Julie Harris/Divulgação
Julie Harris/Divulgação

Adriana Lisboa escreve poemas de paixão e lucidez

'Parte da Paisagem' faz paradoxo com altivez e melancolia e resulta em ironia sutil e refinada

Alcides Villaça, Especial para O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2014 | 19h15

Se ao cortar palavras de um poema não houver de fato uma perda, terá havido um ganho. As palavras da prosa podem tender ao reforço de esclarecimento, a uma preocupação com a clareza que não serve do mesmo modo à poesia. A poesia busca ser sugestiva, mais que declaratória; é por vezes um enigma que se compreende muito acima da necessidade de resolução. Essas coisas me vieram à cabeça por conta dos belos poemas de Adriana Lisboa em Parte da paisagem (Iluminuras). Belos, no caso, porque falam de experiências vividas, intensas e sensíveis, por vezes transportadas para imagens fortes e reflexivas, outras vezes para um discurso próximo da prosa. De qualquer modo, as vivências pessoais se filtram numa avaliação em que se equilibram o rigor da análise e a delicadeza do afeto.

A poeta de agora já se firmara como prosadora, o que talvez faça entender certa cautela eventual ao atenuar a força bruta da metáfora, da imagem direta, pela prudência da comparação: a passagem “algo semelhante à colher / numa cela de presídio”, no poema Fresta, não ganharia força sem o “algo semelhante à”? Em outros poemas, as construções “como num laboratório, como num corpo”, ou “como se a casa se insubordinasse”, ou ainda “feito personagens tímidas”, carregadas de mediação comparativa, tiram um pouco do impacto do recolhimento, a um tempo lúcido e emocional, dos casos de amor, das viagens, dos lugares, das epifanias, da memória gravada no corpo e nas palavras. 

O eu poético de Adriana, fortaleza íntima (“continuo de pé”), resiste também como fragilidade (“só os condenados insistem”). Esse paradoxo da altivez melancólica dá em ironia sutil e refinada, é fonte de beleza, promove com delicadeza a transfiguração ácida de momentos vividos. Alguns deles: o testemunho da força artificial do universo masculino, o desejo de Pasárgada (“Vamos: faz uma vida que / estou de passagem / comprada”), a identificação com a estoica elegância de um Leonard Cohen, com os anjos terríveis de Wim Wenders. Ser “parte da paisagem”, como está no poema/título, implica uma integração telúrica (“sob o sol duro e o vento áspero”) e uma ambição cósmica (“seu corpo mineralizado”, “até que /de você só se saiba um cristal”). A poesia de Adriana Lisboa está engastada na tradição de uma lírica que não abdica da lucidez para a constituição da memória sensível. Seu discurso é marcado pela implacabilidade de julgamento e autojulgamento, por vezes sereno e impávido como o cisne de Saint-Saëns “desafinando a brutalidade e a tolice / do palco mundo”, outras vezes reagindo ao “extravagante baticum” que desafia “seu carnaval ao contrário”. 

Marca-se pela qualidade da prosa um ou outro momento do livro: o poema Testando a voz, por exemplo, é prosa em versos. Já Para voz e piano tem inequívoca qualidade musical graças ao andamento gerado pelas repetições: “quando (...)”, “quando (...)”. Essa poesia caminha entre securas cortantes e cadências admitidas, e faz seu leitor convencer-se de que a poeta, madura para a vida, está madura também para expressar as oscilações fundamentais.

Pelo menos desde Baudelaire o poeta se interroga com crescente ansiedade sobre a natureza e a função da poesia. Esse traço moderno está nos poemas de Adriana Lisboa. A inteligência de quem analisa vivamente as experiências pessoais e as reelabora com a consciência da cultura e da construção poética tende a sofrer a fome da simplicidade perdida: “Você queria que as palavras / fossem simples e poucas”, como “os objetos ao seu redor simples e poucos” - diz um poema dedicado à também poeta e crítica Mariana Ianelli, com quem Adriana divide aqui um mesmo anseio de criação. “Tirar da palavra a trava de proteção”, como diz em outro, pode ser uma aspiração máxima de nossas verdades íntimas, mas não deixa de estar nas travas das palavras uma chave da poesia de nosso tempo. Parte da paisagem integra essa poesia com fôlego enérgico, acima dos clichês, no cultivo de uma arte que se reflete no espelho dos poetas críticos, com quem Adriana compartilha “esta nossa fé torta, exonerado o dogma”.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA DA USP

PARTE DA PAISAGEM

Autora: Adriana Lisboa

Editora: Iluminuras (120 págs., R$ 41)

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