REUTERS/Olivia Harris
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África é contada por e para africanos através de uma nova literatura

Iniciativas editoriais e literárias estão agitando a cena do continente e apoiando novas narrativas sobre as suas pessoas e a sua história

Lucía Blanco Gracia, EFE

26 Dezembro 2018 | 11h40

NAIRÓBI — Os africanos devem contar histórias sobre a África. Esse é o pedido de uma nova geração de escritores, editoras e grupos do continente que defendem uma literatura autóctone mais poderosa, complexa e cheia de matizes.

"A maioria de nós cresceu lendo literatura europeia, mas, quando você lê literatura africana, você sente que está interagindo com a verdade, que você está nela", explicou à Agência Efe o editor da Kwani Trust, Otieno Owino.

Essa editora independente surgiu em 2003 como resposta de um grupo de jovens escritores quenianos frustrados com a rejeição da indústria literária tradicional, "muito conservadora e 90% concentrada na publicação de livros didáticos, que representam um negócio seguro", detalhou Owino.

O século passado mostrou para a história grandes nomes na literatura africana, como o queniano Ngugi wa Thiong'o e o nigeriano Chinua Achebe, mas todos eles escrevem ou escreviam marcados por uma experiência colonial dolorosamente recente que tingia seus textos de desejos de liberdade e crítica política.

"Agora, no entanto, há uma demanda crescente de literatura africana sobre a vida cotidiana", afirmou a escritora queniana Makena Onjerika, ganhadora da última edição do prêmio Caine, um dos reconhecimentos literários de maior destaque do continente.

A autora, que ganhou o prêmio por um breve relato intitulado Fanta Blackcurrant, considera que está acontecendo uma "reocupação do espaço literário" e ressalta: "Não precisamos que nos digam o que podemos escrever, nem os críticos literários africanos nem o público ocidental".

Além da eminência da narrativa ocidental na literatura, as pequenas editoras como a Kwani ou autores emergentes como Onjerika devem enfrentar os altos impostos sobre os livros (no Quênia chegam a 16%) e a falta de infraestrutura para enviá-los no continente.

"Na África não existe uma rede de franquia postal unificada", lamentpi Owino, o que faz com que o custo de distribuição possa inclusive duplicar o preço inicial do livro.

Para remediar a situação, surgiram iniciativas como a livraria virtual Rugano Books, cujo fundador, Magunda Williams, explicou à Efe que "conseguir livros de outros lugares do continente não é acessível para a classe média porque é muito caro e, para as editoras, é mais fácil importar dos Estados Unidos ou do Reino Unido".

Esse projeto nascido em 2015 quer, além disso, dar lugar a gêneros pouco comerciais, como a poesia, que as livrarias tradicionais não querem vender.

Segundo Williams, que também é escritor e poeta, "quando criança, a literatura africana era consumida nos colégios, por obrigação, enquanto a literatura europeia era lida por diversão", algo que a Rugano Books tenta reverter.

Impulsionar a literatura escrita no continente ou por autores afrodescendentes também tem como objetivo dar um novo valor à identidade africana, até agora definida pelo olhar "ocidental que a simplifica", disse Murewa Olubela.

Essa escritora estabelecida nos EUA fundou a Single Story Foundation para apoiar jovens escritores africanos, tanto residentes na África como fora, e combater os estereótipos na imprensa e em qualquer produto cultural.

"Embora os países sejam completamente diferentes, na África tudo acontece em uma só caixa", declarou Olubela, ressaltando que "quanto mais holísticas, ricas e próximas à realidade forem as histórias, mais as pessoas poderão se identificar com elas".

Entre os nomes que soam com força e que integram esta nova geração de autores "afrocentrados" se destacam a nigeriana Akwaeke Emezi, com o romance Freshwater.

Também se sobressaem a zimbabuana NoViolet Bulawayo, com We Need New Names; e o queniano Peter Kimani, com Dance of the Jakaranda.

"No entanto, o rótulo de escritor africano pode ser asfixiante se for acompanhado de expectativas que produza algo específico e trate temas como a pobreza ou o conflito", disse Wanjeri Gakuru, jornalista e editora do grupo pan-africano de autores Jalada Africa.

Esse grupo nasceu em 2014 e é integrado por cerca de 40 escritores que exemplificam as diversas experiências desse rótulo. Em um desafio às temáticas tradicionais, publicaram antologias com temas polêmicos como sexo, morte e o chamado "afrofuturismo", que consiste em "imaginar os corpos negros em futuros alternativos", esclareceu a jornalista.

Iniciativas como Jalada, Kwani e Rugano Books estão agitando a cena literária do continente africano e apoiando novas narrativas sobre as suas pessoas e a sua história.

"Queremos que nossa visão seja considerada válida e valiosa em si mesma, não como uma reação", concluiu Gakuru. 

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