Michael Lionstar
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'Adeus, Gana' e 'Reino Transcendente' mergulham nos traumas que definem as famílias

Taiye Selasi, de 42 anos, e Yaa Gyasi, de 32, falam sobre seus romances que retratam as reviravoltas de famílias de imigrantes ganenses vivendo nos Estados Unidos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

Taiye Selasi nasceu em Londres, filha de mãe nigeriana e pai ganense, em 1979. Yaa Gyasi nasceu em Gana uma década depois. As duas cresceram nos Estados Unidos.

Por uma coincidência editorial, elas tiveram livros publicados na mesma época no Brasil, por editoras diferentes. Adeus, Gana (Tusquets) é o romance de estreia de Taiye, lançado originalmente em 2013. Reino Transcendente (Rocco), publicado em inglês em 2020, é o segundo de Yaa, revelada com O Caminho de Casa, sucesso de crítica e público. Os dois romances têm traços parecidos: contam histórias de famílias ganenses vivendo nos Estados Unidos, com dramas que se aproximam e feridas diferentes. 

Em Reino Transcendente, o pai deixa a mulher e os dois filhos para trás nos EUA. Viver lá era o sonho dela, que queria um bom futuro para o primogênito – mas ele não dá conta e volta provisoriamente para Gana e lá fica, para sempre. Adulta, a menina, que mal conviveu com o pai, se torna uma neurocientista e dedica sua pesquisa a entender o vício em opioides, que matou seu irmão adolescente (um atleta promissor que se viciou após um acidente banal num jogo irrelevante), e a depressão, que levou sua mãe a afundar numa cama após a morte do garoto. Enquanto passa as horas no laboratório com seus ratos, memórias e a imagem da mãe em sua casa, ela busca uma forma de conciliar fé e profissão.

Em Adeus, Gana, o pai, um imigrante ganense que se tornou um importante médico nos Estados Unidos, também deixa a família – ele sai de casa sem qualquer explicação, abandonando a mulher e os quatro filhos, e morre 16 anos depois, em seu país de origem. Seu abandono marcou cada membro daquela família de uma maneira, e isso é retratado na obra a partir do ponto de vista deles, e os afastou. Agora, estão todos juntos, com seus fantasmas e traumas, enterrando o pai. 

Lançado em 16 países, o livro de Taiye Selasi conta uma história de não ditos. De busca por pertencimento, aceitação, identificação, identidade e amor – dentro de uma família. Adeus, Gana é ainda um livro que reafirma o cuidado que devemos ter com as crianças, já que é sobretudo o que vivemos na infância que vai nos definir como pessoas. Uma história triste e bonita, que mostra que há espaço para reencontros e conexão, que dá para juntar nossos cacos mesmo quando não é possível consertar tudo, mesmo quando chegamos tarde demais. 

Taiye Selasi e Yaa Gyasi conversaram com o Estadão por e-mail sobre seus delicados romances.

Literatura, diáspora africana e família

Autora da novela The Sex Lives of African Girls, que marcou sua estreia na literatura e foi incentivada por ninguém menos do que a Nobel de Literatura Toni Morrison (1931-2019), Taiye Selasi disse que essa não foi uma história que ela escolheu, deliberadamente, contar. “Eu compartilho a ideia, que muitos escritores têm, de que não escolhemos nossas histórias. Elas nos escolhem. Por que a família Sai me escolheu? Não posso dizer. Talvez porque meu coração tenha se partido nos lugares certos. Um escritor não escolhe a sua missão, ele a aceita porque ele tem certas questões. E eu tinha as minhas.” 

A escritora, que já viveu em Roma e Berlim e se mudou para Lisboa em busca do sol e do Atlântico, que também banha Acra e Boston, onde passou a infância, continua: “Eu cresci num mundo de imigrantes da diáspora africana do qual os pais estavam frequentemente ausentes. Da infância à vida adulta, eu carreguei questões como: O que aconteceu com esses homens? O que os machucou tanto? O que levou não apenas à sua ausência, mas ao seu silêncio? O que feriu os pais: esta talvez seja a primeira questão. E muitas outras seguiram. Como é ser uma mãe? Um irmão? Um gêmeo? Como explicamos, sobretudo para nós mesmos, o fato desconcertante da atração instantânea? O que acontece com um homem que não sabe, ou que não vê, como ele é profundamente amado? O quão bonito deve ser saber que somos amados, verdadeiramente amados, antes de morrermos?”.

Selasi, que trabalha com televisão, comenta que tem muito o que dizer quando o assunto é raça, imigração ou classe social – e que o faz em seus ensaios, artigos e TED Talks. “A ficção é o único gênero em que me liberto de qualquer obrigação política ou sociológica. É onde vou para explorar o que significa ser humano”, ela finaliza.

Reino Transcendente é um romance menos complexo do que Adeus, Gana em termos de narrativa e personagens. A história também vai e volta no tempo, mas é narrada por uma única pessoa, ao contrário do livro de Taiye, que traz vários olhares para uma mesma história familiar. Aqui, Gifty é uma cientista desamparada e obstinada, que também carrega marcas de uma infância difícil. 

Yaa Gyasi estreou na literatura com O Caminho de Casa, uma história sobre escravidão. Agora, ela mergulha na questão do imigrante, que ela conhece bem, e da religião, idem. “Reino Transcendente é um romance íntimo. Ele me permitiu pensar nas reviravoltas da imigração, particularmente a especificidade de se mudar para uma cidade onde há poucos imigrantes como você”, conta a autora que cresceu em Huntsville, no Alabama, onde a história de Gifty também começa. 

