do Nordeste, saía uma voz bela e devastadora.

A escrita envolvente (o livro foi publicado pela Editora do Autor, comandada nada menos por profissionais da estirpe de Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos) abriu-lhe as portas do jornalismo. Começou na Última Hora – Nordeste, ainda em Pernambuco, onde logo emplacou uma manchete ao presenciar um ato de preconceito quando uma cantora negra, Luíza Maranhão, foi impedida de se registrar em um hotel do Recife.

Logo Aguinaldo se transferiu para o Rio, ocupando a vaga de copidesque na Última Hora local. Detalhe: copidesque, para os desavisados, era a função do redator, que corrigia e melhorava estilisticamente os textos entregues no calor da hora pelos repórteres. “Eu adorava fazer isso”, conta Aguinaldo, no livro. “Alguns deles me detestavam por conta das mudanças radicais que eu fazia em suas matérias. Mas a maioria ficava de pé ao meu lado, enquanto eu esfaqueava e esquartejava seus textos, dispostos a tentar entender por que diabos – e com que prazer – eu fazia aquilo.”

Foi justamente tal fascínio pelo mundo das letras que acabou guinando Aguinaldo para a reportagem policial. Em 1969, ele já trabalhava em O Globo, quando, em um determinado dia, não resistiu e mexeu em uma entrevista que lhe caiu nas mãos com Wilza Carla, famosa vedete da época, criadora de casos contumazes e que tinha aprontado mais uma. “O texto, que me desculpe o repórter responsável por ele, não cheirava nem fedia. Mas eu o virei pelo avesso e o tornei, modéstia à parte, delicioso, com direito até à chamada na primeira página.”

Foi o suficiente para que Evandro Carlos de Andrade, então novo diretor do jornal e encarregado de promover ali uma grande reestruturação, transformasse Aguinaldo no copidesque das matérias de polícia que, na nova configuração, ganhavam mais destaque diário. “Orientado por ele, criei uma seção diária chamada Coisas da Vida, na qual um caso de polícia, mesmo sem maior importância, ganhava um tratamento especial, de crônica.”

Desde que se mudara para o Rio, Aguinaldo vivia na Lapa, região onde o crime e o assédio policial não eram incomuns. “O ambiente me fascinava, pois, na época, a Lapa não era cenográfica como hoje”, diz. Também passou quase três meses preso na Ilha das Flores, a mando da ditadura militar, por ter escrito o prefácio do livro Diário de Che Guevara. Com tanta experiência fornecida pela vida, Aguinaldo descobriu-se capaz de lidar com temas desconcertantes como sangue, cadáver, morte.

A atividade logo se tornou rotineira. “Para ouvir alguma coisa que valesse matéria, era preciso usar de muita criatividade”, escreve. “Mostrar solidariedade em relação aos vivos, e indignação contra o que acontecera com os mortos: jamais discordar da versão comum a todos os crimes segundo a qual membros da polícia tinham sido seus autores – mesmo porque ela era quase sempre verdadeira. Na época, talvez se sentindo respaldada pela ferocidade da ditadura, a polícia matava. Não era como hoje em que ela divide, até com alguma desvantagem, as estatísticas com os bandidos.”

Aguinaldo passou também a conviver com repórteres de outros jornais que, como ele, tinham a ambição de tentar desvendar os crimes antes da polícia. “Eu queria desvendar a alma da pessoa que cometia algum assassinato, o que a movia a fazer isso. Por isso que todos os jornalistas acabavam se envolvendo demais nos casos. Era uma obsessão – quando reunidos, só falávamos sobre isso”, conta.

O escritor conta no livro sua dificuldade em não ficar chocado com o assunto. “Uma pergunta que sempre me fazem, quando digo que fui repórter policial, é se cheguei a ver corpos. Vi alguns. Até carbonizados. São ossos do ofício, que se tornam lembranças traumatizantes”, afirma, no livro.

Aguinaldo Silva conseguiu exercitar melhor seu jornalismo literário quando trabalhou em semanários como Opinião, que lhe davam mais tempo e espaço. Ele conta que só começava a digitar quando estava com a matéria toda elaborada na cabeça. “Não queria perder tempo”, justifica.

Longe do jornalismo diário, Aguinaldo participou ainda da criação de um importante produto da imprensa alternativa: Lampião da Esquina, jornal com temas homossexuais que circulou entre 1978 e 1981, colaborando de forma decisiva para construção de uma identidade nacional pluralista.

A experiência policial foi importante também para a mudança de Aguinaldo para a TV Globo, em 1979, como um dos criadores da série semanal Plantão de Polícia.

TRECHO

"Mais então do que agora, era a Baixada Fluminense que servia de cenário aos casos extremos de violência policial na área que se convencionou chamar de Grande Rio. Era nos seus cantões que davam seus primeiros passos e faziam suas experiências macabras os promotores da violência - policiais e bandidos, cada um por si ou misturados -, numa sinistra associação que só faria crescer nas próximas décadas até ultrapassar as fronteiras da Baixada, se espalhar como um vírus tenebroso por toda parte e ocupar cada pedaço da Grande Rio, hoje um território permanentemente sitiado. Portanto, a única coisa que mudou desde então é que a violência deixou de ser um privilégio da Baixada e pode explodir a qualquer momento e em qualquer lugar, ou seja: tomou conta da cidade. O que faz com que aquela sensação de insegurança que me acometeu na minha primeira visita à região agora se faça sentir por toda a parte."

TURNO DA NOITE

Autor: Aguinaldo Silva

Editora: Objetiva (200 páginas, R$ 39,90 versão em papel, R$ 27,90 e-book)

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