John Midgley
John Midgley

‘Afiadas’ traz perfis de grandes mulheres da crítica cultural do século 20

Livro da jornalista canadense bota em evidência escritoras que transformaram o panorama da análise da cultura no século 20, como Hannah Arendt, Susan Sontag, Pauline Kael e Joan Didion

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

03 Novembro 2018 | 06h00

O século 20 foi marcado por lutas femininas fundamentais, do sufragismo a uma maior presença nas universidades e nas páginas dos jornais e revistas – acompanhar a narrativa de Afiadas, o livro da jornalista canadense Michelle Dean lançado agora no Brasil pela Todavia, é caminhar ao lado de dez intelectuais que marcaram presença no tabuleiro cultural e intelectual em língua inglesa da época.

A seleção tem nomes conhecidos, como Hannah Arendt, Susan Sontag e Joan Didion, outros ligados ao cinema, como Pauline Kael, Renata Adler e Dorothy Parker; duas autoras conectadas ao jornalismo, Janet Malcolm e Rebecca West, e Dorothy Parker e Mary McCarthy.

Em campos de atuação distintos, da reportagem à ficção, do relato histórico à poesia, e sempre com um pé na crítica cultural, essas escritoras acabaram reunidas aqui “a partir de um elogio que receberam em vida: afiadas”. Outra característica que as une, segundo Dean, é que “elas afrontaram abertamente todas as expectativas relacionadas a gênero antes que qualquer movimento feminista organizado tivesse atuado de forma a obter ganhos para as mulheres no seu conjunto” – mesmo assim, “nenhuma delas, em princípio, se satisfez atuando como ativista”.

Um dos propósitos a que o livro se propõe é revisar como as atitudes e discussões políticas e estéticas das autores convergem para o feminismo. “Essas mulheres não eram adesistas de nada. Poucas delas tinham qualquer filiação política durante todo o tempo em que estavam fazendo seu trabalho ‘afiado’”, diz Dean por e-mail ao Estado. “Mas como digo na conclusão do livro, não estou certa se realmente importa que elas não usassem a palavra ‘feminista’. O impacto na cultura foi feminista.”

Dean passa então a delinear perfis biográficos das escritores, fortemente inspirados nos seus escritos em revistas como The New Yorker, Vanity Fair, Life, New York Review of Books, Partisan Review, e também jornais – sem deixar de lado a produção cinematográfica de autoras como Parker e Nora Ephron, bem como as ficções de Mary McCarthy, Susan Sontag e Joan Didion e os ensaios longos publicados em livros por todas elas.

Afiadas atraiu resenhas mistas na imprensa internacional. No Guardian, depois de dizer que o projeto é “ótimo e digno”, a escritora Rachel Cooke escreveu que o livro está longe de ser perfeito. “Ela vai de leve quando deveria mergulhar; seu tom é uniforme, com o resultado de algum modo desalentador de que seus ensaios são consideravelmente menos distintos do que as mulheres que retratam”. 

Kristen Roupenian, autora do conto Cat Person, escreveu no TLS primeiro que Dean faz um “trabalho excelente ao se mover fluentemente entre seu grupo de escritoras”, mas depois admite que teve problemas com a falta de um traço claro que define o grupo, bem como a ausência de escritoras negras “afiadas” (Dean faz menção a Zora Neale Hurston, mas para por aí). Ao reconhecer no texto seu tratamento superficial da obra de Hurston, escreve Roupenian, Dean perde uma chance. “Limitando seu livro para escritoras que se encaixam em certo perfil demográfico, ela não está simplesmente reportando o estado branqueado da crítica literária; está perpetuando-o”.

Laura Jacobs, no The New York Times, talvez tenha sido a mais incisiva. Apesar de reconhecer méritos no livro, especialmente para neófitos na obra das autoras listadas, ela questiona várias escolhas de Dean, especialmente em questões de Ephron, Malcolm e Hannah Arendt. Sobre Eichmann em Jerusalém, ensaio de Arendt de 1963 sobre crimes de guerra, Jacobs diz que Dean “apresenta essa controvérsia, e muitas outras, com uma mão hábil, mas às vezes pula à frente justamente quando gostaríamos que entregasse seu próprio ponto de vista”. A frente, ela menciona “frases preguiçosas” e uma prosa que pode se tornar “uma conversação frouxa, palavrosa e imprecisa”.

Ela própria crítica cultural premiada, com trabalhos para revistas citadas acima, Dean, agora do outro lado do balcão, diz que seu livro seria convidativo para resenhas negativas por ser sobre “o poder e função crítica das resenhas negativas”.

Situadas num panorama cultural muito diferente do atual, o trabalho das autoras analisadas tem focos diferentes do debate crítico do século 21, especialmente da segunda década – redes sociais e Donald Trump.

“Há muito mais tipos de vozes na crítica cultural em 2018”, analisa Dean. “Há mais veículos e mais oportunidades. Você não precisa desvendar seu caminho até uma pequena elite em Nova York da maneira que as mulheres no meu livro tiveram que fazer. O que é de maneira geral um dado positivo.”

Ela se coloca no movimento contrário ao que diz que as vozes hoje em dia são exaustivas. “Eu prezo raciocínio e debate da mesma forma que as mulheres do livro fizeram. Então não posso evitar de ficar impressionada pelo escopo e pela liberalidade do que está acontecendo hoje, e me sinto frustrada por governos que tentam suprimir isso.”

AFIADAS

Autora: Michelle Dean

Tradutor: Bernardo Ajzenberg

Editora: Todavia (416 p., R$ 74,90, R$ 44,90 digital)

TRECHO de 'Afiadas'

“Apesar do espanto, nos artigos publicados na New Yorker em 1962 sob o título Eichmann em Jerusalém e depois no livro homônimo, Arendt deixa claro que acreditava que ele era um sujeito monstruoso. Mas também acreditava que o autoengano de Eichmann era uma condição geral na Alemanha nazista, um elemento do delírio coletivo que tornava o totalitarismo muito poderoso. O contraste entre o grande mal e o homem comum foi o que mais a chocou. (...)

Arendt com certeza captara alguma coisa, apesar da dificuldade (...). Provar que Arendt estava errada em relação a Eichmann, em referência ao registro histórico, tornou-se uma espécie de cruzada para muitas pessoas. (...) A crítica era sempre motivada por uma questão tão contundente quanto a tese de Arendt: estaria ela diminuindo a responsabilidade de Eichmann no Holocausto ao sugerir que ele não teria agido de forma inteligente e calculista?”

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