“Meus dois romances são muito pessoais no sentido de que são livros que eu gostaria de ter lido quando era garota e me sentia desamparada. Significa muito, para mim, escrevê-los agora que sou adulta. É, de certa forma, a cura para a solidão.” Gyasi diz ainda que espera poder escrever sempre “histórias sobre negritude, imigrantes e sobre se sentir em um entrelugar”.

Ao contar o drama desta família, a escritora se volta a uma questão urgente: o cuidado com a saúde, a mental sobretudo, de pessoas pobres. Nana nunca se recuperou do abandono do pai e se vicia durante um tratamento que deveria devolvê-lo ao caminho para o futuro brilhante que ele teria. A mãe, em profunda depressão, rejeita qualquer tratamento psicológico ou psiquiátrico, porque Deus a ajudará, ela pensa – e não há ninguém olhando para isso.

“Eu queria mesmo levantar essas questões. A crise dos opioides, aqui nos Estados Unidos, é atroz. 93 mil pessoas morreram em 2020 apenas por overdose de droga. É um problema de saúde pública num país que tem uma infraestrutura de saúde precária e praticamente nenhum serviço social. Pessoas pobres, negras e os imigrantes são deixados de lado. A vida das pessoas está em jogo, e o que é um romance se não uma tentativa de descrever o que significa estar vivo?”, comenta.

Gifty, a protagonista, sobreviveu a uma infância turbulenta e nos conta essa história no fim de seu doutorado, em Stanford. Ela seguiu adiante, com sucesso acadêmico e tropeços no campo do afeto. E ela escreve – para tentar se organizar e se entender como pessoa. No fim das contas, é por meio da fala e do compartilhamento que a “cura” começa? “Escrever é, para mim, criar ordem e tentar dar forma a coisas que parecem disformes. É uma experiência profundamente comovente e acho que também promove a cura. Penso que conversar e compartilhar abrem espaço para o tipo de vulnerabilidade que permite a cura. É um começo”, ela responde.

Confira trechos de 'Adeus, Gana' e de 'Reino Transcendente'

  • Adeus, Gana

Autora: Taiye Selasi

Trad.: Isadora Prospero

Editora: Tusquets (352 págs.; R$ 56,90; R$ 44,90 o e-book)

“Em um domingo, antes do amanhecer, Kweku morre descalço. Suas pantufas, como cachorros ao lado da porta do quarto. No momento, ele está no limiar entre o solário e o jardim, considerando se deve voltar ao quarto para calçar as pantufas. Não fará isso. Sua segunda esposa, Ama, está dormindo naquele cômodo, com os lábios entreabertos, a testa levemente franzida e o rosto afogueado, buscando um pedaço fresco do travesseiro. Ele não quer acordá-la.”

(...)

“No fim da manhã, quando a neve começou a cair e o homem terminou de morrer e um cão farejou a morte, Olu irá sair do hospital sem qualquer pressa, deixar o BlackBerry e o café de lado e começar a chorar. Ele não poderá saber como o dia nasceu em Gana. Estará a quilômetros, oceanos e fusos horários de distância – e outros tipos de distância mais difíceis de abarcar, como mágoa, raiva, luto calcificado e aquelas perguntas não feitas ou não respondidas por tempo demais e gerações de silêncio e vergonha entre pais e filhos –, misturando leite de soja no café em uma lanchonete de hospital, com os olhos embaçados, sonolento, presente e não presente. Mas ele vai imaginar a cena – seu pai, ali, morto em um jardim, um homem saudável de cinquenta e sete anos, com um físico impressionante, os bíceps pequenos e redondos repuxando a pele dos braços, a barriga pequena e redonda repuxando a camisa, uma regata Fruit of the Loom com nervuras rasas, de um branco imaculado sobre marrom-escuro, usada com aquelas calças MC Hammer que ele odeia e que Kweku ama (…)”

  • Reino Transcendente

Autora: Yaa Gyasi

Trad.: Waldéa Barcellos

Editora: Rocco (320 págs.; R$ 64,90; R$ 32,90 o e-book)

“Sempre que penso em minha mãe, vejo uma cama de casal queen size com ela ali deitada, uma quietude de muita prática permeando o quarto. Por meses a fio, ela colonizou aquela cama como um vírus; na primeira vez, quando eu era criança, e depois, de novo, quando eu estava na pós-graduação. Na primeira vez, me mandaram para Gana, para esperar sua recuperação. Enquanto estava lá, eu caminhava pela feira de Kejetia com minha tia, quando ela agarrou meu braço e apontou para alguém.

– Olha, um maluco – disse ela em twi. – Está vendo? Um maluco.

Fiquei mortificada. Minha tia falava tão alto; e o homem, alto, com a poeira grudada no cabelo rastafári, estava perto o suficiente para ouvir.”

(...)

“Quando nós éramos quatro, eu era pequena demais para dar valor. Minha mãe costumava contar histórias sobre meu pai. Por ter mais de 1,90 m de altura, ele era o homem mais alto que ela jamais tinha visto. Ela achava que talvez ele até fosse o homem mais alto de toda a Kumasi. Ele ficava à toa por perto da banca de comida da mãe dela, fazendo piada sobre a teimosia de minha avó de só falar fânti; insinuando-se para ela lhe dar de graça um saquinho de achomo, que ele chamava de chin chin, como os nigerianos dali chamavam. Minha mãe estava com trinta anos quando eles se conheceram, trinta e um quando se casaram. Já era uma solteirona pelos padrões ganenses, mas ela disse que Deus a mandara esperar. E, quando conheceu meu pai, ela soube que estivera esperando por ele.

Ela o chamava de Cara do Chin Chin, como a mãe dela o chamava. E, quando eu era bem pequena e queria ouvir histórias sobre ele, batia no meu queixo até minha mãe me atender.

“Me fala do Chin Chin,” era o que eu dizia. Quase nunca pensava nele como meu pai.”

 

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